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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Vivemos em democracia

 

Não estava em Portugal a 1 de Maio de 1974, portanto não posso fazer comparações entre o número de manifestantes dessa época e o de ontem. Nem percebo muito bem a comparação. Porque mesmo que tenha sido menor, a quantidade de pessoas nas de ontem foi gigantesca. Considero, no entanto, que as semelhanças acabam mesmo aí.

 

As manifestações do 1º de Maio de 1974 aconteceram após quatro décadas de um regime ditatorial, num Portugal liberto que reencontrava a capacidade de se expressar sem medo. As manifestações de 15 de Setembro de 2012 foram um grito de revolta e uma demonstração do desespero de um país que se vê no meio de uma crise que não acaba, governado por uma coligação que não o mobiliza, que não lhe dá esperança, que reaviva o que há de mais conservador na ideia do estado, que substitui, como dizia Maria de Belém, o primado do direito e do contrato social pelo primado da economia.

 

Mas Portugal vive em liberdade e é uma democracia pluralista. Há uma Constituição e um Tribunal Constitucional, há uma Assembleia da República para a qual o povo elegeu representantes, há um governo legítimo e um Presidente da República. Até agora, as Instituições democráticas têm funcionado. Mesmo que não concorde com o governo, mesmo que não tenha votado neste Presidente, nada no meu país pode ser comparável com o que existia antes do 25 de Abril, portanto nada pode ser comparável ao que representou, para os que então se manifestaram, a possibilidade de o fazerem.

 

Não sei se o dia de ontem foi histórico. Parece-me muito cedo para se saber o que fica ou não na História. Também as manifestações dos professores, na altura de Maria de Lurdes Rodrigues eram históricas, tal como a da geração à rasca. Foi seguramente um dia em que milhares de pessoas saíram à rua para gritarem contra a troika, o governo, a austeridade. Não devemos, no entanto, confundir o direito de manifestação e o desejo de mudança com o desencadear da queda de um qualquer governo.

 

A comunicação de Paulo Portas, a entrevista de António José Seguro e a declaração de Jorge Moreira da Silva demonstram que ainda não é desta que o governo cai. E não cairá tão cedo porque não há oposição. Não devemos confundir as manifestações, por grandes que sejam, com a vontade expressa do povo. É através de eleições que se renovam os governos. E para isso são necessárias alternativas. A este, infelizmente, ainda não há.