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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da dignidade

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Tenho-me abstido o mais que posso de comentar tudo o que diz respeito a José Sócrates e à envolvente da Operação Marquês.

 

Por isso mesmo vou assistindo forçadamente calada às manchetes dos pseudo-jornais e dos pseudo-canais televisivos, em que se declamam fragmentos de escutas telefónicas, mensagens de telemóveis trocadas entre as pessoas que conviviam com o ex Primeiro-ministro, com o objectivo de manter acesa a curiosidade da população, que quanto mais espreitar para dentro da intimidade das figuras públicas mais se sente igual a elas.

 

Continuo a aguardar que a Justiça faça o seu papel, acusando e julgando José Sócrates, cuja vida já está arruinada, tenha ou não culpa, tal como a vida dos seus familiares e amigos, tenham ou não cumplicidade nas suas eventuais malfeitorias.

 

Independentemente do julgamento da sua acção política, não há ninguém que possa afirmar hoje em dia, eu incluída, que não tenha dúvidas crescentes quanto à boa-fé de Sócrates, pois o que tem vindo a público pelas suas próprias palavras é, no mínimo, muito estranho e duvidoso. E aceitar que uma pessoa em quem confiámos a responsabilidade de nos governar nos usou e ludibriou é muito difícil, principalmente para a imagem que temos de nós próprios – como é possível termos sido assim enganados?

 

Fernanda Câncio foi apanhada nesta voragem. Não goza das simpatias de muita imprensa e de muita gente por inúmeros motivos: pela sua personalidade, pela sua forma de fazer jornalismo de causas, tantas vezes truculenta e totalmente engajada, mas principalmente porque foi namorada de José Sócrates e não há nada como a devassa das relações amorosas, associadas a eventuais crimes de colarinho branco de políticos, para manter acesa a chama do voyerismo. E além disso há muito quem justifique o prazer que retira com a queda em desgraça dos poderosos com o dito popular (tal como o da seriedade da mulher de César, que serve a tantos e tantas vezes é dito) - quem com ferro mata com ferro morre. Mas não deixo de admirar a sua força e a sua determinação em lutar por aquilo que acredita estar certo. Quem tem opiniões está sempre sujeito a crítica e Fernanda Câncio nunca escolheu o conforto de não se pronunciar.

 

Foi por isso com algum pudor que li o texto que publicou na Visão. Um texto de quem não vê outra alternativa se não expor-se, revelando pormenores da vida privada que sempre manteve a recato da praça pública. Infelizmente tenho sérias dúvidas de que este testemunho altere as opiniões já formadas a seu respeito. Ninguém gosta de se ver ao espelho e de perceber que não é presciente e que a sua confiança nos outros foi traída. É muito mais fácil concluir que os poderosos são vilãos e corruptos e que se acompanham de gente igual, e que quem rodeia os poderosos só o faz para se aproveitar deles. Mas, como ela própria diz, o mais importante é não perder a identidade e o respeito por si própria. Sempre lhe admirei a coragem e a determinação apesar do desacordo com muitas das suas posições.

 

À Fernanda Câncio, e a todos os que prezam a sua privacidade e o respeito pela sua dignidade, a minha total solidariedade.

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