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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Das afrontas e dos esquecimentos

É muito interessante a notícia que saiu hoje no Expresso online, sobre a afronta a ADSE exigir a alguns prestadores privados um montante de 38 milhões de euros que lhes terão sido pagos indevidamente (em causa facturações de 2015 e 2016). A notícia avança mesmo com a ameaça, veiculada pela Associação Portuguesa de Hospitalização Privada, de quebra de prestação de serviços à ADSE.

 

O que o Expresso se esqueceu de referir é que há um parecer da PGR dando razão à ADSE, obrigando os prestadores a pagarem a dívida reclamada - notícia de 13 deste mês.

 

Curioso. Mais curioso a fonte de ambas as notícias ser a mesma agência Lusa.

Dos encerramentos e reaberturas da Maternidade Alfredo da Costa

Em 2012, no governo do PSD/CDS liderado por Pedro Passos Coelho, Paulo Macedo (Ministro da Saúde) decide que a Maternidade Alfredo da Costa (MAC) deve encerrar. Foi uma comoção geral, nomeadamente por parte da oposição (PS, BE e PCP), tendo-se assistido a manifestações, correntes e abraços à volta da MAC, providências cautelares e decisões judiciais com o objectivo conseguido de adiar o encerramento.

 

Apesar de Assunção Cristas se esforçar imenso por apagar a presença do seu partido nesse governo, o CDS apoiou, e quanto a mim muito bem, a decisão de Paulo Macedo. Neste momento surge à porta da MAC perorando contra a escassez de Anestesistas e outros profissionais de saúde na MAC e no restante SNS. A falta de vergonha é mesmo gritante. E não há um único jornalista que lhe lembre estes factos. Na verdade, se a MAC deveria encerrar (mesmo que dentro de alguns anos), não tem muita lógica admitir mais médicos para os seus quadros. Mesmo que a MAC só seja totalmente desactivada apenas quando abrir o novo Hospital de Lisboa Oriental, a transferência de serviços para outras unidades, dentro do CHLC, não parece ter sido revertida.

 

Porquê agora esta barragem noticiosa, acrítica, em relação à falta de Anestesistas na MAC?

Ainda a propósito...

... do post anterior, se considerarmos o número de cirurgias programadas efectuadas em 2017, segundo os dados da ACSS terão sido 575.834, e o número de cirurgias já suspensas desde o início da greve dos enfermeiros - 5.000, é o adiantado pela imprensa, concluímos que, tal como a Ministra da Saúde disse, é uma percentagem residual - mais precisamente 0,8%.

 

Isto não diminui a gravidade do assunto, mas também convém ter uma perspectiva de peso e das percentagens, pois ajuda a compreender que a adesão é, de facto, residual. O mais extraordinário é a forma como a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros está a comandar esta greve.

Um golpe muito português

A Very British Coup é uma série de TV já com 30 anos, que conta a história de uma vitória eleitoral de um político de esquerda, do tipo do Jeremy Corbyn, que assume o lugar de Primeiro-ministro do Reino Unido. Como tal elimina o monopólio dos jornais, promove a retirada das bases militares americanas do seu território e a saída da NATO, para além do desarmamento nuclear unilateral, o que desencadeia uma união das forças políticas da oposição aliadas às empresas e aos lóbis mediáticos para desacreditar o próprio Pimeiro-ministro e promoveram um alarme social para levar à demissão do governo.

 

Ao assistir a esta onda de greves, principalmente à dos enfermeiros, que já levou ao adiamento de milhares de cirurgias, cujo reagendamento é muito difícil e levará, muito provavelmente, ao recurso às instituições privadas para tentar recuperar e tratar os doentes, penso sempre nesta série.

 

Será que não estará a haver instrumentalização dos enfermeiros para dar uma forte machadada no SNS? É que se o objectivo fosse boicotar só por boicotar, a forma não poderia ser mais bem escolhida.

Os Patologistas (2)

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Público

 

 

(...) mais do que uma distinção pessoal, a conquista deste prémio é um reconhecimento pelo trabalho desenvolvido na Anatomia Patológica, uma especialidade médica a que, por passar despercebido, não é atribuído o valor devido, mas que é essencial para o exercício da Medicina com as suas exigências actuais (...)

 

(...) Este é naturalmente um prémio importante para mim. Mas só existe porque existem instituições, existem projectos, existem visões de pessoas que muito antes de mim souberam desenhar, sonhar e concretizar. Tive a sorte de crescer aqui. Nada acontece por acaso. (...)

 

The Pathologist

 

Exame prévio

As mulheres são diferentes dos homens. São biologicamente diferentes pelo que é natural e espectável que tenham comportamentos diferentes.

 

A igualdade de género é um assunto muito sério, que precisa de políticas activas e urgentes, para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades que os homens, que possam ter as mesmas ambições, pessoais e profissionais, que possam escolher, livremente e em igualdade de circunstâncias, o que querem fazer da sua vida, que vejam reconhecidas as suas funções e os seus méritos da mesma forma e com as mesmas remunerações que os homens.

 

Vem isto a propósito da polémica em relação ao filme da campanha anti tabágica que usa o sentimento de culpa de uma mãe que está a morrer com cancro do pulmão, em relação à sua filha, e à mensagem que quer passar – será sempre a sua princesa e as princesas não fumam.

 

O tabagismo tem tido uma redução percentual na população masculina enquanto aumenta na feminina, predominantemente entre as mulheres jovens. Uma das maiores preocupações das mulheres jovens com cancro, qualquer que ele seja, é os filhos, de como vão reagir, o medo de os deixar sem a sua protecção, de não os ver crescer.

 

As campanhas anti tabágicas são sempre baseadas no medo e na culpa, aliás tal como qualquer campanha que queira criticar comportamentos – anti-açúcar, anti-gorduras, etc. No caso do tabaco não só é explorada a culpa própria mas também a culpa por causar doença nos fumadores passivos.

 

As crianças imitam os adultos e têm os pais como referência. Na generalidade dos casos as filhas olham para as mães e imitam-nas, tal como os filhos olham para os pais, imitando-os. A campanha usa precisamente o papel de modelo da mãe - o mau exemplo - e a culpa da mãe - não estarei cá por minha culpa e se tu fumares a culpa também é minha. Quanto à princesa - uma banalidade nas expressões usadas entre mães e filhas - pode ser utilizada como símbolo de um comportamento exemplar.

 

Podemos achar a campanha pirosa e excessiva – eu até acho, tal como a campanha que usa imagens chocantes nos maços de cigarro. Mas transformá-la numa bandeira para a luta contra a desigualdade de género parece-me totalmente disparatado. É até assustadora a existência de uma polícia de palavras, de imagens, de conteúdos, de intenções. Não tarda temos uma comissão para o Exame Prévio!

 

A banalização deste tipo de críticas acaba por desvalorizar a real necessidade de denúncia contra todas as situações que perpetuam a desigualdade de género. Isso é que é intolerável.

Da ala pediátrica (Hospital de São João)

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Afinal parece que as condições indignas em que são atendidas e tratadas as crianças no Hospital de São João, a ser verdade o que diz o Observador, não têm nada a ver com as cativações de Centeno. Afinal parece que a responsabilidade do assunto será da Associação O Joãozinho, cujo Presidente é o economista Pedro Arroja.

 

No meio estão promessas de construção de um supermercado à SONAE e a não aceitação da administração da obra pelo Ministério da Saúde. É uma situação que se arrasta desde 2011 e que este governo está a tentar resolver desde 2016. Mais uma vez a informação vai caindo a conta-gotas, dando espaço a que profiram afirmações que, se calhar, não têm fundamento.

Medicina - Ciência ou Fé

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A chamada medicina tradicional chinesa foi e é equiparada a uma paramedicina. Significa isto que os métodos usados para interpretar os processos fisiológicos e fisiopatológicos, diagnosticar doenças e receitar tratamentos não são baseados no método científico mas na observação, interpretação de humores e uso empírico de remédios de vários tipos, fruto da experiência milenar dos curandeiros.

 

Por muito respeito que tenha pelas culturas milenares e pelos curandeiros experientes, isso não transforma a medicina tradicional chinesa, portuguesa, finlandesa, escocesa ou indiana numa ciência. Não nos confundamos com o que é a crença de cada um e das populações, que têm todo o direito a tê-las, com ciência. O mundo ocidental tem conseguido uma notável melhoria na saúde, controlando epidemias, erradicando algumas, curando infecções e cancros, usando os métodos que podem reproduzir resultados, perante as mesmas circunstâncias.

 

Tudo o que a chamada sabedoria popular tem, e que é muito, deve ser investigado e incorporado na prática clínica, após devidamente comprovado e aprovado. É assim que princípios activos de plantas ditas medicinais acabam em medicamentos. Assim se promove e defende a saúde pública, se melhora a qualidade de vida e se aumenta a esperança de vida das populações. Não se pode confundir a liberdade individual que cada um de nós tem de procurar as alternativas que quiser com uma política de Estado que mistura práticas pseudocientíficas com as científcas.

 

Muitas conclusões se tiram à luz dos conhecimentos existentes numa determinada época que, posteriormente, são desmentidas e revertidas, pois descobrem-se outras evidências. A leucotomia pré-frontal que deu o prémio Nobel a Egas Moniz, hoje não é praticada. Há, infelizmente, muitos negócios escuros e muita propaganda que descredibilizam muitas soluções e põem em causa muitos dogmas. Mas a ciência é isso mesmo, desafiar as verdades estabelecidas para descobrir novas soluções.

 

As modas actuais do regresso à natureza com comidas e estilos de vida totalmente disparatados, apenas são isso mesmo – modas do mundo ocidental que procura formas de estimular consumos e vender produtos disfarçados de ideias. Não podem ser assumidas como políticas num Estado que tem obrigação de defender os cidadãos.

 

Acho muito bem que se regulamentem as medicinas paralelas, sejam elas quais forem. Mas equipará-las à medicina é misturar ciência com fé. É um péssimo serviço que se presta aos cidadãos e além disso perigoso. A moda da não vacinação já está a mostrar os seus resultados. Não me parece que os humores e as energias de cada um, por muito positivas que sejam, impeçam a infecção pelo vírus do sarampo e, neste momento, há pessoas a morrer e a infectar outras porque decidiram não vacinar os filhos. Podemos também deixar de usar tuberculostáticos e passar apenas a comer melhor e a respirar ar puro. Era assim que tanta gente voltava a morrer de tuberculose.

 

Este é um assunto sério e grave. O SNS vai colocar nos seus quadros os futuros licenciados em Medicina Tradicional Chinesa? E a Universidade do Minho vai abrir um pólo em Vilar de Perdizes?

 

Nota: Vale a pena ler o artigo Terapias alternativas: quando as portarias substituem as provas.

Da eternidade dos segundos

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Adalberto Campos Fernandes tem sido extremamente habilidoso em desbaratar a esperança que muitos nele depositaram, bem acompanhado pelo Primeiro-ministro que, no que diz respeito à Saúde, não tem conhecimento, não quer ter e tem raiva de que o tem.

 

O empurrar os problemas, dando sempre uma ideia de grande seriedade e abrangência de soluções desbloqueadas, que depois correspondem a falta de honestidade política para não dizer ao despudorado engano dos interlocutores, tem sido, lamentavelmente, a prática deste Ministro.

 

O concurso para médicos está há quase 1 ano a poucos dias de se iniciar, ou mesmo a poucos segundos, as verbas para os Hospitais estão à espera que o Ministro das Finanças se digne autorizar a sua utilização, e o palavreado asséptico já não engana. Que tristeza.