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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Velhice

 

Gunilla Söder 

 

1.

Estava à sua frente, de olhar perdido, os cabelos brancos apertados num carrapito, os pés arrastando-se pelo corredor, as mãos entortadas segurando numa carteira pesada, os lábios abertos e arfantes. Que sim, que não sabia da porta de saída. Indicou-lha com simpatia. Ela agradeceu.

 

Apressadamente dirigiu-se ao carro. Estava um calor sufocante e a ginástica não ajudava. Desenvencilhou-se dos sacos lancheiras e carteiras. Deu à chave e abriu as janelas.

 

Depois de dar a volta ao estacionamento viu-a outra vez, descendo vagarosamente a rua, mais triste e perdida ainda. Parou ao lado e perguntou se queria que a levasse a algum lado. Respondeu-lhe desesperada que ia para longe. Respondeu-lhe que morava lá muito perto, que a poderia levar até casa. Ela quase chorou e passou todo o caminho a dar graças a Nossa Senhora e a contar as desgraças familiares, de parcas heranças e inexcedíveis traições, de gente moribunda e só, de gente viva e só, de gente velha e só.

 

Quando chegaram disse-lhe que não precisava de conhecer-lhe o nome, pois só quem acreditava sabia que os anjos não se nomeiam.

 

2.

Sábado ao fim da manhã num hipermercado, carrinhos cheios de compras nas filas das caixas. As pessoas aguardam pacificamente, de ombros caídos. À sua frente uma velhinha toda de preto, com o cabelo todo branco, bem enrugadinha, mirradinha, empurra com o pé um saco com compras, enquanto espera, ela irrequieta, com três ou quatro objectos periclitantes nas mãos. Pergunta-lhe se não seria melhor ir para a caixa prioritária ao que ela respondeu que vinha de lá.

 

A senhora da caixa despacha rapidamente as compras, diz-lhe o preço e ela interrompe o labor de ensacar para tirar as notas, com os dedos bem atrapalhados, do porta-moedas. Pergunta-lhe se quer ajuda. E guarda os pertences em sacos, que coloca em sacos para que a velhinha os possa levar. Agradece, muito digna, com tremor no canto dos lábios, e lá vai dobrada sob o peso do saco com sacos.

 

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