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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Pedra a pedra, o poeta constrói o poema (1)


Pedro Teixeira Neves; René Magritte

 

algumas aproximações entre pedras, poemas e poetas:
 

O poeta monumenta as emoções; por isso há poemas e livros que se confundem com catedrais.
O poeta, como as pedras, faz-se de matéria-silêncio.
Se o poeta quiser uma pedra pode ser um poema.
O poeta é um pedreiro cujas pedras traz no peito.
O poeta é um lapidário de sentimentos.
O poeta, como as pedras, precisa de solidão para medrar.
O poeta poetiza pedra a pedra, mas convém que não transforme os poemas em muros de lamentações.
Pedra a pedra o poema se constrói, mas convém que não se confunda com o imobilismo das pedras.
Há quem olhe para a pedra dos poemas como se olhasse para calçadas. Por isso há quem pise a poesia, desconhecendo pisar a vida, esse solo frágil.
Enquanto pedras, as palavras têm falhas. Por isso os poetas falham.
Enquanto pedras, as palavras têm arestas. Por isso é difícil a poesia.
Enquanto pedras, as palavras por vezes doem. Por isso têm os poetas corações magoados.
Enquanto pedras, as palavras são às vezes atiradas da boca para fora.
Enquanto pedras atiradas da boca para fora por vezes as palavras ferem.
Enquanto pedras, as palavras estão e não estão, são e não são.
Enquanto pedras as palavras não precisam de mais nada.
Os poetas nem sempre são puros como as pedras. Do mesmo modo as palavras.
A pedra pode corromper, as palavras também.
Os poemas como as pedras deviam servir apenas para construir.
Em Gaza há décadas que as pedras servem como arma, a poesia também pode ser uma arma.
Uma pedra pode atingir-nos mortalmente, um poema também.
Às vezes o poeta magoa-se com as palavras, tal como uma criança por vezes se aleija brincando com pedras; os poetas têm muito de crianças.
Às vezes não sabemos o que fazer com uma pedra, do mesmo modo que com um poema.
Atirar uma pedra fora é como rasgar um poema.
Olhando para uma pedra julgamos por vezes olhar para nada. Há quem olhe para os poemas como se olhasse para pedras.
Os poemas, como as pedras, encontram-se ao alcance de todos. A poesia, como as pedras, anda na rua.
Um poema é como uma pedra, pode sempre estilhaçar-se.
Alguns poetas têm corações de pedra. Se calhar por isso mesmo são poetas, porque se sentem na obrigação de ao longo das suas vidas irem polindo o coração.
Há pedras tão belas que parecem inventadas. Há poemas tão belos que parecem pré-existir ao poeta.
As pedras a ninguém pertencem. Os poemas deveriam também ser de toda a gente.
No meio do caminho de cada poeta existe sempre uma pedra, como existe sempre a palavra.
As pedras têm a qualidade da inércia. Há poetas que por vezes assumem essa qualidade.
Pegar numa pedra encontrada no caminho sabe bem. Sabe bem sentir o seu peso ancestral, sabe bem sentir a sua pele dura, áspera e seca, sabe bem cheirar o seu cheiro a terra e a distância. Pegar num livro de poesia encontrado ao caminho numa qualquer estante sabe igualmente bem, sabe bem sentir o seu peso, passar a mão pela sua pele de papel, sentir o seu toque e o seu cheiro.
Antigamente os homens escreviam nas pedras. As pedras eram livros que não se podiam folhear. Nesse contexto, os livros já foram de pedra. Ainda assim, isso de pouco lhes valeu – o tempo leu-os tantas e tantas vezes que os apagou da história, restando apenas algumas páginas em cavernas; entenda-se, páginas não encadernadas mas antes, dir-se-ia, encavernadas.
No tempo dos livros de pedra não resisto a pensar que emprestar um livro a alguém podia ser um acto perigoso e subversivo, considerado até um ataque à integridade física.
Igualmente no tempo dos livros de pedra, ninguém ia ler para a margem dos rios. Era demasiado custoso. Isto é, poucos se atreveriam a passear de livro debaixo do braço, sobretudo se fossem calhamaços de seiscentas páginas… Não sei que sucesso nesses tempos teria um Leon Uris ou um Rodrigues dos Santos…
No tempo dos livros de pedra, um best-seller equivaleria a uma pedreira inteira esventrada. Os ambientalistas do tempo dos livros de pedra é bem provável que não vissem com bons olhos os autores de best-sellers. Talvez preferissem os poetas.
Atirada, uma pedra pode viajar sem horizontes, um poema também.
Com pedras se constroem casas, com poemas se constroem abrigos.
Há casas feitas com pedra, e há quem faça dos poemas casa.
Da utilidade das pedras pouco sei dizer, da utilidade de um poema sei dizer o respirar.
Com uma pedra pouco podemos, com apenas uma palavra podemos às vezes muito mais. Com a palavra Amor, por exemplo.
As pedras guardam segredos do princípio do mundo, os poemas revelam esses segredos.
Há poetas que gostariam de ser lidos pelas pedras, como o poeta Manoel de Barros.
O meu pai foi geólogo e escreveu poesia.