Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da casa da democracia

25 abril 2015.jpg

Mário Soares, Manuel Alegre e a Associação 25 de Abril prestaram um mau serviço à credibilização do Parlamento como Casa da Democracia ao recusarem-se a estar presentes na cerimónia solene de hoje.

 

Independentemente do que possamos pensar deste governo e deste Presidente, eles foram o resultado do voto livre e universal, resultado da vivência democrática que hoje comemoramos. É com grande tristeza que os vejo, mais uma vez, confundir luta partidária com liberdade e democracia.

Da revolução actual (2)

25 abril 2015.jpg

 (Na continuação da conversa):

- Então onde almoçaram?

- Fomos ao Porcão*

- O Porcão está aberto? Mas isso é muito fascista, estar aberto no 25 de Abril...

- ... está a dar de comer aos revolucionários... (isto não disse, mas pensei)

 

(* nome revolucionariamente terno com que se trata a cantina cá de casa)

Da revolução actual (1)

25 abril 2015.jpg

 Ao deparar-me com um dos comensais cá de casa, ainda agora:

- Então?! Não foi à manifestação do 25 de Abril?!?!

- Não. Tenho que trabalhar...

- Mas isso é de direita reaccionária e fascista...

- ... nos dias que correm trabalhar é revolucionário!

As brumas do futuro

 

 

Antonio Victorino D'Almeida

Pedro Ayres de Magalhães

Madredeus

 

Sim, foi assim que a minha mão
Surgiu de entre o silêncio obscuro
E com cuidado, guardou lugar
À flor da Primavera e a tudo

 

Manhã de Abril
E um gesto puro
Coincidiu com a multidão
Que tudo esperava e descobriu
Que a razão de um povo inteiro
Leva tempo a construir

 

Ficámos nós

Só a pensar

Se o gesto fora bem seguro

Ficámos nós

A hesitar
Por entre as brumas do futuro

 

A outra acção prudente
Que termo dava
À solidão da gente
Que deseperava
Na calada e fria noite
De uma terra inconsolável


Adormeci 
Com a sensação
Que tinhamos mudado o mundo
Na madrugada
A multidão
Gritava os sonhos mais profundos

 

Mas além disso
Um outro breve início
Deixou palavras de ordem
Nos muros da cidade
Quebrando as leis do medo
Foi mostrando os caminhos
E a cada um a voz
Que a voz de cada era
A sua voz
A sua voz

Um dia diferente

No fim da estrada

 

A história está juncada de revoluções traídas. Escrito sobre a russa de 1917, Animal Farm, de Orwell, podia ser sobre quase todas: à esperança e ao deslumbramento iniciais seguem-se o terror de ver outros (ou os mesmos) tomarem o lugar dos antigos senhores.

 

Poucas - não vamos debater se o 25 de Abril foi ou não uma revolução - podem ser 40 anos depois celebradas sem que o essencial da sua promessa se tenha perdido. Mas por mais que haja quem, reclamando-se dos alvores abrilistas, decrete que do dia inicial de Sophia só resta um encantamento amargo, não é assim. Todas as suas grandes promessas foram cumpridas. A quem afiança que "há liberdade mas" e prossegue com "não há verdadeira democracia", ou "verdadeira justiça", ou "verdadeira igualdade", certificando até, em alguns casos (entre os quais pontua, incrivelmente, Mário Soares), "viver-se pior agora do que pré-74", só podemos apontar o caminho do Instituto Nacional de Estatística.

 

A paz, o pão, a habitação, saúde, educação - todas as reivindicações da canção Liberdade, de Sérgio Godinho, se concretizaram. Tínhamos uma guerra estulta e brutal - 169 mil soldados foram enviados para as colónias, morrendo mais de 8000 - e deixámos de ter. Havia fome - calcula-se que 10% da população portuguesa emigrou nos anos 60, grande parte "a salto", para engrossar bairros de lata nos países de destino - e hoje, persistindo carência, desemprego e exclusão, não há comparação possível. Havia dezenas de milhares de barracas - grande parte das casas eram como barracas - e hoje são uma realidade residual. Havia números de mortalidade infantil africanos, uma rede hospitalar incipiente, e temos hoje um Serviço Nacional de Saúde que ombreia com os melhores e uma mortalidade infantil entre as dez mais baixas do mundo (só entre 1990 e 2011 diminuiu 77%). Em 1970, a taxa de analfabetismo raiava os 30%, hoje é 5%; a taxa de escolarização no secundário era 3,8%, agora é 72,3%; os doutoramentos contavam-se anualmente em dezenas, agora são milhares.

 

Quem, do PC ao PNR, passando por este Governo de maçães, resume os 40 anos a "desperdício", "corrupção" e "traição" não está bem da cabeça. Outra coisa é dizer que é tudo perfeito, que chegámos ao fim da estrada da canção de Gomes Ferreira (o escritor, não confundir). Aliás, a ideia de que um golpe de Estado nos colocaria, por milagre, na terra do leite e do mel, bastando-nos agradecer a dádiva, comunga da infantilidade amorfa que nos fez, como país, aguentar 48 anos de uma ditadura tacanha. Se há falhanço nestas quatro décadas é esse - o de tanta gente achar que a política é uma coisa que lhe acontece, não algo que se faz. Ter nojo "dos políticos", achando que "são todos iguais", entregando-lhes ao mesmo tempo o destino, é capaz de ser uma grande estupidez - e para isso é que, de certeza, não foi feito o 25 de Abril.

 

Fernanda Câncio