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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Poeira

 

Sherrie Rennie:

Inner-city Bred

 

 

1.

Nada me aquece neste muro construído

por minhas e outras mãos. Ouço vozes solitárias

de um fado torturado e infinito. Cada vez mais fria a ausência

do teu abraço. Ao meu lado o silêncio esfíngico

de alguém que desiste. Que sem querer mergulha na guitarra

e dedilha a dor permanente da realidade.

 

2.

Nego o passo para o monótono aviso da destruição

nego a inevitável avalanche da tristeza

uma apatia tão sem nexo nem solução

que nega o lampejo e a atração

pelo apetecível abismo.

 

3.

À minha volta a poeira desmaiada da cidade

sem ruas visíveis nem faróis fugazes.

Procuro algumas velas iguais à tremeluzente

incerteza que nos habita na usual capacidade

de apagamento que antecede a idade

das cinzas.

 

4.

Parto aplicadamente o tijolo em que

transformo os velhos pedaços deste

tecido envelhecido que

enforma o todo que já

foi habitado por

mim.