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Responsabilidade individual

por Sofia Loureiro dos Santos, em 07.01.07
Ouvem-se todos os dias várias pessoas a comentar a ingerência do Estado na vida privada, regulamentando tudo o que pode e se calhar muito do que não deve. No entanto, não ouço as mesmas pessoas insurgirem-se pelo facto dos cidadãos se desresponsabilizarem totalmente das suas opções e da escolha de prioridades na vida.

Quando lemos várias notícias e reportagens acerca do sobreendividamento das famílias, só falta, no fim, a eterna expressão: o governo é que devia…

O apelo ao consumo, a publicidade enganosa, a relevância da aparência do que se tem, na sociedade ocidental actual, são estímulos constantes e absolutos que nos pressionam a querer mais, sempre mais, sem se saber exactamente o quê e para quê.

Achamos indispensáveis e cremos que são direitos absolutos o que nos aparece como essencial na televisão ou no vizinho do lado. As viagens de férias, os écrans de plasma, o cabeleireiro, a roupa da moda, os relógios a condizer, as remodelações e a decoração das casas, cíclicas e por estação, os telemóveis com fotos, vídeos e internet, os casamentos que custam milhares de euros, os corpos esbeltos, sem rugas, pêlos ou banhas, os trabalhos criativos, sem horários e bem pagos, enfim, tudo o que nos é apresentado como essencial à nossa felicidade e cuja falta nos mergulhará na mais absoluta tristeza e nos transformará nuns marginais pobres e suburbanos.

O acesso ao crédito pessoal é muitíssimo fácil e propagandeado. Mas não conheço nenhuma instituição de crédito, bancária ou outra, que venha a correr atrás dos cidadãos obrigando-os a subscrever um determinado montante e assumindo um compromisso económico durante vários meses, impedindo-os de fazer contas.

São os cidadãos que têm que saber quais são as suas prioridades e assumir a sua total responsabilidade. Antes de ir de férias às Caraíbas com a família inteira, pagando um maravilhoso pacote em suaves prestações, que se somarão às suaves prestações com que se comprou um confortabilíssimo sofá que até estava em promoção, que se somarão às menos suaves prestações do carros e da casa, talvez seja importante saber se é melhor ir às Caraíbas do que comer durante o resto do ano, se é mais importante sentar-se num sofá novo do que pagar os livros de estudo dos filhos, se é preferível prescindir dos transportes públicos ou de uma casa onde morar.

Sou absolutamente solidária com que está desempregado e não sabe como vai pagar compromissos que podia assumir enquanto tinha um ordenado ao fim do mês. Acho muito bem que se criem gabinetes de apoio a quem precisa de aprender a gerir as suas economias, parcas ou abundantes.

O que não posso aceitar é que essas pessoas se achem vítimas dos bancos, das publicidades, da globalização, do mundo, quando, na imensa maioria das vezes, são vítimas delas próprias, não percebendo que a opção está sempre e apenas na sua mão: comprar ou não comprar, eis a questão.

(desenho de Alain Gonçalves: atolados)

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publicado às 16:18


8 comentários

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De lino a 09.01.2007 às 09:27

Caro impaciente:
O post era sobre o endividamento das famílias, que é constituído euro a euro, não milhão a milhão. Quando o post fôr sobre o endividamento do estado e das empresas pública ou sobre a carga fiscal, eu falo da situações que refere.
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De Sofia Loureiro dos Santos a 08.01.2007 às 21:55

Obrigada a todos por esta caixa de comentários tão bem recheada!
O que pretendi foi questionar o nosso papel, enquanto seres pensantes e responsáveis, face a opções que somos sempre nós próprios a tomar. Todas as atitudes são condicionadas pelo meio ambiente, mas a definição de prioridades é de cada um; parece-me que temos muito a tendência de "culpar" outros pelas nossas escolhas.
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De HarryHaller a 08.01.2007 às 15:54

Um pertinente e oportuno post Sofia.
Também eu vejo esse fenómeno social como da responsabilidade do cidadão consumidor,pois todos temos(salvo exepções do foro patológico)a liberdade para dizer sim ou não.

Boa semana

Lobo das Estepes
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De impaciente a 08.01.2007 às 15:30

E ele são os submarinos, as fragatas (num país que não tem frota mercante nem pesqueira!) e que só poderão servir para missões de Paz “e fraternidade...” os TGV’s (quando os caminhos de ferro são deficitários desde que me conheço!) as auto-estradas e pontes (pagas vezes sem conta pelos contribuintes) os Centros Culturais de Belém (que pena não terem deitado abaixo os Jerónimos!) as Expo’s (que estão por pagar!) as obras aeroportuárias (que são permanentes!) e que terão o ponto alto com o “aborto” da Ota... e vamos falar de “pormenores” como “mariscadas”...

Cêntimos, comparados com os milhões esbanjados pelo Estado e que desembolsamos no dia a dia!!!
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De lino a 08.01.2007 às 14:04

Excelente post, Sofia.
E ainda faltam os almoços e os jantares fora de casa todos os fins de semana, bem como as mariscada. É um fartar, vilanagem!
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De jp a 08.01.2007 às 11:04

Perdoem-me a fabulação, mas concordo com esta cada vez maior disseminação da praga de cigarras. As formigas estão sempre por cá para ajudar quando é preciso, porque a culpa nunca é da música nem do canto, mas sempre do rigoroso inverno.
Arguto post, como já é habitual.
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De paganini a 07.01.2007 às 19:55

As famílias são o espelho do Estado!
O endividamento público e as dívidas do Estado são tão, ou mais, escandalosas que as dívidas das famílias... e o Estado também gasta sem limites, o que se entende: quem vier atrás que feche a porta e, depois de quatro anos, na melhor das hipóteses, alguém há-de pagar... e esse alguém são sempre os cidadãos!!!
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De J.F a 07.01.2007 às 17:53

Que essas pessoas são "vítimas dos bancos, das publicidades, da globalização, do mundo" é uma realidade.
O que lamento é que esta sociedade dita "desenvolvida" perpetue a vitimização de quem não têm capacidade para se afastar das "rasteiras" que outros (com mais poder e que são ao mesmo tempo os modeladores dessa sociedade), conscientemente lhes estão a "passar" para com elas tirarem os seus dividendos.

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