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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Paris em Maio, 1994

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Paris

 

Paris em Maio, 1994.

 

Aterrámos no meio do bulício do costume e fomos de táxi para o hotel, que um francês amigo tinha reservado, na Rive Gauche, ao pé do Grand Magazin Le Bom Marché, na Rue Saint Placide.

 

Com todos os clichés reunidos e explodindo numa jovem pouco viajada, tudo era deslumbrante: os carros que, ao serem arrumados batiam à frente e atrás, sem qualquer preocupação pelo amachucar dos para-choques, as baguette nas mãos dos parisienses, as montras lindíssimas e coloridas das pastelarias, o Sena, as pontes sobre o Sena, as margens do Sena com prédios altos e maciços, o Quai des Orfèvres de Maigret, o Hôtel-Dieu, os Bouquinistes, as estações de metro, as flores e as floristas, os queijos, a loja gourmand em que entrei um dia, esbaforida e exausta, e disse (num francês majestático e macarrónico) on veut deux cafés, a escadaria até ao Sacré Coeur, a vista deslumbrante do Sacré Coeur, as caminhadas pela longa avenida dos Campos Elísios, o Arco do Triunfo e o caos organizado do trânsito, a Torre Eiffel, o Louvre, o maravilhoso Musée d’Orsay dos impressionistas, a Place du Tertre com os seus caricaturistas, Montparnasse, o Quartier-Latin, onde comemos a pior mousse de chocolate de que me lembro, Saint-Germain des Près, os livros expostos nas ruas, as livrarias com múltiplos andares e toneladas de banda desenhada, o Astérix, o jardim das Tulherias, o túmulo de Napoleão, os quilómetros andados, as cores, os ruídos, os Bateaux-Mouche.

 

Foi uma tarde inesquecível, ladeando a Île de La Cité, onde se ergue a Catedral de Notre-Dame de Paris. É nestas alturas que sinto o apelo do sagrado, do transcendente, do etéreo. Dentro daquelas abóbadas, naquele ambiente a um tempo esmagador e libertador, com a luz filtrada pelos vitrais, tudo nos eleva para o sentido do divino. Naturalmente baixamos  voz, com uma reverência e um temor irracionais para quem, como eu, não é crente. Templos que nos induzem recolhimento, como se a presença dos milhares de pessoas que por ali passaram, rezaram, desesperaram, resguardaram, os milhares de trabalhadores que penaram para a sua construção e reconstrução, as esperanças, os medos e os ódios, nos fizesse mais humanos e nos induzissem à humildade e à perfeição.

 

Lembro-me que íamos jantar a uma Brasserie mesmo ao lado do Hotel, exaustos e inundados de Paris, numa das viagens que mais gratas memórias me deixou. Ao ver arder Notre-Dame, foi quase como se me despedisse definitivamente do início da minha vida adulta, do meu conhecimento do mundo, do meu verdadeiro sentir europeu, como se alguma coisa se partisse, encolhesse e regredisse, como se o incêndio não fosse mais que o esfumar de uma Europa intercultural e universalista que faz parte da nossa História mas que dificilmente fará já parte do nosso futuro.

Das laranjas azuis

Anatomical Studies of the Shoulder Leonardo da Vin

Leonardo da Vinci

 

Estive durante 3 dias num evento científico que, apesar do que escrevi anteriormente, foi muito bom, muito útil e muito agradável, embora intensivo, como todos os encontros, workshops, simpósios, conferências e cursos de anatomia patológica. Expuseram-se dúvidas, descobertas, truques para evitar erros e trocaram-se experiências, partilharam-se desconhecimentos e novas linhas de investigação.

 

Além disso, fizeram-me pensar nos paradoxos dos métodos e procedimentos que desenhamos para nunca falharmos nada, para que consigamos comunicar claramente na mesma linguagem, entre médicos de especialidades diferentes, para que a informação seja entendida e partilhada de forma completa e rigorosa. Mas tudo tem uma outra face.

 

Com esta tentativa de uniformização, detalhe e rigor, formatando os relatórios diagnósticos com as guidelines desenvolvidas para o efeito por agrupamentos de cientistas e superespecialistas nas várias áreas do conhecimento médico, mais especificamente anatomopatológico, deixamos de usar o sentido crítico, deixamos de pensar.

 

Os argumentos de autoridade nas várias matérias, construídos ao longo de séculos de uso do método científico, que levam à aceitação daquilo que é a verdade demostrada pelos peritos, como em todos os aspectos da vida, deve ser escrutinado por cada um de nós, sem medo de questionar e criticar, pois só assim as dúvidas suscitadas podem levantar outras e abrir espaço para investigação e saber.

 

A ciência alimenta-se de ciência e o que é hoje o estado da arte amanhã pode ser o contrário. Tudo isto é mais do que sabido. Mas isso é exactamente o resultado do método científico: observar, questionar, controlar, comparar, concluir.

 

Ainda bem que há gente que não se limita a seguir o que os outros dizem. É mais fácil e é mais seguro, mas conduz a grandes desgraças e distorções, não só na ciência. E quanto às chamadas terapêuticas alternativas, estas "são, por definição, coisas que não têm provas científicas sólidas. Qualquer coisa que tenha provas científicas sólidas deixa de ser uma terapia alternativa e passa a chamar-se medicina." E é indispensável discutir publicamente o charlatanismo, a indústria e os interesses económicos por detrás destas alternativas que, na verdade, não o são. A esperança média de vida e a qualidade de vida de hoje devem-se precisamente ao uso da ciência e do método científico. E os problemas que temos, nomeadamente ambientais, serão resolvidos com a ciência e não com crenças.

 

Mas para isso, vamos assumir a responsabilidade de exercitarmos a dúvida, a crítica, a verificação do que lemos, do que vemos, do que é fácil. Em tudo.

Dia de formação

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Jardim do Príncipe Real

 

  1.  

Pudera nascer de manhã

como as aves que atravessam a paisagem

e seguir viagem

sem barco sem rumo

apenas com a vida na bagagem.

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Disclosure

 

  1.  

Interesse sem conflito

tenho dito

e repito

que no desinteresse do delito

só interessa o retido

se sentido.

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Concert of birds

 

3.

Boca a altifalar

braços a esbracejar

monocordismo em torrente

bocejo inerente.

Democracia representativa

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The Guardian

 

Por muito que gostasse que o BREXIT voltasse atrás e se transformasse em BREMAIN, não concordo com quem defende um novo referendo.

 

Democraticamente o Reino Unido decidiu-se pelo BREXIT. A incompetência e incapacidade de quem entretanto, tem estado à frente da negociação com a UE, a ambição de Theresa May que aceitou negociar aquilo em que não acredita, a cobardia e oportunismo de quem lutou pelo BREXIT e não assumiu as suas responsabilidades, não podem ser os argumentos para se repetir um referendo. Mas podem ser justificação para novas eleições em que os partidos clarifiquem o que farão quanto ao BREXIT, caso as vençam.

 

Se repetirmos referendos sempre que há manifestações e/ou incompetência de governantes, teremos que fazer já eleições em França a propósito dos vandalismos pseudomanifestantes dos coletes amarelos, e termos que referendar a interrupção voluntária da gravidez em Espanha, obedecendo à manifestação que ocorreu.

 

A democracia tem os seus ritos e as suas regras. O recurso ao referendo não pode ser usado para reverter a própria democracia representativa.

Da jovem esperança

Parece que estamos todos adormecidos, atarantados, gaseados pelos horrores que vão acontecendo por esse mundo. O ataque terrorista na Nova Zelândia, anteriormente o de Pittsbrugh, o vandalismo destruidor dos coletes amarelos em França, nomeadamente em Paris, Trump, Bolsonaro e semelhantes, a crise da Venezuela, o Brexit, enfim, todo um corolário quotidiano de precipitação para abismos que nos gelam e que não sabemos como parar.

 

Por isso é uma frescura de alma e uma esperança dar conta de algumas pérolas, inesperadas e surpreendentes, como este movimento: