Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Manter a sanidade mental

 

Kyee Myintt Saw: Market of Umbrella

 

Começa a ser muito difícil sacudir o asco que sinto quando ouço as pseudo-elites classificarem o estado do país com os superlativos que vão descobrindo, cada vez mais entusiásticos, dramáticos e entediantes, de tão superficiais.

 

Não há vislumbre de discussão sobre a ideia de qual o modelo social, qual o modelo de desenvolvimento que politica, económica e culturalmente se pensa para Portugal. É preciso crescimento, mas como? É preciso reduzir despesas, mas quais? É preciso privatizar serviços do estado, mas quais os custos sociais que estamos dispostos a suportar? É preciso parar com o investimento público, nomeadamente no TGV e no novo aeroporto, mas então qual o modelo de futuro se tem em mente?

 

A noção de democracia vai encolhendo dia a dia ao ouvirmos as inacreditáveis declarações daqueles em quem deveremos votar, como a criminalização das responsabilidades políticas e a subalternização da política à economia. Os diferentes actores, nas diferentes áreas de actividade, vão-se posicionando não se sabe exactamente porquê e para quê.

 

Leio a preocupação da Ordem dos Médicos em relação às consequências das restrições financeiras no SNS, abrindo um endereço electrónico para as queixas e denúncias sobre esse tipo de situações. É claro que a Ordem dos Médicos deve estar muito atenta a tudo o que resultar em diminuição da qualidade de tratamento dos doentes. Só que nunca me apercebi de idênticas preocupações em relação a outro tipo de riscos que envolvem redução na qualidade do tratamento, como o não cumprimento de horários, os atestados falsos, a requisição totalmente inexplicável de exames complementares de diagnóstico, a falta de comunicação, a desinformação sobre prescrição de genéricos, a incapacidade de preenchimento de processos clínicos, etc., etc., etc. Lembro-me até de ter lido nos jornais que a Ordem dos Médicos nem tinha capacidade para avaliar as queixas por mal prática que lhe chegavam.

 

Não tenho a mínima capacidade de perceber se a maior parte das pessoas, aquelas que todos os dias enchem os transportes públicos, os tais que formam um dos enormes buracos financeiros do estado e que o movimento Mais Sociedade quer privatizar, aquelas que aos sábados enchem o mercado e escolhem batatas, cebolas e pimentos, que resmungam com o preço da fruta e pedem meio frango, no talho, se dão ao trabalho de ler ou ouvir o que as pseudo-elites se entretêm a espalhar pelos media que, de uma maneira totalmente acéfala, reproduzem e replicam com ar grave e sério. Mas penso que a relativa calma que se sente não tem a ver com o amorfismo e a falta de cultura democrática do povo, com dizem os saudosos da democracia reivindicativa, de greves, manifestações e muitos chavões. A verdade é que ninguém liga nenhuma. É uma questão de sobrevivência e de salvaguarda de alguma sanidade mental.

5 comentários

Comentar artigo