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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da jovem esperança

Parece que estamos todos adormecidos, atarantados, gaseados pelos horrores que vão acontecendo por esse mundo. O ataque terrorista na Nova Zelândia, anteriormente o de Pittsbrugh, o vandalismo destruidor dos coletes amarelos em França, nomeadamente em Paris, Trump, Bolsonaro e semelhantes, a crise da Venezuela, o Brexit, enfim, todo um corolário quotidiano de precipitação para abismos que nos gelam e que não sabemos como parar.

 

Por isso é uma frescura de alma e uma esperança dar conta de algumas pérolas, inesperadas e surpreendentes, como este movimento:

 

Sondagens

A acreditar na sondagem que saiu ontem, do ICS/ISCTE, esta solução governativa tem hipótese de se repetir. O PS não tem maioria absoluta mas a esquerda soma mais votos que a direita.

 

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É interessante ver que a líder com pior imagem é Assunção Cristas, e que a maioria dos participantes acha que este governo tem feito um bom trabalho. Há, no entanto, 17% de pessoas que dizem não saber em quem votar, o que é muitíssimo expressivo e significativo.

 

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António Costa tem que mobilizar o seu eleitorado, não só para que não se verifique uma vitória da direita, como para que seja o partido mais votado, como ainda para que não fique refém dos partidos à sua esquerda. Por outro lado, terá que negociar um programa de governo antes das eleições, pois os objectivos da próxima legislatura terão que ser mais ambiciosos do que reverter a desgraça anterior. António Costa não tem tarefa fácil e, a avaliar pela última campanha legislativa, convém que lhe corra melhor.

 

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Rui Rio parece estar bastante mal classificado, mesmo dentro de que vota no seu partido. Mas ainda é muito cedo, e teremos europeias e autárquicas* entretanto, pelo que tudo isto ainda pode mudar.

 

*Por lapso escrevi autárquicas mas, na relaidade, como me lembrou um comentador, são eleições para a Região Autónoma da Madeira.

Gente

Womens Suffrage Statue Nashville.jpg

Alan LeQuire

 

 

Não tenho género nem genes

que me distanciem de ti

outro género e outros genes

tão semelhantes a mim.

Tão diferentes entre si

todos pequenos e grandes

todos juntos e separados

nas diversidade e abundância

de génios e gente.

Lado a lado sem segredo

somos género humano

decente

sem medo.

Ensaios

Tenho ensaiado alguns textos sobre diversos assuntos que considero importantes, mas quando chego a meio, desisto. Ou porque já passaram alguns dias sobre o assunto e já não é actual, havendo mais uns milhares para falar, ou porque já se disse tudo e o seu contrário, pelo que nada acrescentaria.

 

E assim vou deixando passar as oportunidades de me exprimir, desistindo da veemência, adiando as opiniões, duvidando das certezas entretanto experimentadas. Tudo acaba por se relativizar e desvanecer.

 

E, no fim do dia, qual era mesmo a notícia?

Diálogos de surdos

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Dialogue des Sourds

Nadim Karam

 

 

As fake news sempre existiram. Chamávamos-lhes outras coisas, como por exemplo, na época do PREC, os boatos. O boato era a arma da reacção.

 

As fake news também são uma arma de arrebanhar incautos e gente de boa fé e, sobretudo, gente pouco preparada para desconfiar, para criticar, para confrontar fontes e fazer aquilo que agora se chama o fact checking.

 

Na verdade a capacidade de divulgação e a rapidez com que as falsas notícias se propagam e a virulência das reacções são, talvez, maiores e piores do que era hábito. São arrepiantes as caixas de comentários no Facebook e nos jornais, em qualquer coisa que esteja aberta a opiniões de leitores. Parece que se soltam todos os demónios escondidos debaixo das nossas peles e mostramos o que na realidade somos.

 

A ausência de conhecimento e maturação de ideias, conhecimentos de História e de filosofia, a ausência e redução vocabular pela inexistência de leitura e de capacidade de abstracção, a ausência de pensamento dedutivo e lógico, a enumeração e priorização de argumentos e a sua explicitação, tudo isso leva à crendice e à falta de sentido crítico. Estamos cada vez menos capazes de pensar e de ouvir o que os outros pensam. Por isso tudo se extrema e se reduz ao insulto, à fé em determinadas pessoas, à defesa incondicional de determinados factos e personagens.

 

Ninguém está imune a esta epidemia, e o autismo a que cada vez mais nos condenamos, a falta de partilha pela ausência do outro, real ou porque o excluímos ou porque se exclui, agudiza e aumenta o problema.

 

Precisamos de tempo para nos desafiarmos, de tempo para nos ouvirmos, de tempo para respirar e pensar, para ler, para saber coisas que, aparentemente, não têm aplicabilidade prática e imediata. Precisamos de ouvir histórias e de as contar, de as resumir e de as esticar, precisamos de distinguir o real do virtual, precisamos de nos confrontar e ser confrontados, de comunicar.

 

A tolerância não se decreta, aprende-se no meio dos outros, com os outros. Os populismos acabam por resultar do entrincheiramento da ignorância, da defesa do indefensável, da exploração do facilitismo e da preguiça. A democracia e a liberdade dão muito trabalho.

Algo está muito errado

Quando um Estado que se diz democrático se propõe prender por 25 anos elementos que defenderam e defendem a independência de uma região, por meios não violentos.

 

Em Espanha, por muito que eu pense que os separatistas catalães conduziram muito mal todo este processo, não consigo entender e revolta-me o meu sentimento de justiça e liberdade, quando se aceita que haja pessoas presas há mais de um ano, preventivamente, por defenderem os interesses do povo que as elegeu legitimamente, e que se coloque sequer a hipótese de as condenar como se fossem assassinas.

 

Algo está mesmo muito mal no reino aqui ao lado.

Of mice and men*

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A extrema-direita alastra, perde vergonha e ganha força - em Espanha, mesmo aqui ao lado, Franco revive - ¡Una, Grande y Libre! - ¡Arriba España!

 

A democracia espanhola tem presos os políticos catalães que querem referendar a sua independência. Presos por delito de opinião são presos políticos. Apelidar de traidor a Sanchez porque tenta resolver politicamente o imbróglio catalão, aumentado e extremado pelo PP, é espantoso.

 

A extrema-direita alastra na Europa e em Portugal, basta ver as declarações do Presidente do Sindicato da PSP, reagindo à visita do Presidente da República ao bairro Jamaica, após os distúrbios que por lá aconteceram.

 

O racismo, a xenofobia, o anti-semitismo, o machismo, a violência e o desprezo pelas minorias étnicas, o regresso aos (pseudo)valores ultramontanos e ultraconservadores da família e da pátria, do papel do homem e da mulher na sociedade, é tudo triste e assustador.

 

Em Espanha, mesmo aqui ao lado, Franco revive e rejubila.

 

*título de um livro de John Steinbeck