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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Café da esquina

 

Irritações matutinas, cíclicas, que um dia poderão explodir, enquanto nos outros dias apenas provocam um encolher de ombros ou um pequeno tilintar distraído no fundo da memória.

 

O café onde tomo o pequeno-almoço aos fins-de-semana é sempre o mesmo, porque eu gosto deste tipo de rituais. É o único que vende alguns jornais aos sábados e domingos e é por isso que lá vou.

 

A Dona é uma mulher azeda, mal disposta e mal encarada, que muda de empregadas como quem muda de camisa, pois o perfil que se observa nelas é do mais medíocre que existe, em incapacidade de tirar cafés, besuntar torradas ou somar parcelas e descortinar um total.

 

Em vez de saquetas individuais de adoçantes, com 1 a 2 comprimidos ou com pó, a Dona do café tem 2 frascos grandes de comprimidos de adoçantes que, quando não decide ela mesma adoçar os cafés com o número de partículas que ela acha que os clientes querem, andam sempre de mão em mão, com os vapores que se evolam de todas as bebidas quentes, se esfrangalham e colam, levando os ditos clientes a uma enervação permanente.

 

Outra característica interessante é o facto de, ao fim de 18 anos, a Dona ainda não ter conseguido fixar os preços dos jornais e dos maços de tabaco que vende, tendo sempre que ser os clientes a dizer-lhos. As empregadas, ou porque não estão tempo suficiente para memorizarem preços, ou porque acham que não é das suas competências, ou porque nunca compraram um jornal, ou porque lhes é manifestamente impossível, seguem os mesmos passos.

 

Para além disso, a Dona tem um carro que, haja ou não haja lugares de estacionamento disponíveis nos 500m mais próximos, pára sempre em segunda fila, hábito que vem sendo generalizado, pelo menos ao pé da minha porta. As pessoas andam 100m da porta da sua casa até às portas dos cafés (há quatro cafés num raio de 200m), em segunda ou terceira fila. Quando alguém tem que sair e está fechado, os donos dos carros sentem como normal o facto de quem quer sair para o trabalho lhes ir pedir para retirarem os seus. E pedir com jeito e por favor, porque senão ainda se é insultado.

 

Enfim, se calhar é por ter mudado a hora, mas hoje tudo isto teve uma enorme importância, por muito que sejam ninharias e disparates. Mas penso que a falta de respeito pelo próximo é cada vez maior.
 

Tenho que encontrar outro café que venda jornais aos fins-de-semana.