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COVID-19: desconfinamento e gestão dos riscos

por Sofia Loureiro dos Santos, em 22.06.20

Desconfinamento_desktop.jpg

Os meios de comunicação, as redes sociais e os inúmeros comentadores, virologistas e epidemiologistas que pululam pelo espaço mediático, já decidiram que estamos muito mal, que o governo, a ministra da Saúde, a DGS e o Presidente, para além dos jovens, dos velhos e dos de meia-idade, estão a portar-se terrivelmente e a promover surtos de COVID-19, tanto que já há países na Europa que nos baniram como bons companheiros para o turismo dos seus concidadãos.

A política é feita de percepções e eu confesso que não percebo a quem interessa continuar a espalhar a irracionalidade do medo. Os países da Europa, que propagandeiam a solidariedade e escondem as suas estatísticas para se promoverem a eles próprios, não surpreendem.

Mas o alarmismo social constante, diário, com a demonstração de hecatombes e pedidos de mais confinamento, cercas sanitárias, multas, etc., parecem-me exageradas e sem sustentação.

Nada disto significa que não esteja preocupada. Só se fosse tola ou irresponsável. Mas não percebo tanto alarido. Será que se esperava que com o desconfinamento o vírus desaparecia?

Apesar de não ter sido (e não ser) adepta de medidas draconianas de confinamento, reconheço que tiveram uma enorme vantagem – achatar ou aplanar a curva em Portugal. Mas aplanar a curva não significa acabar com a pandemia.

covid 21062010.jpg

Número de casos confirmados por dia e percentagem da evolução de novos casos (dados da DGS - 21/06/2020)

 

Aquilo que se conseguiu e muito bem, foi evitar a infecção simultânea de muitas pessoas, inundando os serviços de saúde e impossibilitando o tratamento daqueles que precisavam de internamento, nomeadamente nas unidades de cuidados intensivos (UCIs).

Ou seja, o contágio continua mas o número de doentes ao mesmo tempo foi controlado, provavelmente uma das maiores razões para a manutenção de uma taxa de letalidade relativamente baixa, comparando com outros países que não conseguiram suster a avalanche (Itália, Espanha, Reino Unido, por exemplo).

mortalidade 21_06_2020.jpg

Taxa de letalidade em Portugal (dados da DGS - 21/06/2020)

 

letalidade europa 22062020.jpg

Taxa de letalidade comparada com alguns países europeus (dados de 21/06/2020)

 

Logo que se permitiu a reabertura das actividades económicas, escolas e algumas actividades de lazer, por muito cuidado que haja – e é preciso que continue a haver e que se seja rigoroso nas medidas de prevenção – é impossível impedir que haja novas infecções. Isso só se resolverá ou com a vacina ou com a imunidade de grupo.

A percentagem de crescimento de novos casos tem-se mantido à volta de 1%, com os internamentos nas enfermarias e nas UCIs controladas, também mais ou menos estáveis, embora a descer ligeiramente (se olharmos para as variações semanais e não diárias).

evolucao covid 21_06_2020.jpg

Número de casos por dia e evolução dos internamentos (enfermarias gerais e UCIs - dados da DGS - 21/06/2020)

 

Na realidade Portugal mantém um número de infectados por milhão habitantes inferior a muitos países que nos querem barrar a entrada, e uma letalidade à volta dos 4%, também inferior a muitos desses países.

É importante perceber que as comparações directas são difíceis, pois os dados não são apresentados de uma forma homogénea e, pior, nem sempre podemos acreditar na fiabilidade dos mesmos. Por exemplo – testes significam testes diagnóstico ou todo o tipo de testes? E contam-se todos os que se fazem ou por pessoa? E como são contados os óbitos?

Por isso em vez de arrepelarmos agora os cabelos, flagelando-nos e aos responsáveis pela gestão da epidemia, como antes nos congratulávamos pelo bom exemplo, olhemos com serenidade a situação e tentemos ser racionais.

Cumprir todas as medidas preconizadas pela DGS e pela OMS – concordemos ou não, é nas instituições que nos devemos apoiar. O vírus é desconhecido e há muitíssimas coisas que só serão claras daqui a uns anos, nomeadamente a avaliação das estratégias usadas – confinamentos mais ou menos restritivos, usos de máscaras (vários tipos), terapêuticas, etc. Por isso temos que ter a humildade de reconhecer a nossa ignorância e nos irmos adaptando às evidências que vão surgindo.

Combater os mitos, as fake-news, os alarmismos e, sobretudo, os estados bipolares da sociedade, que tanto aplaude entusiasticamente – somos os maiores – como se denigre estupidamente – somos os piores.

É forçoso que regressemos o mais rapidamente à vida, usando o conhecimento já existente e as cautelas inerentes, mas aceitando que não há risco zero. É imperioso que recomecemos a tratar as outras patologias que não se confinaram à espera que o SARS-Cov-2 passasse. É indispensável que mantenhamos as rotinas de vacinação porque há já doenças que se podem evitar com vacinas – aproveitemos para nos livrarmos das crenças reactivadas que têm levado a um recrudescimento de infecções que também são perigosas e que matam, essas totalmente evitáveis.

E preparemo-nos para outras pandemias. Esta não é a primeira nem será a última.

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publicado às 11:40


10 comentários

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De Isa Nascimento a 23.06.2020 às 12:37

Muito bom Sofia! Concordo totalmente com a sua perspetiva. Não compreendo esta faceta tão portuguesa de nos vermos como "bestiais" ou "bestas", transformando-nos num ou noutro do dia para a noite...
A verdade é que continuamos a ser um dos raros casos em que os hospitais não colapsaram nem amontoámos cadáveres... O mais importante é que assim continue e, como muito bem diz "recomecemos a tratar as outras patologias que não se confinaram à espera que o SARS-Cov-2 passasse."
Temos mesmo de olhar com serenidade e racionalidade a situação. Continuar a vida com responsabilidade e conscientes de que o risco continuará entre nós ainda muito tempo...
Bem-haja por esta partilha Sofia
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De Sofia Loureiro dos Santos a 23.06.2020 às 19:56

Obrigada, Isa.
Temos que resistir ao alarmismo e à irracionalidade do medo. E continuar, com todos os cuidados possíveis, mas temos de viver. Por nós e pelos outros.
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De Manuel da Rocha a 25.06.2020 às 11:45

Aponta alguns dos problemas. No entanto, se me permite, note que os países que "nos barram a entrada" também são os países que barravam entradas de espanhóis e franceses, até à passada segunda-feira. O que mudou? Espanha e França abriram as fronteiras aos países do espaço Schengen, com a excepção de Portugal. Tal como esses saíram dos excluídos no dia 22, o nosso país irá sair no dia 1 de Julho.
Acerca do Covid-19, acho que todos achavam impossível que a área metropolitana de Lisboa, onde vivem 36% dos residentes de Portugal Continental, ter valores de tal forma reduzidos que chegavam a ser inferiores a 4% da região norte. Ainda hoje, o distrito de Setúbal (1.5 milhões de residentes) continua com números que, estatisticamente, são impossíveis de acreditar. A razão? Não é a falta de testagem, não é a falta de acção, tal como afiançam os meios de comunicação social. A razão são os assintomáticos, que vão propagando o vírus e que só é "avistado" quando alguém tem outras complicações clínicas. Nesse momento, 9 em cada 10, infectados já terão recuperado da infecção. Daí os números serem muitíssimo pequenos, em relação aos concelhos do norte do país, onde a população é mais idosa e onde se concentram 76% dos lares portugueses (fora os ilegais que são muitos milhares, muitos propriedade de empresários que possuem 1 legal e 50 ilegais).
É por andarem a testar toda a gente que este próxima de um caso, que leva a este crescimento de 200 a 400, diários, maioria na AML. Se fossem testar, de forma mais alargada, acredito que conseguiriam mais de 2000 positivos, diários, por todo o país. Muitos são infectados, não tem quaisquer sintomas e curam-se sem intervenção, até ao momento que um idoso ou alguém com problemas de saúde, são atingidos e se descobre que existe ali um foco.
Zonas super povoadas, como a Amadora, Sintra, Loures e Lisboa, é de esperar que concentrem 7 em cada 10 casos positivos. A estranheza foi ver zonas, como Ovar ou Vila Real, onde surgiram 130 casos, sem encontrar ligação entre as pessoas. A densidade populacional é muitíssimo inferior e a propagação nunca deveria ser exponencial. Isto poderá ser explicado daqui a muitas décadas, quando se fecharem as contas sobre os infectados e poder ser feito o mapa de infecções. Só daqui a 6-10 anos é que será possível ter isso... depois estudá-lo, mais uma década.
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De Sofia Loureiro dos Santos a 25.06.2020 às 13:50

Obrigada pelo comentário. Sim, tenho também a opinião de que o número de casos na zona da Grande Lisboa era estranha anteriormente, não agora.
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De Ana de Deus a 25.06.2020 às 13:46

viva! finalmente um texto que não nos atira areia para os olhos. bem fundamentado, bem estruturado. obrigada! parabéns pelo destaque, grata por nos termos cruzado nesta caminhada
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De Vagueando a 27.06.2020 às 11:31

Refere duas coisas importantíssimas;
1-Não há risco zero em nada que fazemos na vida e, por exemplo, aceitamos se calhar de modo demasiado benevolente, que podemos morrer na estrada porque alguém acha que o Código da Estrada é para ser cumprido apenas pelos outors.
2 -Não há conhecimento suficiente sobre o vírus e sobre o seu comportamento, para que se possa adoptar estratégicas de combate mais eficazes. E, neste sentido, pelo menos desta vez, não podemos culpar os políticos pelas decisões que são obrigados a tomar.
Gostei do texto.
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De Anónimo a 27.06.2020 às 15:28

Ten tuda a razão e acrescento que Portugal tem, neste momento, 2 grandes inimigos: a covid 19 e a ordem dos médicos.
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De Adelino Carvalho a 27.06.2020 às 18:04

Grande lucidez e racionalidade no artigo.É perfeitamente lógico que a grande densidade populacional da area metropolitina de Lisboa justifica o numero de casos, e os transportes públicos , poderão ser a grande causa de contágio. Há quantos anos se discute a diferenciação de horários ? Não seria esta a altura de o implementar, de forma a evitar a aglomeração.

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