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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Bipolaridade

 

Portugal passa do Verão para o Inverno, numa patologia bipolar que tanto nos caracteriza, literalmente em termos climatéricos como metaforicamente em termos políticos.

 

A ideologia dos partidos que assumiram o poder está a fazer uma reedição daquilo a que se convencionou chamar pobrezinhos mas honrados. Tudo o que de positivo se fez nos últimos anos, com destaque para os anos dos governos de Sócrates, não pode neste momento ser louvado porque a lavagem cerebral a que nos submete a omnipresença mediática dos porta-vozes da direita assim obriga.

 

A aposta no futuro, na tecnologia e na ciência são olhadas como desperdício e maus hábitos de consumismo, os direitos sociais são vistos como predação do dinheiro de quem trabalha, a criatividade artística como uma preguiça indigente.

 

Este governo tem outras prioridades e assenta noutras doutrinas, que nos farão recuar em termos civilizacionais várias décadas. A educação pública, em escolas modernas e confortáveis, professores com horizontes abertos, que saibam e queiram usar as tecnologias informáticas e a internet, que percebam a mudança e a extraordinária potencialidade dessas mesmas tecnologias, a que alguém já chamou a nova electricidade, está a ser encarada pelo mínimo dos mínimos, para os mais desfavorecidos, ou para as famílias com mais dificuldades, como agora é bem dizer-se. Pelo contrário, aumentam-se os apoios ao ensino particular.

 

Em termos de políticas sociais, o que importa é reduzir os mecanismos de fiscalização da qualidade e segurança nas creches, infantários e lares de idosos, fomentando o apelo à ajuda e à solidariedade centrada na moralidade cristã, em vez de robustecer, em tempos de tanta dificuldade, os apoios a quem está desempregado e a quem não tem rendimentos, alimentando-se o preconceito classista, racial e a xenofobia. Excepção seja feita ao Ministério da Saúde que, pelo menos até agora e tanto quanto me apercebo, tem tomado medidas que, objectivamente, o defendem.

 

A cultura e a criação artística voltaram ao signo do supérfluo, não se vislumbrando nenhuma capacidade para perceber que a identidade cultural do país, a diversidade e a criatividade poderão ser economicamente rentáveis. Doloroso é também o desinvestimento na ciência, assistindo-se a uma desvalorização das Universidades como polos de investigação, que tanto melhoraram nestes últimos anos e que têm contribuído para a formação de empresas exportadoras de tecnologia de ponta.

 

A diabolização da política e dos políticos também espelha o regresso ao passado. A demagogia impera e o que foi instituído para permitir a igualdade de acesso ao exercício nobre da política e de cargos públicos, arrasta-se pela lama e é incinerado na praça pública, acicatando-se o primarismo e a violência de quem se sente desesperado. É verdade que a imoralidade e a delapidação do património público é uma realidade, mas a generalização hipócrita do ascetismo não credibiliza ninguém e está a afastar ainda mais os cidadãos dos seus representantes, abrindo portas ao surgimento de movimentos antidemocráticos, como se percebe pelos apelos de cidadãos indignaos ao cerco do Parlamento, etc.

 

Menos trabalho, menos qualificação e competências, menos remuneração, menos direitos sociais, mais horas laborais. Os sacrifícios são mais uma vez o corolário de uma vida que, segundo a Madre Igreja, será a preparação para a eternidade de venturas no Céu, visto que o Inferno e o Purgatório deixaram de existir, mas podem ser renovados pela mão de governantes retrógrados.

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