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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

O gosto da descoberta

 

 

Não encontrei nenhum trabalho, teoria ou reflexão filosófica que explicasse a razão de haver uma associação entre a literatura policial culinária. Dos autores que conheço, bem sei que poucos dos milhões que devem existir, o que desvaloriza totalmente a amostragem, três, e todos pertencentes à Europa mediterrânica, têm detectives gourmet: Comissaire Maigret, de Georges Simenon, Pepe Carvalho, de Manuel Vázquez Montalbán, e o Inspector Jaime Ramos, de Francisco José Viegas.

 

Haverá alguma conexão especial entre o gosto e o raciocínio lógico, ou entre o gosto e a pulsão para a violência, para o crime? As sensações despertadas pelos odores das ervas e das carnes, pelas texturas e pelas cores dos alimentos, pelos paladares dos doces e dos ácidos, serão semelhantes às do encontro de padrões de comportamento, dos elos perdidos nas cadeias de acontecimentos, das motivações escondidas da superfície, da incapacidade de não esgravatar à procura do tesouro, da resposta a um enigma?

 

Cozinhar ocupa as mãos, que se desdobram em afazeres de esmagar, cortar, mexer, misturar, libertando a mente para o raciocínio e a contemplação. Por outro lado, as memórias evocadas pelos cheiros e pelos sabores, poderão estimular miríades de outras memórias e de saberes aprendidos sem nos darmos conta, que ligam factos e levantam mais perguntas.

 

Há dias ouvi Francisco José Viegas contar que lhe faziam, por vezes, perguntas, como se Jaime Ramos fosse real. Pois o Inspector Jaime Ramos é real, tem uma casa onde mora, ruas por onde caminha, mercados onde escolhe os ingredientes que cozinha devagar, enquanto saboreia um bom vinho, um clube pelo qual torce, um trabalho que lhe revela a sua própria humanidade. Poderá até ser mais real do que o próprio criador. E este é um dos maiores elogios que se pode fazer a um escritor.

 

Contos de Fadas

  

Esopo (séc. VII - IV ac)

 

 

Coleção Fábulas Esopo (grego)

Babrius (séc. I)

 

 

Fables choisies, mises en vers par M. de La Fontaine

La Fontaine (1668)

 

 

Histoires ou contes du temps passé, avec des moralités

Perrault (1697)

 

 

Kinder- und Hausmärchen

Grimm (1812)


 

 

Eventyr, fortalte for Børn

Hans Christian Andersen (1837)

Da poesia (edição) doméstica (pela metade)

 

 

Talvez porque só editoras quase domésticas se arriscaram a publicar o que escrevo, penso que o motivo da grande dificuldade dos novos (desconhecidos) autores passarem da clandestinidade não se prende apenas com a dificuldade de distribuição e exposição. Na verdade o mundo dos livros e da literatura é hermético e avesso às novidades. Aos autores que vão aparecendo é-lhes praticamente vedado o acesso à crítica e à discussão da sua escrita.

 

Sejam eles a autores consagrados, a estudiosos, académicos ou jornalistas, em blogues individuais, colectivos, dedicados à literatura ou generalistas, os pedidos à apreciação de obras a editar ou a solicitação para participar em tertúlias, colóquios, entrevistas ou outras formas de divulgação crítica das obras, autores ou projectos editoriais, são, na quase totalidade das vezes, pura e simplesmente ignorados.

 

É claro que há críticas incompreensíveis e livros que fariam melhor em reservar-se à intimidade dos pequenos núcleos sociais onde cada um de nós se insere. Por outro lado também há opiniões que será melhor ignorar, de tão descabidas, pela crueldade ou pelo exagero da lisonja. Mas os vários grupos de autores, editores, jornalistas e críticos vivem em círculos fechados, entrecruzando-se e falando para dentro, uns com os outros e uns para os outros, sem tolerância ou vontade de integrar quem não é do meio, seja pela qualidade ou pelos contactos estratégicos.

 

Serão as minhas ideias e palavras movidas pelo azedume, inveja ou despeito? Quem ler decidirá.

 

Do feminismo brando

 

 Cassandra Austen: Jane Austen

 

Apesar de serem romances de uma escritora do século XVIII/XIX (Jane Austen), Sensibilidade e Bom Senso (Sense and Sensibility) e Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice) são novelas que, ainda hoje, excitam a imaginação de milhares de leitores por todo o mundo, com várias reedições e estudos críticos, adaptações cinematográficas e séries televisivas.

 

Estando eu no meio dos admiradores destas duas novelas, pergunto-me muitas vezes as razões de tamanho êxito, idêntico ao que se verifica também com um livro como Mulherzinhas (Little Women – de Louisa May Alcott, século XIX).

 

Para além de serem histórias passadas dentro das famílias, com retratos sociais e reflexões éticas e culturais, no sentido da caracterização de certas classes e de certos ambientes rurais, apoiando-se em enredos que podem ser olhados como teias ou redes de relações, projectam personagens femininas fortes e emancipadas, dentro do que era possível e aceite.

 

Em Orgulho e Preconceito, a autora criou Elizabeth Bennet, uma de cinco filhas de um casal de proprietários rurais. Enquanto a maior preocupação da mãe era casar a sua prole, salvaguardando-a da miséria, debatendo-se com os fracos dotes para encontrar maridos que pudessem prover ao seu sustento, Elizabeth Bennet tem uma postura de literata e de independência face a algumas das convenções da época, preocupando-se mais com o seu espírito indomável que com o futuro, mostrando até gosto pelo desafio da arrogância e da férrea estrutura classista.

 

Também em Sensibilidade e Bom Senso a dependência económica das mulheres é o pano de fundo da história. Nesta enquadram-se as vontades de duas personalidades diferentes - as irmãs  Elinor e Marianne, de duas maturidades diferentes, mas sempre com a preocupação de personagens femininas com pensamento próprio e necessidade de afirmação de independência, exercendo escolhas e tomando posições bem definidas.

 

O terceiro exemplo centra-se numa ética religiosa, de comportamentos estritos e bem controlados, com uma personagem central - Jo March - que afirma os valores da educação, do pensamento autónomo, da crítica e da independência, apenas aceitando a submissão ao amor, aqui já quase omnipresente.

 

Não sei se é o transporte para um mundo mítico que gostaríamos de ter conhecido, se a moralidade e a certeza do triunfo dos justos, se a existência heroínas brandas mas firmes, que nos fazem manter o interesse por estas histórias, ou tão somente a melancolia de algo que nunca fomos nem nunca seremos.

 

 Luisa May Alcott

Do desdobramento do eu

 

Costa Pinheiro: Fernando Pessoa 

 

Tenho direito a um número de anos que não chegarão para o que queria fazer, para o que queria ser. Pudesse eu ter outras em mim que se multiplicassem, observassem o mundo, vivessem intensamente e soubessem transmiti-lo em dor e prazer.

 

Umas das vidas que gostaria de viver em paralelo e simultaneamente, era a de estudiosa de Fernando Pessoa. Pessoa inventou-se múltiplas vezes, foi nascendo e morrendo, foi médico, engenheiro naval, camponês, louro e moreno, alto e baixo, sonhador e observador, sentimental e rigoroso.

 

Breve o dia, breve o ano, breve tudo.

      Não tarda nada sermos.

Isto, pensado, me de a mente absorve

      Todos mais pensamentos.

O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,

      Que, inda que mágoa, é vida.

 

Ricardo Reis

 

E no entanto, entre Fernando Pessoa, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos há um traço comum, que está para além do próprio Fernando Pessoa, ele mesmo – a eterna e constante interrogação, o olhar de fora para dentro, dissecando o pensamento nas possíveis moléculas, a viagem interior de quem tenta entender o mistério de ser um e muitos, a maravilha da criação – a dele e a do universo, a passagem do tempo e a irreversibilidade de ser o que passou, a inevitabilidade do que passou e do que virá.

 

Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre,
Lembro-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos onde se define.
A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que
distingue, uma...

 

Alberto Caeiro

 

A morte como objecto da poesia de Fernando Pessoa. Destacando-a de sentido, retira sentido também à vida, à vida que prepara a morte, pois tudo vai morrendo e passando ao longo da vida.

 

Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despejam…

 

Depois de escrever, leio…
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…

 

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?

 

Álvaro de Campos

 

A separação do eu para o eu, o não reconhecimento do que foi, no imediato instante de o ter sido. Mais uma vez tudo é finito, tudo existe para além de si mesmo, criação de um ser ou ente que é ele e é outro exterior a ele.

 

Verdadeiramente
Nada em mim sente.
Há uma desolação
Em quanto eu sinto.
Se vivo, parece que minto.
Não sei do coração.

 

Outrora, outrora
Fui feliz, embora
Só hoje saiba que o fui.
E este que fui e sou,
Margens, tudo passou
Porque flui.

 

Fernando Pessoa

 

Vive-se sempre ao contrário do que se vive. O ser e a sua negação, o uno e o divisível.

 

Extremamente alto e incrivelmente perto

 

Oskar procura um cofre, procura o pai por toda a cidade de Nova Iorque, tentando calar a dor da ausência provocada pela morte deste no atentado às Twin Towers do World Trade Centre.

 

Oskar inventa ininterruptamente quando sente as botas pesadas, quando sabe que vai demorar muitas horas a adormecer, angustia-se com a hipótese de novos atentados e com o pânico, tenta equilibrar-se num mundo que se desequilibrou no momento em que os aviões embateram no betão, o fumo, o ruído, os gritos e a ausência, até de um corpo num caixão.

 

Jonathan Safran Foer escreve um livro deliciosamente triste, cheio de nódoas negras no corpo e na alma, atravessando os bombardeamentos de Dresden e de Hiroxima na 2ª Guerra Mundial e o atentado de 11 de Setembro nos EUA.

 

Um livro brilhante e comovente - Extremamente alto e incrivelmente perto - de nós.

O papagaio de Flaubert

 

O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, é um livro brilhante e delicioso. A propósito do interesse de um biógrafo amador do escritor Gustave Flaubert, que procura saber qual o verdadeiro papagaio (Lulu) companheiro de Felicité, heroína de um dos contos - Un cœur simple - que compõem Trois contes, publicado em 1877, somos conduzidos a uma discussão filosófica sobre a arte e o seu autor, sobre a ficção e a realidade, o amor, a dedicação, o descomprometimento e desenraizamento próprio a que o escritor se remete, à solidão, à essência do que significa ser feliz, conceito sempre presente de uma estádio de alma impossível de alcançar ou, sequer, de definir.

 

Viajamos para Ruão com um médico de 60 anos, viúvo, e procuramos a sua voz na voz de Flaubert, percorremos a sua vida descobrindo a de Flaubert, o homem e o escritor, concluindo que a existência real e palpável é a dos livros e não a da vida que nos calha.

 

Deixo apenas um parágrafo:

 

(...) Ellen. A minha mulher: alguém que eu sinto compreender pior do que um escritor morto há cem anos. Isso é uma aberração ou é normal? Os livros dizem: ela fez isto porque. A vida diz: ela fez isto. É nos livros que as coisas nos são explicadas; na vida não são. Não me surpreende que algumas pessoas prefiram os livros. Os livros dão um sentido à vida. O único problema é que a vida a que eles dão sentido são as vidas dos outros, nunca é a nossa. (...)

 

Aguardo com alguma ansiedade a edição de Nothing To Be Frightened Of, que já tentei ler no original (tal como fiz com Flaubert's Parrot). Infelizmente a minha fluência em inglês literário não é tão boa como gostaria. Por isso espero a tradução que parece estar prevista, também pela Quetzal.

 

Saramago

José Saramago foi um escritor de excepção, tanto quanto conseguimos, dentro das nossas limitações, incongruências e ignorâncias, avaliar a genialidade na literatura. Não só escrevia excepcionalmente bem como escrevia sobre temas relevantes e compunha personagens inesquecíveis.

 

O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), o livro de todas as polémicas, é dos melhores livros que lhe li. Há muitos escritores de língua portuguesa que mereceriam o prémio Nobel, mas isso não retira valor a Saramago. A inclusão dos seus textos nos livros escolares e o estudo da sua obra é natural. O facto de terem deixado de fora outros escritores não o responsabiliza e não o deslustra, tal como não deslustra quem foi esquecido. Apenas demonstra o pouco cuidado de quem participa na elaboração dos currículos escolares.

 

A obra de José Saramago internacionalizou-se e globalizou-se, fazendo muito mais pela língua portuguesa do que décadas de diplomatas encartados.

 

Como homem político, a outra faceta que conheci de Saramago, não podia estar mais em desacordo, sendo-me antipática a sua figura e o que ela representava, a sua ideologia, a sua vaidade e a sua arrogante certeza de ser detentor da verdade. Mas não é preciso admirar o homem para admirar a sua obra. E a sua foi e é admirável.

I am I

 

To John Middleton Murry
Mid-April (?), 1925, London


In the last 10 years — gradually, but deliberately — I have made myself into a machine. I have done it deliberately — in order to endure, in order not to feel — but it has killed V. In leaving the bank I hope to become less a machine — but yet I am frightened — because I don’t know what it will do to me — and to V — should I come alive again. I have deliberately killed my senses — I have deliberately died — in order to go on with the outward form of living — This I did in 1915. What will happen if I live again? “I am I” but with what feelings, with what results to others — Have I the right to be I — But the dilemma — to kill another person by being dead, or to kill them by being alive? Is it best to make oneself a machine, and kill them by not giving nourishment, or to be alive, and kill them by wanting something that one cannot get from that person? Does it happen that two persons’ lives are absolutely hostile? Is it true that sometimes one can only live by another’s dying? (...)

 

 

Cartas inéditas de T. S. Eliot

 

V (Vivienne Eliot) - mulher de T. S. Eliot

 

John Middleton Murry - escritor, crítico literário e marido da escritora Katherine Mansfield