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Comentário clandestino

por Sofia Loureiro dos Santos, em 12.11.08

Começo por esclarecer que sou professor há mais de 22 anos.
Adianto também que não me reconheço nestas manifestações, nem na histeria manifestada pelos meus colegas.


Não é politicamente correcto dizê-lo, mas o que se passa é que a qualidade pedagógica e humana da maioria dos professores é muito, muito baixa. A maioria dos meus colegas formou-se com notas anormalmente fracas, acabaram para vir para o ensino apenas aqueles que não encontraram melhor alternativa de emprego. A maioria não são professores, são funcionários do Ministério da Educação, e que como parte do seu contrato de trabalho têm de aturar miúdos durante umas quantas horas por semana. As 'bestas' como alguns se lhes referem dentro da sala de professores, para gáudio geral.


Estão 100.000 professores na rua? Ou 100.000 funcionários que apenas vêm os seus privilégios ameaçados? 100.000 parasitas do Estado que apenas querem direitos, mas recusam quaisquer deveres, quaisquer obrigações de prestar contas à sociedade que lhes dá de comer?


O que mais me angustia é que há um erro de princípio na reforma da educação: ela não se fará com os professores (como é politicamente correcto dizer) porque estes não o são. Apenas se fará com OUTROS professores; dignos dessa profissão e cujo nome foi usurpado.


Escusado será dizer que não me atrevo a manifestar publicamente o meu desacordo perante os meus colegas na escola. Uma maioria esmagadora, ameaçadora, mesquinha e incapaz de discutir com quem discorda, apenas insultar. Estou refém dos meus colegas, tal como os pais dos alunos e todos aqueles que querem ver o seu país evoluir baseado no esforço e no mérito;


Estamos todos reféns porque hão-de vir paralisações e suspensões de aulas. Hão-de arranjar maneira de parar as aulas para pressionar os pais, mas sem greves, pois essas lhes afectam o vencimento que querem garantido no final dos 14 meses. Os alunos são as primeiras vítimas porque eles não têm, nem terão, quaisquer escrúpulos em os sacrificar à manutenção das suas mordomias, aos interesses políticos de terceiros. Quando ouvi o Manuel Alegre (em quem votei), dizer as barbaridades que hoje disse sobre a Ministra percebi o quanto esta é uma luta política de que os meus medíocres 'colegas' são meros peões.


Continue Senhora Ministra, continue, que não lhe faltem as forças, é o que todos os professores dignos desse nome, mas que têm de permanecer calados, clandestinos dentro das suas próprias escolas, lhe imploram.

 

Comentário de professor-na-clandestinidade (11/11/2008 - 23:43h)

 

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publicado às 19:29


17 comentários

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De escrevinhadora a 13.11.2008 às 12:00

Eu compreendo a mágoa deste colega face aos 'outros' que preferem reclamar; mas todos TÊM de dizer o que pensam, sobretudo se, com uma carreira de 22 anos, já detém uma voz 'audível'.
Experimente falar, lá na escola, assim 'como quem não quer a coisa' - pode ficar surpreendido.
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De maria câmara a 15.11.2008 às 20:58

Professor há 22 nos? E não se atreve a manifestar publicamente o seu desacordo? É dos tais que acha que tudo devia vir feito de fora e de cima?
Ainda não percebeu que quem precisa de uma providência cautelar, venha ela da ministra ou de outrem, e é incapaz de assumir ideias discordantes e de defendê-las, se é professor, está na profissão errada?!
Pode, até, ter razão em afirmar que há muitas coisas nas escolas que estão erradas agora o que não tem é legitimidade nenhuma para exigir ou sequer esperar que elas mudem se continuar a acobardar-se.
Já ouviu falar em actas, já?
Por discordar de uma nota atribuída em conselho de turma, ditei o que eu queria que ficasse em acta a justificar a minha posição. Quem secretariou a acta, então, escreveu "a coisa" de maneira que me pareceu aligeirada. Exigi a reposição das minhas palavras. Foram necessárias duas reuniões posteriores só para aprovação da acta. Mas as palavras que lá ficaram foram precisamente as que eu quis que lá ficassem.
Porque não utiliza as actas para nelas deixar a sua opinião? É simultaneamente um direito e um dever.
Mas não.
Você cala, consente e vem para aqui chorar no desejo das mudanças que virão de fora porque não tem tomates para as exigir!
E acha, então, que é um modelo de avaliação que desvirtualiza o ensino, ignorando a qualidade e premiando a mediocridade ( basta dizer que, nele, as aulas têm um peso de 1 em 20, ou seja, de 5% ) que vai contribuir para a melhoria da classe docente e do ensino?
Deixe-se de manias de perseguição e seja homenzinho que idade já tem.
E, se elas persistirem, tente o psiquiatra.
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De Pedro a 13.11.2008 às 15:56

Não é Professora apenas quer provocar e agitar as águas ao serviço de Milú
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De burns a 13.11.2008 às 17:38

francamente a mim parece-me mais um comentario de um dos 569 assessores do governo a querer justificar o dia de trabalho.
para algumas pessoas so é lucido quem aceitar o destino como vacas indianas , sem reclamar
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De burns a 14.11.2008 às 19:05

porque nos querem ,tal como elas , com o mesmo olhar vago e agradecidos ao querido lider por ter a gentileza de nos indicar o caminho
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De anónimo a 13.11.2008 às 19:14

Que jeremíada! Francamente, acho este post deplorável. Queixando-se e escondendo-se, não é melhor do que os medíocres de que se queixa, mas apenas mais um.
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De Sofia Loureiro dos Santos a 14.11.2008 às 18:54

Então, porque se esconde? Que corajoso! Ou só o seu anonimato é que não é medíocre?
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De anónimo a 15.11.2008 às 01:23

Não, não me escondo de nada, assumo as minhas opiniões ao vivo sempre. Mas qual o interesse de me identificar aqui? O meu nome não acrescentaria nada, e não me interessa expô-lo na net.
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De de um anónimo para outro! a 17.11.2008 às 22:44

Sr Quintanilha, sr Quintanilha, você é de facto bestial!
Agora recorre ao anonimato para ofender os outros que pensam de forma diferete da sua?
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De Quintanilha a 18.11.2008 às 00:15

Não tenho comentários anónimos. Todos os meus comentários, aqui, ou em qualquer outro sítio, são assinados e fazem referência ao meu blogue. O endereço de e-mail também é verdadeiro.
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De Tiago Moreira Ramalho a 13.11.2008 às 20:36

Se esse "professor-na-clandestinidade" é mesmo professor, deveria ter vergonha por destratar desse modo os seus colegas. A Sofia marcou a sua posição e pelos vistos está fechada ao debate e à consideração de ideias alheias. Mas eu posso dar-lhe um exemplo que conheço muito bem.

Ela é uma professora de matemática, das professoras que mais respeitei e respeito ao longo da minha vida escolar. Quando entrou para a faculdade, pelo génio, foi "empurrada" para a vertente científica da matemática. Um professor na altura chegou a fazer aquele que era o seu maior elogio para uma rapariga "a menina pensa como um homem". Poderia ter tido um futuro brilhante num qualquer lado deste país, no entanto, depois de ter a licenciatura na vertente científica, optou por tirar uma segunda licenciatura na vertende educativa, pois tinha o sonho de ensinar. A sua competência é conhecida pelo país inteiro, chegou a fazer exames nacionais durante alguns anos (trabalho esse que, como não era de docência, lhe retirou a possibilidade de ser professora titular e ficar "professora de segunda"). Para melhorar a aprendizagem dos alunos, sempre, ao longo de toda a vida profissional, foi criando materiais didáticos de excelência, muitas vezes superiores aos livros que nos fazem comprar todos os anos, e foi se inovando: quando começou, antes da era digital, as fichinhas eram escritas à mão, agora, trabalha em bases de dados complicadíssimas, chega a pagar do seu bolso para ter bases de dados para as suas turmas e tem um desvio das notas em relação aos exames dos mais reduzidos que pode haver. Neste momento, esta que é para mim a referência absoluta quando falo em "professores", sente-se simplesmente humilhada, maltratada, depois de anos a trabalhar por um sonho, sente as asas cortadas e a moral espezinhada. Em situações de quase desespero já a oiço dizer que não se vai prejudicar mais e que o que tem vontade de fazer é dar 20 a todos para não ver a sua avaliação posta em causa. É disto que falo quando digo que a ministra não sabe nada do que se passa nas escolas, nada! Cria modelos que na sua cabeça parecem perfeitos e que na realidade se revelam autenticas bostas.

Continue Senhora Ministra, continue, que não lhe faltem as forças...
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De carlos silva a 13.11.2008 às 21:52

Como encarregado de educação, membro de uma associação de pais, devo dizer que sei de mais casos nestas situações. Os bons professores não se querem transformar em tropa de choque de lutas partidárias. Como pai, não consentirei que levem para as aulas assuntos de âmbito profissional. Saberemos agir, comunicando à IGE, qualquer perturbação.
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De Sofia Loureiro dos Santos a 14.11.2008 às 18:56

Pois é. A educação envolve muito mais pessoas que os professores. Envolve todos os cidadãos.
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De Popelina a 14.11.2008 às 12:45

Parabéns a este corajoso professor. e parabéns Sofia, por tudo o resto.
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De Sofia Loureiro dos Santos a 14.11.2008 às 18:57

Popelina, agradeço por mim e também agradeço o testemunho deste professor. Imagino a cultura democrática que abunda nas escolas...
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De A.Teixeira a 14.11.2008 às 15:54

Há nesta caixa de comentários um encadeamento de opiniões, entre a do Pedro, às 15H56 de 13 de Novembro e a do Tiago Moreira Ramalho, às 20H36 do mesmo dia, que me parecem emblemáticas do que tem sido o estilo de discussão usado pelos mais exuberantes representantes da classe dos professores na blogosfera.

Começando pelo Pedro, parece que para ele nem se levantam dúvidas como a classe dos professores parece estar unida, o que o leva a concluir taxativamente que o autor do texto não é professora – e parece curiosa esta especificação quanto ao género...

O Burns, por seu lado, até lhe aponta profissão, assessor do governo, mas a metáfora saiu-lhe mal, ao usar vacas indianas por sinónimo de animal complacente, quando o que melhor identifica as ditas vacas é o facto delas serem animais sagrados, a quem é proibido fazer mal – estaremos então a falar de professores e da sua avaliação?...

Mas talvez o clímax seja o comentário seguinte, de alguém que acusa o autor do texto de ser um medíocre, que se queixa mas se esconde (por detrás do anonimato da designação professor-na-clandestinidade, supõe-se). Penso eu que teria ajudado à seriedade (esqueça-se a estupidez de não perceber o paradoxo inerente ao que escreveu) destas acusações se o seu autor não tivesse escolhido, também ele, o anonimato…

O comentário que representa o anti-clímax da série, pelo contrário, é de autor assumido, de pose aparentemente urbana que pretende estar, ao contrário do que acha da autora do blogue, aberto “ao debate e à consideração de ideias alheias”. Previamente, Tiago Moreira Ramalho dera mostras da consideração que a ideia alheia do autor do texto lhe merecera: o seu colega, se fosse colega, deveria ter vergonha…

Não tenho a mínima dúvida que qualquer dos 4 comentadores acima pretende ser levado a sério, assim como a sua causa. Mas, pelos motivos à vista, é difícil.

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