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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Flor

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Tenho na mão uma flor

Que se desfolha sem mim

Solta da vida que é dor

Uma alegria sem fim

 

Uma alegria sem fim

Que abraço sem saber

Quando semeias em mim

A vontade de viver

 

A vontade de viver

Nestes dias de castigo

Cantar ou enlouquecer

Desde que seja contigo

 

Compota de laranja (orange marmalade)

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Há já algum tempo que ando com vontade de experimentar a confecção da tão conhecida orange marmalade, aquela compota de laranja dos ingleses, de que eles dizem tão bem. Embora não tenha a gastronomia inglesa em grande conta, tento lutar contra o preconceito em todas as áreas.

Se bem o pensei, melhor o fiz. Depois de uma aturada busca na internet, fiquei a saber inúmeros e úteis pormenores sobre laranjas e suas variedades.

Claro que só podiam ser os ingleses a fazer um doce de laranja amarga – Seville Orange. E por isso a quantidade de açúcar que a receita tem é uma vez e meia a da fruta, o que é imenso.

Mas não nos apressemos, que este doce não é para quem tem pressa.

Esta marmalade (nome especificamente usado para compota de laranja amarga) utiliza a totalidade da fruta, o que é uma coisa que me agrada, pois detesto desperdícios. Mas enfim, não se aproveita tudo, tudo, mas tudo serve para a confecção da compota.

Vamos à receita: para cada quilo de laranja (amarga), o dobro da água, uma vez e meia de açúcar e 1 limão. Esta é a receita que vi na net. Mas como não encontrei laranja amarga, usei laranja do Algarve e, por isso, a mesma quantidade em açúcar. Para além destes ingredientes, são precisos uma grande panela ou um grande tacho, um paninho de algodão e fio de culinária. E muita, muita paciência e resiliência.

Segui religiosamente o prescrito:

- Coloquei 3 litros de água num grande tacho; pesei 1,5 quilos de laranjas, sem alterações nem “nódoas” nas cascas. Dividi as laranjas e 2 limões ao meio e espremi todas as laranjas e 1 limão e meio, no espremedor de citrinos. Fui aproveitando os caroços e as partes que não passavam o crivo do espremedor, colocando-as num prato para depois. Juntei o sumo à água.

- A seguir raspei com uma colher o interior de todas as cascas, para retirar o mais possível a parte branca, sem estragar as ditas. Devo dizer que foi uma tarefa muito custosa e demorada, o que me levou a amaldiçoar esta minha vontade de experimentar coisas para as quais não fui feita. Mas lá consegui chegar ao fim (as partes brancas juntaram-se aos caroços).

- Com uma faca afiada cortei as cascas às tiras, não muito fininhas para não se desfazerem, mas também não muito grossas para poderem cozer bem (à volta de 5 mm de largura). Juntei as tiras das cascas à água e ao sumo.

- Todos os caroços, peles e afins foram colocados num lenço de algodão, fininho, tendo atado as pontas com o tal fio culinário, deixando-as compridas – o saquinho resultante era para mergulhar na água com o sumo e as cascas, mas prendi-o na asa do tacho - destina-se a deixa passar pectina, penso eu.

- A seguir liguei o fogão e deixei ferver até cozerem as cascas – até ficarem moles – à volta de 30 a 40 minutos. Depois do arrefecimento da mistela resultante espremi o saquinho o mais que pude, para se aproveitarem os sucos lá de dentro.

- Finalmente juntei 1,5 quilos de açúcar branco e deixei ferver, mexendo, até fazer ponto. Esta última parte não foi assim tão fácil porque esteve imenso tempo a ferver e ficou muito líquido. Hoje de manhã foi outra vez ao lume e ficou com ponto a mais. Portanto só à terceira vez é que ficou bem (foi outra vez ao lume com um pouquinho de água, para que o ponto ficasse certo).

Já enfrasquei e já provei. Está uma delííííícia......!

Heróis de todos os dias

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Flachsscheuer in Laren

Max Liebermann

 

Sou médica. A minha especialidade tem-me mantido longe do furacão da COVID-19 mas, como todos os cidadãos, tenho tentado colaborar ao máximo para manter o país a funcionar ao mesmo tempo que se limitam contágios e se aguardam avanços terapêuticos e, principalmente, uma vacina.

Ninguém fica indiferente ao enorme empenho dos profissionais de saúde nesta época tão difícil, em que o seu trabalho, profissionalismo, generosidade e entrega são evidentes. Numa crise tão grave de saúde pública, eles são os mais visíveis obreiros da resistência. Aqueles que hoje, como todos os dias, em maior ou menor grau, cumprem o seu objectivo de vida que é cuidar e tratar doentes, com COVID-19, tuberculose, cancro, depressão, traumatismos, etc. E também solidão, tristeza, isolamento, empobrecimento. Porque todos os dias os profissionais de saúde são confrontados com essas realidades, para as quais se prepararam e para a quais continuam teimosamente a preparar-se dia a dia, ano a ano, durante toda a sua vida profissional.

E quando falo de profissionais de saúde estou a incluir todos os profissionais – médicos, de todas as especialidades, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, assistentes operacionais e técnicos, farmacêuticos, gestores, todos os que, diariamente, dão o seu melhor para manter a funcionar bem os serviços de saúde, nomeadamente o SNS que, agora, parece ter recebido o apoio unânime mesmo daqueles que sempre o acharam dispensável, que sempre têm propagado a sua agonia e a sua morte.

Mas a sociedade não se resume nem se esgota nos serviços de saúde e nos seus profissionais. Se eles nos merecem respeito, não menos respeito nos merecem todos os que, nos bastidores e com profissões e trabalhos menos visíveis e, sobretudo, menos glamorosos, permitem manter as cadeias alimentares e de serviços a funcionar, todos os que continuam a escoar produtos, a manter as portas dos supermercados e outras lojas abertas, pessoal de segurança, das Forças Armadas, das Câmaras Municipais, das empresas de recolha e tratamento de lixo, de limpeza das ruas, estabelecimentos hospitalares e outros, das casas mortuárias, dos cemitérios, da Assembleia da República, do Governo, os professores, os PTs, os músicos, os poetas, os actores, todos os artistas que nos entretêm e nos ajudam a não enlouquecer. De todos os invisíveis heróis que não são homenageados nem ovacionados pela sua competência, profissionalismo, generosidade e entrega.

Embora eu própria não faça parte do pelotão da frente no combate a esta pandemia, sinto-me orgulhosa pelo excelente trabalho que tem sido feito e que, neste país que nos habituámos a denegrir e a minimizar, tem mantido a situação controlada e dentro dos limites que possibilitam a adaptação possível ao desconhecido. Isto tudo apesar das inúmeras intervenções alarmistas, arrogantes, descontextualizadas e reivindicativas de estatutos especiais de muitos dos que deveriam ser os mais responsáveis e discretos interventores de todos. Não é assim que defendem os profissionais nem é assim que se dá confiança à população, sedenta de segurança e indicações precisas, quando há tanto que não se sabe e que se muda de dia para dia. Ninguém é especial, todos somos indispensáveis uns aos outros. É e sempre foi uma evidência, mas com esta pandemia tornou-se ainda mais evidente.

A democracia não está suspensa

Tudo se aproveita para acirrar os ânimos do populismo. A última moda é o pseudo ultraje pelas comemorações oficiais do 25 de Abril de 1974.

Num País a cumprir a segunda renovação do estado de emergência, em que a excepção abre a porta aos desvarios totalitários, é indispensável que as Instituições democráticas permaneçam em funcionamento e que demonstrem que a democracia se mantém e vai continuar, mesmo contra os apelos virais de quem usa o medo para alimentar a raiva contra os representantes eleitos do povo.

O Parlamento está a trabalhar, como todos os que podemos devemos fazer, dentro dos constrangimentos da pandemia. A falta de respeito seria exactamente o contrário. E o CDS, à falta de ideias que o salvem da extinção, cavalga a onda e copia o estilo do CHEGA.

O facto de não podermos ir para a rua comemorar o 25 de Abril só avoluma a importância da cerimónia parlamentar. As comemorações do 1º de Maio, desde que obedeçam às restrições impostas, são absolutamente legítimas e somos livres de participar, ou não, como acontece todos os anos, desde o dia 25 de Abril de 1974.

 

Granizo

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Inverno

Maria Helena Vieira da Silva

 

Como se a vida ficasse para sempre suspensa

o granizo na janela lembra-nos que lá fora

os elementos persistem e não se cansam

a natureza não se importa com o nosso destino

natural como o vento e a terra desbravada

pela ânsia dos animais sem culpa

sinuosa como a memória dos que se despedem

e acendem luzes por trás das colinas.

 

Sem palavras

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Carta de amor numa pandemia vírica

Gaitas-de-fole tocadas na Escócia

Tenores cantam das varandas em Itália

Os mortos não os ouvirão

E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio

Quem pretendem animar?

As crianças?

Mas as crianças também estão a morrer

 

Na minha circunstância

Posso morrer

Perguntando-me se vos irei ver de novo

Mas antes de morrer

Quero que saibam

O quanto gosto de vós

O quanto me preocupo convosco

O quanto recordo os momentos partilhados e

queridos

Momentos então

Eternidades agora

Poesia

Riso

O sol-pôr

no mar

A pena que a gaivota levou à nossa mesa

Pequeno-almoço

Botões de punho de oiro

A magnólia

O hospital

Meias pijamas e outras coisas acauteladas

Tudo momentos então

Eternidades agora

Porque posso morrer e vós tereis de viver

Na vossa vida a esperança da minha duração

 

Mensagem de despedida da Professora Maria de Sousa (através de João Luís Barreto Guimarães, que traduziu).

 

Das festas que escolhemos

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Não tenho feito pão, nem bolos, nem compotas, nem licores, nem nada que se coma, para além do que já fazia antes do confinamento obrigatório – umas saladinhas, uns ovinhos cozidos, enfim, deixo a comida para o expert cá de casa.

Mas ontem resolvi recuperar um pouco da minha veia artística e inventiva e resolvi fazer uma mousse de chocolate, já várias vezes tentada e muitas sem grandes resultados.

Portanto comprei uma tablete de 200 g de chocolate negro com 70% de cacau, parti-o em pedaços para dentro de um tacho, juntei 150 g de açúcar, um bocado de leite do dia gordo (não medi, mas foram cerca de 100 a 150 ml) e, grande acrescento que aprendi por essa internet fora, uma colher de sopa de azeite. Sim, leram bem: uma colher de sopa de um bom azeite. Liguei o fogão baixinho, para o chocolate derreter e não queimar.

Entretanto tinha deixado 6 ovos fora do frigorífico para ficarem à temperatura ambiente – li algures que isso fazia tooooooooda a diferença. Separei as gemas das claras e mexi muito bem as gemas, com uma colher de pau, de forma a que se transformassem num creme amarelado e homogéneo.

Depois do chocolate ficar em papa com o açúcar, o leite e o azeite, tudo muito bem mexido, retirei do lume, deitei lá para dentro um bom golo de licor caseiro de poejo e, devagarinho e mexendo sempre com grande vigor (todas as minhas receitas necessitam e evidenciam enorme vigor), fui juntando o creme das gemas para se irem incorporando na papa de chocolate.

A seguir, sempre com o pensamento estratégico na finalização da dita mousse, que requer mais planeamento que o isolamento viral, bati as claras em castelo bem firme (o castelo, claro) com uma pitada de sal, outro dos grandes segredos mal guardados da culinária ancestral. Mal o castelo se manteve de cabeça para baixo sem sofrer a acção da gravidade, comecei a misturar levemente as claras com o preparado de chocolate, envolvendo-as delicadamente, desta vez sem qualquer vigor, para que a mousse ficasse leve.

Frigorífico com ela e hoje, após deglutir um cabrito que demorou séculos a assar, mas que estava delicioso (do qual não sei a receita porque não meti prego nem estopa na sua confecção), com esparregado e batatinhas novas com casca, foi devidamente apreciada por todos os que partilhamos a almoçarada.

Enfim, mesmo com as ameaças invisíveis que nos rodeiam tratámos de nos banquetear, celebrando a festa de estarmos juntos. E a festa somos sempre nós que a decidimos e escolhemos.

Da irrealidade dos dias que vivemos

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Via Sacra

Portinari

 

Não sei porque tentamos sempre encontrar uma explicação ou um propósito para o que nos acontece, individual ou colectivamente. Olhamos para os factos e pensamos sempre num qualquer propósito, num determinismo natural ou divino que faz com que os transtornos da vida tenham uma qualquer justificação e um qualquer significado moral. Não acho que o homem mereça os castigos divinos, que as doenças sejam uma punição ou que as calamidades naturais sejam a vingança de um qualquer deus.

Não acredito nisso. Não acredito na revolta da natureza transformada em pandemia vírica, na nossa redenção como cidadãos melhores, mais disponíveis e mais solidários no fim deste confinamento forçado. Aliás temo pelo adensar de situações de conflito e de violência, pelo tédio e ansiedade, pela depressão e pela escassez de dinheiro, pela confusão e pelo barulho, pela incapacidade de isolamento ou pela inusitada solidão.

O que podemos e devemos é tentar aproveitar esta situação para repensar algumas prioridades, refazer alguns processos e procedimentos, inventar formas de nos mantermos minimamente sãos. Assim, quando formos libertados, poderemos apreciar a vida mais livres e mais felizes.

Porque tudo isto há-de passar e seremos outra vez responsáveis e irresponsáveis, alegres e tristes, solidários e egoístas, como só os seres humanos sabem ser. E havemos de poder abraçar, apertar as mãos, beijar e mimar, quem nos apetece. E não haverá deus pequeno ou grande que no-lo possa impedir.

A Páscoa dos confinados

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O cabrito está no forno

O pão-de-ló a crescer

Nesta Páscoa sem retorno

Resistir é aprender

 

Sem a mãe à cabeceira

Para repartir o pão

Sem a graça que aligeira

O peso da comoção

 

Cada um tem seu tormento
que disfarça como pode
suspendendo o momento
se a tristeza lhe acode

 

Sacudir a incerteza

Abafar a solidão

O carinho sobre a mesa

Amêndoas de gratidão

 

O silêncio nos visita

A saudade nos acolhe

Do amor se necessita

No abraço que se escolhe