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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Do teatro como ópio

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Contos em Viagem - Macau

 

 

Encantamento e ópio, vício e magia, perfume e névoa, poente e noite, caminhos interiores que se perdem e acham, habitar o ar e as profundezas, limbo, estranheza, vinho doce e veneno.

 

É muito difícil encontrar as palavras que adjectivem a experiência de assistir a um espectáculo destes. Não se encontra uma razão, uma história. E no entanto elas lá estão, as razões e as histórias, o sentimento e a perdição, o querer ir e o ficar.

 

O espaço cénico minimalista, que se metamorfoseia sempre inebriante, o jogo de luzes, os sons e a música como actores intervenientes, a bailarina que aproxima e afasta o nosso olhar, e as palavras ditas, sussurradas, cantadas por um actor, numa amálgama a que não se consegue resistir.

 

Nunca é demais repetir quão maravilhosos são os criadores do Teatro Meridional. Nunca é demais dizer que é um espectáculo imperdível. E que nos faz tão bem.

Do teatro, ibérico e outros

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Pequeno passeio rumo ao Centro Comercial Vasco da Gama, mais precisamente à FNAC, lugar onde me esperava The mousetrap and other plays, de Agatha Christie, para me preparar condignamente para a próxima viagem à capital londrina, mais precisamente ao St Martin's Theatre, a casa desta peça desde 1974, em cena desde 1952.

 

Adoro estas pequenas passeatas que transformam um banal almoço numa estimulante conversa. De Londres e do teatro passei a William Shakespeare e às comemorações do 4º centenário da sua morte, com inúmeros colóquios, reedições de obras, estudos histórico-literários, etc., que nos transmitem a importância do autor britânico na literatura e na dramaturgia ocidentais.

 

E no entanto, a literatura e especificamente o teatro, nos séculos XVI e XVII europeus, muito ficaram a dever aos autores espanhóis, nomeadamente a Lope de Vega e Pedro Calderón de La Barca, assim como ao francês Molière, mais ou menos contemporâneos de Shakespeare.

 

Mas anterior a todos estes apareceu Gil Vicente, cuja obra eu gostaria muito de ver alguma companhia teatral a revisitar. O nosso Gil Vicente, com o seu Monólogo do Vaqueiro, quase inaugurou a importância social e política do teatro, como espelho do e sátira ao poder e às classes sociais, da linguagem dos simples, das figuras mitológicas, do bem e do mal, enfim, dos grandes temas que nos preocupam.

 

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Roque Gameiro

 

Não há dúvida que a pressão da língua inglesa explica em parte a notoriedade de Shakespeare e o relativo embaciamento dos autores ibéricos e francês. Mas nos séculos XVI e XVII não seria bem assim, a língua erudita era o latim e as línguas neolatinas muito mais importantes que a inglesa. Nada disto retira o brilhantismo e o génio a Shakespeare. Só é pena não haver o mesmo realce para outros, tão geniais e brilhantes como ele.

 

Nota: Alguém que comigo partilha passeios e conversas, enviou-me uma informação interessante: é que a primeira peça que a RTP apresentou logo após o início das emissões regulares foi precisamente... Monólogo do Vaqueiro.

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Da espiritualidade da Arte

As minhas comemorações de Natal começaram a 5 deste mês, com A Colectividade colectiva, sediada no Teatro Meridional para comemorar o seu 75ª aniversário. Tive a sorte de ter havido uma desistência mesmo à última hora, pois já estava tudo esgotado. Muito, muito bom, como aliás é hábito do Meridional, nomeadamente de Natália Luíza. Os espectáculos são sempre inovadores, divertidos, inteligentes e comoventes, fazendo a ponte entre a realidade e o imaginário, a crítica irónica e a militância cívica, saio sempre com o coração dilatado de ternura e orgulho.

 

Depois fui ver A ponte dos espiões, seguido de um jantar ameno com alguém que me aquece e aconchega, com quem a conversa nunca se esgota.

 

E hoje entrei pelo júbilo místico com a Oratória de Natal de Johann Sebastian Bach (Cantatas I, III e VI) no CCB, pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, o Coro Lisboa Cantat, com os solistas Ana Quintans, Maria Luísa Freitas, Marco Alves dos Santos, João Fernandes, e os maestros Jorge Carvalho Alves (coro) e Leonardo García Alarcón (coro e orquestra). Que orgulho ouvir excelentes músicos e cantores líricos portugueses nesta maravilhosa interpretação das Cantatas de Bach.

 

Oratória de Natal, BWV 248 Cantata I

 

Oratória de Natal, BWV 248 Cantata III

 

Oratória de Natal, BWV 248 Cantata VI 

 

Investir na cultura deveria ser uma das prioridades para o desenvolvimento económico de Portugal. Sala cheia e aplausos demorados, de uma plateia cheia de gente sedenta de música. Começo bem o Natal.

Mar me quer

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 Mia Couto

Natália Luíza

Alberto Magassela, Cucha Carvalheiro, Daniel Martinho

Marta Carreiras

Rodrigo Leão

Miguel Seabra

 

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 Teatro Meridional

Rua do Açúcar, 64 Beco da Mitra

Poço do Bispo 1950 - 009 Lisboa 

(GPS: 38.737780,-9.103514)

(+351) 91 999 12 13

(+351) 91 804 66 31

(+351) 21 868 92 45

geral@teatromeridional.net

Portugal dos Poetas

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Ontem, através do magnífico recital de poesia, tive o privilégio de viajar pelos vários séculos portugueses (desde o XVI) até à contemporaneidade, no Teatro Meridional. Com Natália Luíza, a sua escolha de textos, o seu encadeamento de palavras, a sua voz e a sua interpretação, vi Portugal desfilar, mais especificamente os Portugueses, a crise, a mediocridade, o sonho, a pequena e lampejante esperança, a doçura, o desespero e a Queixa das Almas Jovens Censuradas, o extraordinário poema de outra Natália musicado e cantado por José Mário Branco.

 

Não vi nenhum dos nossos governantes, nenhuma daquelas personagens que preenchem o espaço mediático, que nos embaraçam precisamente com a sua ignorância, incompetência e banalidade. Ninguém que se olhasse naquele espelho onde todos nos olhámos, confortavelmente embrulhados numa manta que, gentilmente, o Teatro Meridional proporciona à plateia, depois de um átrio acolhedor, com chá e café à discrição e fatias de bolo a 1€, num mealheiro que confia na boa-fé de quem lá está.

 

Pelo bilhete de 5€, recebemos muito mais que qualquer dinheiro possa pagar - a magia, o estímulo, a emoção, a lição de História, o reencontro connosco, com este Portugal tão dilacerado e, no entanto, tão apelativo. Como nos parece impossível que este país sempre tenha sobrevivido a revoadas e a esta sina fatalista de ciclicamente se destratar, se envergonhar, se dividir, sempre por aqueles em quem confiamos e nos desmerecem, sempre pelas atitudes de resignação enfastiada e triste, d'Esta Gente/ Essa Gente que paga para ser humilhada, que não enterra o dente, embora permanecendo, no fundo da noite da desilusão, num qualquer espaço de alma, esperança.

 

Passa o tempo e nós vamos reinventando o sofrimento, de várias formas e nas várias modas, com a circularidade do inevitável, ou dos golpes e contragolpes que nos empurram para breves instantes de clarividência.

 

O Teatro Meridional habituou-me a espectáculos de luxo. Do luxo da qualidade da escolha dos textos representados, do espaço cénico, do jogo de luzes, do enquadramento musical. Habituou-me ao maravilhoso que é perceber quanto a inteligência, a sobriedade e a criatividade podem ser os motores do desenvolvimento, quanto a arte é indispensável a este animal que somos.

 

À Natália Luíza tenho até pudor de lhe dizer o quanto a admiro, o quanto me orgulho por poder fazer parte do público que a aplaudiu de pé, após um pouco mais de 1 hora em palco, a preto, branco e cinza, em círculos concêntricos do nosso destino marítimo, com essa voz que nos envolve e estimula, nos agride e acarinha.

 

A toda a equipa do Teatro Meridional os meus parabéns, renovados e embevecidos, por mais um momento de rara beleza. Já só faltam 3 recitais, nos próximos dias 19, 20 e 21 de Março (21:30h) - dêem-se ao luxo de não os perder.

Da resistência

 

 

Confesso que nunca tinha lido a Ode Marítima na sua totalidade. Conhecia vários fragmentos, alguns que me diziam mais que outros. Antes de ir ao Teatro São Luiz copiei a Ode Marítima (site Casa Fernando Pessoa) para um ficheiro de word e li-a quase toda.

 

São indescritíveis as emoções que nos assaltam ao longo do espectáculo. Com um texto como este, a verdadeira estrela do único acto, somos levados na enxurrada de palavras que Diogo Infante debita, durante mais de 1 hora, sem que nos desprendamos de cena um único segundo.

 

Está lá tudo. Álvaro de Campos (Diogo Infante) diz-nos de uma forma inexcedível a dor e o lamento de quem se exorta a partir, anseia pelo longe e pelos diversos cais de embarque, navios que se perdem pelos sentidos e que se encontram pela ambição da descoberta, da aventura, do perigo, da experimentação de tudo, mas que não é capaz de sair da sua vida moderna, mediana e certinha, traçada diariamente com uma realidade plana, tumultuosa e avassaladora com a imaginação.

 

Não me lembro de melhor metáfora para o nosso momento colectivo. Esta ânsia que atravessa a nossa História, esta investida no que está além, para além, esta contradição entre o querer ir e a saudade do ficar, delicadamente acompanhada pelos pequenos e oportunos solos de guitarra, mais uma metáfora portuguesa, é uma das melhores formas de resistir a toda esta lama informe que nos tolhe a vida, principalmente a nossa atitude perante a adversidade.

 

É essa atitude que hoje nos falta, é esta ambição que está minguada e que se espelha na canção de Pedro Abrunhosa “Para os braços da Minha Mãe”. Gosto de Pedro Abrunhosa como compositor, não como cantor. E apesar da melodia ser bonita, apesar da voz de Camané ser excelente, a letra da canção é a tradução de uma atitude desistente e conservadora, em que à necessidade de partir não se alia qualquer cunho de curiosidade e liberdade para aprender outras realidades, outras culturas, outras oportunidades.

 

A emigração é um flagelo por quanto resulta de uma total incapacidade política, do País e da Europa, de proporcionar às populações vidas dignas e cheias, de um desperdício do esforço, empenhamento e imaginação de quem tem que procurar a felicidade noutros países. Mas esta é uma geração de emigrantes qualificados, que poderão aproveitar de uma forma mais construtiva a inevitabilidade do desembarque em tantos cais e tantos longes quanto os que a imaginação de Álvaro de Campos tanto queria sentir.

 

A resistência faz-se reagindo, com o combate da poesia, da pintura, do teatro, da música, de todas as artes que nos empurram para diante, que nos mostram mais do que aquilo que temos à nossa frente, do que nos atrofia e nos entristece. As saudades farão os navios regressarem, nunca os devem impedir de partir.

 

Ode Marítima

 

Teatro Municipal São Luiz

 

(...)

Ah, seja como for, seja para onde for, partir! 
Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar, 
Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstracta, 
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas, 
Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais! 
Ir, ir, ir, ir de vez! 
Todo o meu sangue raiva por asas! 
Todo o meu corpo atira-se prà frente! 
Galgo pla minha imaginação fora em torrentes! 
Atropelo-me, rujo, precipito-me!… 
Estoiram em espuma as minhas ânsias 
E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos!

(...)

 

Álvaro de Campos