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Fio da vida

por Sofia Loureiro dos Santos, em 29.08.06

O progresso científico tem sido tão avassalador que assusta. Mais rápido do que a velocidade com que pensamos nas suas consequências, mais extraordinário do que a imaginação, mais tecnológico do que humanizado.

Por isso há sempre aqueles humanistas, habitualmente mais pensadores do que fazedores, que olham a vida e o mundo, e principalmente o homem, como um conjunto de células e um conjunto de emoções, tudo misturado e moldado por valores resultantes da época, do espaço, das inter relações com outros seres vivos e com o meio físico, ou seja valores culturais, que tentam criar e uniformizar as regras necessárias para que os homens se estudem, se tratem, mas não se destruam, aviltem ou percam as suas características mais humanas.

Entre estes humanistas há os representantes dos valores espirituais e religiosos, que acreditam que a vida é mais do que um conjunto de moléculas, que há mais qualquer coisa para além dos genes e das proteínas, do oxigénio ou do ozono, a que chamam alma.

Alguns destes guias espirituais depõem num ente criador, omnipresente, omnipotente e omnisciente, a capacidade de dar ou tirar a vida.

Respeito muito as religiões e os religiosos. Cada qual é livre de pensar, acreditar, rezar, seguir rituais e partilhá-los com quem quer.

Mas não respeito aqueles que, por terem uma determinada filosofia de vida, por terem abraçado um determinado conjunto de valores morais, o tentam impor a toda a humanidade, achando que para isso estão mandatados pelo divino.

O conceito de início da vida tem variadas ressonâncias.

A investigação que tem sido feita em relação à utilização de células estaminais (palavra que deriva de estame, que significa fio da vida, fio da existência), na tentativa de desenvolver tecidos que possam substituir tecidos adultos lesionados, para dar um pequeno exemplo, são uma fundada esperança para muitos doentes. O facto de se utilizarem embriões excedentários da fertilização in vitro, ao ter como consequência a destruição desses embriões, põe problemas éticos a muitas consciências.

Foram publicados trabalhos em que se demonstra que é possível desenvolver os mesmos tecidos adultos a partir apenas de uma célula retirada de um embrião muito jovem (ele próprio com muito poucas células), sem o lesionar, ficando com a total capacidade para de desenvolver por inteiro, saudavelmente.

Pois mesmo assim, o Vaticano já fez saber que não concorda com este método, porque se uma célula se pode desenvolver totalmente num novo ser, essa mesma célula deve ser considerada um embrião!!!

De certeza que o Papa Bento (ou Benedito) XVI nunca foi nem será submetido a qualquer intervenção cirúrgica. Na verdade é possível, a partir de uma célula adulta, desdiferenciá-la andando para trás na sua evolução, transformando-a numa célula estaminal. Imagine-se a quantidade de potenciais embriões que se matam numa simples excisão do apêndice!

ADENDA: Vale a pena ler os excelentes posts sobre este e outros assuntos no Diário Ateísta (www.ateismo.net/diario)

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publicado às 21:48


2 comentários

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De Sofia Loureiro dos Santos a 30.08.2006 às 18:03

Obrigada pelo comentário, JP.
O problema é que se tenta criar regras que as várias correntes possam aceitar. Com posições deste tipo, de uma intransigência e fanatismo espantosos, parece não valer a pena negociar!
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De jp a 30.08.2006 às 10:23

E não será esse mesmo o papel do Papa Bento XVI no Vaticano, o de apêndice?
De novo um brilhante e esclarecido texto.
keep going....

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