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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Não me apetece

 

A verdade é que não me apetece. Não me apetece escrever sobre nada do que ouço, vejo, penso, sinto. Não me apetece repetir à exaustão, todos os dias, aquilo que já outros disseram.

 

Não me apetece reflectir sobre a reforma curricular, não me apetece dizer que concordo com os exames nos fins de ciclo, que não percebo em que é que isso é mau para o ensino nem para os alunos, não percebo porque é que a esquerda se associa a este tipo de discussões estéreis. Também não percebo o que vai acontecer aos alunos que não passarem nos exames, como vão ser acompanhados, como se vai investir na sua aprendizagem, demonstrado que está à saciedade que as retenções não melhoram o aproveitamento. Não percebo se as turmas vão continuar a ser feitas da mesma forma que já o foram (são?), juntando os alunos com mais dificuldades, maiores problemas de disciplina e integração, em turmas que sobram para os professores inexperientes e menos qualificados. Não percebo a razão da redução horária da disciplina de Ciências. Não percebo a razão da falta de empenho, por parte do PS, na verdadeira discussão sobre a qualidade do ensino na escola pública.

 

Não me apetece indignar-me com a manipulação da informação, com os comentadores, com as inacreditáveis manchetes sobre Sócrates, sobre a caça às bruxas que se instalou na sociedade e nos órgãos de representação política, e da caça às bruxas que se instalou a partir dos órgãos de representação de juízes, não me apetece preocupar-me com as múltiplas e variadas comissões parlamentares de inquérito, com a hipocrisia dos partidos da dita esquerda grande. Não me apetece lidar com a falta de nível do maior partido de oposição que se envergonha do que de positivo e ousado se fez nos governos anteriores, para se acoitar em silêncios que embaraçam as pessoas que têm memória e que aumentam a desesperança por uma alternativa que não se adivinha.

 

Não me apetece continuar sem vislumbrar a saída da crise, não me apetece não perceber se a descida dos juros das dívidas, das yield, tudo aquilo de que todos falam com ar sisudo e sabedor, é positivo, não me apetece ouvir a recessão, a execução orçamental, as desculpas esfarrapadas e mentirosas sobre o triplo da dívida comparada com o ano anterior, não me apetecem os telejornais, as taxas moderadoras, a irresponsável ligação das mortes no pico da gripe com a crise.

 

A verdade é que não me apetece. Aguardo a gestação de outra vontade interior. De força, de raiva ou de medo, que a cobardia também se renova em cada ano que nos somamos.

 

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