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Da indignação

por Sofia Loureiro dos Santos, em 16.10.11

 

A Bola

 

É oficial: estou a ficar conservadora. As revoluções populares alicerçadas em ecos do vazio, por muito que tenham razões sociológicas e psicológicas para se desencadearem, não me seduzem. Principalmente porque essas revoluções só acontecem onde existe a tal democracia burguesa e ultrapassada, o tal regime, fruto da indignação dos indignados. Por isso tenho muita dificuldade em entender o júbilo de tantos comentadores, que aplaudem o fenómeno.

 

Não tenho nada contra manifestações, marchas, discursos e outras formas de protesto. Penso mesmo que são saudáveis pois permitem a expressão de convicções e frustrações, um escape para, de forma pacífica e, por vezes, muito criativa, transformar a intrínseca violência em grito de paz. O que não posso aplaudir são aqueles que pretendem que estas manifestações e estas palavras de ordem são o verdadeiro veredicto popular às políticas do governo, são a verdadeira e real democracia. Não me sinto bem a ouvir pedir outro 25 de Abril, arrepio-me quando os discursos populares pedem (…) Corram com estes políticos daqui para fora! O país está a saque ou questionam o que faz o Presidente da República? (…) Ele que custa milhões de euros ao país por ano? Porquê tantos deputados? (…) Assusto-me quando vejo manifestantes a ocuparem a Assembleia da República e a vandalizarem os símbolos da democracia.

 

É precisamente por sermos uma democracia verdadeira que todos estes corajosos oradores, que vilipendiam e insultam os detentores do poder político democraticamente eleito, se podem manifestar. Não podemos confundir a voz do protesto e da indignação com o poder da rua e na rua, com a insuflação dos sentimentos antidemocráticos e justicialistas, que só podem conduzir ao avolumar das condições que geram ditaduras. É claro que tudo tem razões e significado. Não é em vão que os partidos políticos não têm sabido renovar-se, não é sem consequências que os nossos representantes usam o populismo demagógico, é para todos óbvio que o movimento sindical é totalmente irrelevante.

 

A CGTP, cujo secretário-geral Carvalho da Silva, cargo que exerce desde 1999, e que se sucedeu a si próprio (exercia o cargo de coordenador da CGTP desde 1986), é controlada há 25 anos pela mesma pessoa. Esta central sindical preocupou-se, durante as últimas décadas, em fazer prevalecer os direitos adquiridos de quem tem emprego garantido, sem nunca se adaptar aos novos desafios que se colocavam ao mundo do trabalho, resultantes de todas as mudanças sociais, políticas e económicas que se verificaram a nível global.

 

A UGT, cujo secretário-geral João Proença (não consegui perceber há quantos anos exerce o cargo mas, seguramente há cerca de 20 anos), tem servido apenas para ser o contraponto político da CGTP, predominantemente à esquerda, e a muleta do poder do bloco central, disponibilizando-se para assinar acordos que a CGTP se indisponibiliza a aceitar.

 

Os sindicatos, particularmente os dos funcionários públicos, nunca se preocuparam com as alterações da legislação laboral no que diz respeito à adaptação e flexibilização dos horários, à revisão das razões justificativas de justa causa para os despedimentos, à verdadeira avaliação de desempenho, à diferenciação positiva pelo mérito, pelo empenho, pela competência, pela motivação em aprender. Nunca quiseram liderar a mudança, tendo-se entrincheirado atrás de um tempo que acabou, anquilosadas e totalmente irrelevantes para os problemas que o novo desenho social coloca.

 

Numa altura em que os trabalhadores estão esvaziados de qualquer poder reivindicativo, em que a justificação do a bem da nação serve para alterar horários de trabalho e remunerações, para extinguir de postos de trabalho, para deixar de contribuir para a segurança social, para reduzir as condições de segurança, os sindicatos estão limitados à retórica de alguns líderes partidários, sem força, imaginação ou capacidade de mobilização para uma verdadeira reforma no sector laboral.

 

A crise económica, social e política deve indignar os democratas, aqueles que ainda defendem o poder do voto, a representatividade, a troca de opiniões e o escrutínio eleitoral, e alertar todos os actores para a urgência da mudança. Sob pena de criarmos uma sociedade em que já não haverá espaço livre para a mais que justa indignação.

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publicado às 17:27


7 comentários

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De ACÁCIO LIMA a 17.10.2011 às 13:32

COMENTÁRIO AO POST DE SOFIA LOUREIRO DOS SANTOS- "DA INDIGNAÇÃO"

00- CITO: “É oficial: estou a ficar conservadora.”

01- Citar é destacar o que se aplaude, ou verberar uma dissonância.

02- Todo o demais texto do post contraria a primeira frase, sendo marcado pela Modernidade do Pensamento e também por uma aguda Lucidez.

03- Mas cito também Porfírio Silva:

“manifestações.


Não me manifesto na rua facilmente. Mas não excluo manifestar-me. Uma coisa é, contudo, certa: não participarei nunca numa manifestação em que julgue provável que se grite, à porta da sede de um órgão de soberania, "invasão, invasão". Como ontem aconteceu frente à Assembleia da República”.

04- Acrescento: Não pactuo com quem viola o Direito de Reunião, não pactuo com quem pôe em causa, a Democracia e a Democracia Representativa, e pretende invadir o centro nevrálgico da Democracia, a Assembleia da República, não pactuo com quem desafia a Independência de Poderes, Legislativo, Executivo e Judicial, não pactuo com quem inverte o ónus da prova, minimizando o princípio da presunção de inocência e maculando o direito ao bom nome, abrindo ainda mais a porta ao uso da calúnia e da difamação, como armas de arremesso político.

05- A Presidente da Assembleia da República, uma consagrada conservadora, prontificou-se a atender às alegações dos manifestantes.

Ora, tal consagra, que o populismo esquerdista de Louçã e do Bloco, foi preterido, e a reação “distingue” agora, o populismo esquerdalho.

Passou este a ser, este, uma melhor bengalha de apoio no desmatelamento do Estado de Direito, que complementa a destruição, pela reação, do Estado Providência.

A “Estrelinha” de Louçã apagou-se!!!!

06- Anoto ainda que Medeiros Ferreira, também ele desaprovou esta metodologia política dos “rascas”.

Concluo:
“O Socialismo exige Democracia.
A Democracia, para se aprofundar, de pleno, exige o Socialismo”.

Boa Tarde.
Boa Semana.
Cordias e Amistosas Saudações de
ACÁCIO LIMA




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