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Da finitude

por Sofia Loureiro dos Santos, em 15.02.20

daphne wright.jpg

Daphne Wright

Swan, 2007

 

Há uns meses, numa das sessões clínicas a que assisti, o director da unidade de cuidados intermédios, chamou a atenção da assistência da incapacidade que temos em falar com as pessoas sobre se queriam e o que queriam caso estivessem com uma doença incurável e a aproximar-se da morte. Ou mesmo com os nossos familiares e amigos mais velhos, com quem nos é mais próximo e com quem mais amamos.

E disse-nos que, na maioria das vezes, as pessoas mais velhas e doentes queriam falar disso, esclarecer que não queriam determinado tipo de tratamentos, que queriam que os deixassem morrer em paz, sem idas repetidas aos serviços de urgência, internamentos, medicamentos, entubações, acessos vasculares, bombas de oxigénio, etc. Que, quando o conseguiam fazer, ficavam mais serenos e compensados, tinham a certeza que a sua finitude era uma inevitabilidade que eles próprios já tinham aceite e que nós nos recusamos a ver.

E perguntou mesmo quantos de nós sabiam o que queriam os nossos pais quando a morte se aproximasse. Se sabíamos dos seus preparativos e anseios, da sua preocupação com a nossa própria dor, da sua tristeza ao perceberem que fugíamos do assunto como se ele não existisse. E que essa fuga os acabrunhava mais que a decisão de deixar a morte chegar.

Nesta discussão da eutanásia ouço muitos pronunciarem-se mas pergunto-me se, dentro de si mesmos, já terão tido a coragem de enfrentar este tipo de conversas. Se, no fundo, todos esperamos que por algum decreto divino tudo seja revelado e resolvido sem que tenhamos que nos envolver.

E isso é impossível. E os nossos receios são aqueles que mais nos assombram e mais nos impedem de deixar que as decisões não sejam as nossas, mas de quem está verdadeiramente em causa.

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publicado às 21:05


1 comentário

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De joão moreira a 16.02.2020 às 15:33

Isso mesmo!

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