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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Exemplar

O Sistema Nacional de Saúde (SNS) é pesado, burocrático, alberga em si vícios, irresponsabilidades, profissionais que pouco fazem e, por conseguinte, muito recebem. Mas é universal e tendencialmente gratuito, e a grande maioria dos seus profissionais têm grande qualidade, são trabalhadores e servem o melhor que sabem e podem os seus doentes e os seus serviços.

Por tudo isso, mantenho o que disse sobre o nosso SNS e parece-me injusto e resultante de ignorante atrevimento, portanto ofensivo, apelidar de “irresponsável” António Arnault, e de “monstro” um sistema que, por muitos defeitos que tenha, foi o responsável pela mais espectacular melhoria dos padrões de saúde em Portugal.

Ao contrário do que pensa João Gonçalves, eu não acho o SNS “exemplar”. Acho que é um dos melhores sistemas nacionais de saúde, tal como é reconhecido por organizações internacionais. E não é por uma tarde de troca de sms’s que alguém completamente alheio à matéria se possa permitir fazer avaliações de carácter global. É prova de sabedoria reconhecer as próprias limitações. Histórias exemplificativas, do tipo da que conta, por muito desagradáveis que sejam, há-as infelizmente para todos os gostos.

Penso que é um erro caminhar no sentido da privatização da saúde. É também uma questão ideológica. Para mim todas as pessoas têm direito a ser assistidas na doença, e é o Estado que deve assegurar, se não gratuitamente pelo menos com a tal tendência, essa assistência. É urgente, necessário e inevitável reformar o SNS. Optimizar e concentrar recursos, premiar quem trabalha e punir quem não o faz, reorientar os gastos, reduzir desperdícios, responsabilizar todos os que lá trabalham, incluindo os conselhos de administração. Tudo isto é possível fazer, desde que haja vontade política.

Do que nos vamos apercebendo parece haver interesse em empurrar médicos e doentes para o sector privado, esvaziando o sector público e engordando as seguradoras. Não tenho rigorosamente nada contra o sector privado da saúde. Mas será que o sector privado tem interesse, por exemplo, em ter serviços de Neonatalogia, com internamentos de grandes prematuros em cuidados intensivos, durante meses? Ou serviços de Infecciologia, que tratam doenças crónicas, prolongadas e dispendiosas como a SIDA? Ou serviços de Oncologia com terapêuticas cada vez mais onerosas? Será que há capacidade para fazer seguros que as pessoas todas possam pagar, que cubram todas estas despesas? Ou fica para o Estado o que dá prejuízo? Ou a saúde vai passar a depender do poder económico que cada um tem?

O SNS é ainda das poucas coisas de que o Estado se pode orgulhar. Esperemos que se não transforme o "monstro" numa "irresponsável" inutilidade.

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