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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Eu aguardo, sr. Ministro


Tenho tido uma enorme esperança de que com o PS no governo e com este ministro da Saúde, que tem pouco jeito para as câmaras, que parece sempre falar demais, mas que parece ter ideias, o que não abunda, que era mesmo desta vez que se iriam fazer reformas a sério.

E não temos tido razões de queixa. Tenho defendido que o estado e o funcionalismo público são para servir e não para se servirem. Penso que o estado tem algumas obrigações que não pode descorar, como a saúde universal e gratuita, mesmo que tendencialmente.

A forma como se organiza a gestão dos centros de saúde, hospitais, etc, sempre me pareceu secundária. O que acho fundamental e a que raramente se assiste, é à responsabilização de quem trabalha, começando por cada um dos prestadores de cuidados, até aos directores dos serviços, directores clínicos, administradores e directores hospitalares e dos centros de saúde.

Introduziu-se no sistema o conceito de empresarialização dos hospitais, elevando-se a bandeira da autonomia de contratualização, de definição de objectivos, de controlo de custos.

Há algumas semanas tem escapado para os media a ideia de que, afinal, alguns hospitais têm muito maus resultados, não se percebendo muito bem o que isso significa, a par de outras notícias de gastos sumptuosos, etc.

Talvez valesse a pena perceber o que correu mal nesses hospitais (se é que alguma coisa correu mal). Porque se há gastos excessivos, convém saber se houve acréscimo de produtividade, mais consultas, mais internamentos, mais actos operatórios, mais doentes a ser tratados de doenças muito dispendiosas como a SIDA e a doença oncológica, se se fizeram mais exames complementares, etc. Ou se, pelo contrário, esse dinheiro que se gastou a mais não se reflectiu em melhor qualidade de atendimento às populações e foi delapidado em horas extraordinárias desnecessárias, aparelhos que não se podem usar, administradores a mais, mobiliário, etc.

Repentinamente, o ministro ameaça os tais hospitais perdulários de voltarem atrás, ou seja, de passarem a ser, novamente, hospitais públicos.

Francamente, não percebo. E que tal responsabilizar as equipas de administração e gestão hospitalar pelo que se passa? Qual é a vantagem do retrocesso? E qual foi a vantagem da empresarialização?

Com enorme tristeza e apreensão, começo a duvidar do rumo, das ideias do Sr. Ministro, deste governo socialista.

Paralelamente, vão saindo artigos dando conta do início das negociações das propostas de alteração da remuneração dos médicos hospitalares. Filosoficamente estou de acordo no que diz respeito a premiar quem mais trabalha. Não estou de acordo, como bastas vezes o afirmei, com o fim da exclusividade de funções. Para mim, o correcto seria exactamente o contrário, com a total separação entre sector público e privado.

Espero que as negociações corram bem. A inevitabilidade da alteração do status quo é evidente. Esperemos que para melhor, com maior justiça, equidade e responsabilização.

Eu continuo a aguardar, Sr. Ministro.

(Os russos são
ligeiramente machistas!)