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Cada um cumpre o destino que lhe cumpre. / E deseja o destino que deseja; / Nem cumpre o que deseja, / Nem deseja o que cumpre. [Ricardo Reis]

Nas várias deambulações a pé e de carro dos dias anteriores, passei por diversas vezes pelo Parque do Retiro, enorme jardim/parque, inicialmente desenvolvido para o Palácio del Buen Retiro (séc. XVI e XVII), tendo-se tornado público a partir do século XIX.

Estes jardins formam um conjunto grosseiramente rectangular, que está rodeado por várias portas de entrada e saída e por grandes artérias da cidade.
Passear pelo Retiro é caminhar, respirar, observar árvores, lagos, fontes, monumentos, palácios, cães a puxar os donos, crianças nas cadeirinhas, desportistas a correr, velhinhos e velhinhas a descansar.



Como para mim tudo é labiríntico, entrei pela Calle de Alfonso XII, andei às voltas por cerca de 2 horas e fui ter... à Calle de Alfonso XII. Mas o pior é que queria ir em direcção à Porta de Alcalá, mas fui exactamente no sentido oposto, ou seja, em direcção à estação de Atocha que, por sinal, está em obras.
Escusado será dizer que, cansadíssima, resolvi regressar ao alojamento para recuperar.
Esperava-nos uma noite de flamenco, no Café Ziryab, onde se assiste a um espectáculo com um dançarino e duas dançarinas, um cantor e um guitarrista, durante cerca de uma hora e meia.

Acompanhado de um bom vinho e unas tapitas para picar, foi uma noite muito bem passada e diferente.
Admiro este bailado cantado, que fiquei a apreciar ainda mais quando, no CCB, em 2006, assisti ao Ballet Nacional de España, precisamente com um espectáculo excelente de flamenco. Também Carlos Saura tem um filme que se chama precisamente Flamenco, de 1995, que vale muito a pena ver.
Mais um dia bem passado, junto de quem tanto gosto e que, mais uma vez, foi um anfitrião sem mácula.

Esperança
O que se está a passar nos EUA, em relação à próxima eleição presidencial, é não só espantoso como assustador.
Na realidade, como já vários media fizeram ver, a forma como se avalia as campanhas não é a mesma, nem é justa, nem equilibrada. O que se exige de Kamala Harris e de Tim Walz é completamente diferente do que se exige a Trump e Vance. Na verdade, tudo o que Kamala Harris diz é escrutinado e dissecado, havendo sempre quem diz que não responde, que não tem ideias, etc. Trump pode dizer o que lhe apetece, as coisas mais boçais, sem vergonha e demonstrativas da sua falta de carácter e da sua mente distorcida e ditatorial, ignorante e demente, que ninguém lhe exige respostas.
Uma enorme quantidade de anteriores colaboradores de Trump já vieram dizer que será um perigo para os EUA e, acrescento eu, para a Europa e para o mundo, um novo mandato presidencial de Trump.
Será que ninguém acredita no que dizem? Será que ninguém acredita no que ele próprio diz?
Finalmente, os donos dos jornais proíbem-nos de tomar partido por Kamala Harris. E Trump ainda não ganhou!
Mas que mundo este que estamos a preparar.

(...) É justo dizer que já somos tudo isso, e ainda mais, há muito tempo. Mas, agora, somos também o país onde um deputado da nação eleito pelo Chega diz, na RTP3: “Se disparasse mais a matar, o país estava mais na ordem.” Isto a propósito de Odair Moniz, morador do Bairro do Zambujal que, na sequência de uma perseguição, foi alvejado mortalmente por um agente da PSP — um caso que ainda está sob investigação.
Temos um jovem assessor parlamentar do mesmo partido que escreveu (e apagou) numa rede social: “Menos um criminoso, menos um eleitor do Bloco.” Como se as palavras não fossem sempre mais do que isso. (...)
(...) "Atingiu-se um limite. Nenhum democrata pode deixar de se indignar com estas declarações. A minha consciência obriga-me a tomar uma atitude em relação a quem se aproveita deste clima para fazer apelos ao ódio e a mais violência. Vou subscrever a queixa, que espero que seja subscrita pelo maior numero possível de pessoas" (...)
Pois desta vez decidi ser mais inteligente. Fui de Uber até ao Museo Reina Sofia e, depois da visita, regressaria a pé ao alojamento, passeando prazenteiramente pela cidade.
Gostei imenso do museu. Fui ao edifício Sabatini, um dos que faz parte do grupo museológico. Era um antigo Hospital (Hospital de San Carlos), em actividade até 1965, construído no século XVIII pelo arquitecto Francisco Sabatini. Foi classificado como Monumento Histórico-Artístico em 1977, mas apenas em 1980, convertendo-se no museu actual apenas em 1990.

Visitei a exposição permanente - Territorios de vanguardia: ciudade, arquitectura y revistas - onde se encontram obras predominantemente do século XX. A exposição faz uma passagem pelo último século no que diz respeito às várias correntes artísticas, como cubismo, pós cubismo, surrealismo, realismo, integrando-as na vida, na evolução e nos movimentos sócio-políticos da época.


Guernica ao vivo é uma sensação estranha, pela dimensão e pela angústia e maravilhamento simultâneos. Está lá tudo o que nos oprime e assusta, tudo o que de horrível o Homem faz, tudo o que na arte é intervenção política e social – o grito de povo que sofre irremediavelmente.
Os vários estudos das figuras que aparecem no quadro, a evolução dos esquemas, as cores escolhidas, sendo a vida colorida e a morte branca, preta e cinzenta.

À saída, a loja com diversos objectos que se podem adquirir como recordação, a um tempo simples e bonitos.
Apenas tenho uma crítica – a falta de bancos para descansar.
Para o jantar El Bodegón Argentino, onde comemos una milanesa (bife panado), grande, grande, mas muito boa, acompanhada de um vinho bastante agradável. Um excelente remate do dia.
Ainda não aprendi a dosear o esforço que faço. Não consigo perceber que a idade que sinto não é a mesma que, na realidade, tenho.
Pedir um pequeno-almoço em Espanha não é assim tão fácil. Nunca sei como se pede pão torrado, ou sem ser torrado, mas lá me desenvencilhei, entre palavras tartamudeadas em portunhol e gestos, acabou por vir um croissant folhado, aberto ao meio, torrado, com faca e garfo, manteiga para eu barrar, e um café expresso pouco apetecível. No dia seguinte já consegui pão torrado com manteiga e doce de morango e um capuchino, bastante mais saboroso.
Mas no dia imediatamente após, enganei-me no que vi numa mesa ao lado, e pedi igual, pensando que era o mesmo pão do dia anterior. Mas não, saiu-me pão torrado, sim, mas com tomatada, sal e azeite, acompanhado do mesmo capuchino. Devo dizer que é bastante bom. Já tinha experimentado na Catalunha.
Portanto, para iniciar a minha visita cultural, o primeiro museu a visitar era o Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, ao pé do Museo Nacional del Prado e do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia.
Estava nublado, uma chuva miudinha inconstante, mas nada que me desencorajasse. Depois de delinear o caminho, iniciei a passada, vagarosa como se impõe, em direção ao museu. Fui andando, andando, andando, porta de Alcalá, praça Cibeles, olhando as ruas, as lojas, as pessoas, os carros, as trotinetes, a largueza, o chão mais amigo dos anciãos que a calçada portuguesa, descansando quando podia nos bancos que se vão espalhando e que condicionam suspiros de alívio para quem os usa.


Acabei por andar mais de uma hora. Cheguei feliz e cansada ao museu e decidi ir visitar, com áudio-guia, a coleção permanente, ouvindo a explicação de quadros específicos.
É sempre difícil escolher o que ver num grande museu. Tem obras de grandes pintores, ilustrando as correntes artísticas dos séc, XVIII ao XX. Fui olhando os vários quadros explicados, com muito mais interesse do que se não tivesse o guia.

Os jovens músicos - Antoine Le Nain
É curioso como os artistas se alimentam uns aos outros, partindo de um conjunto muito parecido de permissas e olhando para as texturas, as formas e a sua descontrução de maneiras muito semelhantes. Pablo Picasso e Georges Braque fundaram o movimento artístico a que se chamou Cubismo. Max Weber foi bastante influenciado por eles. Se observarmos estes 3 quadros, percebemo-lo muito bem.

Mujer con mandolina - George Braque

Hombre con clarinete - Pablo Picasso

Estación terminal "Grand Central"- Max Weber
Saí muito cansada, mas satisfeita por ter conseguido chegar a pé, andar tanto tempo e ter visto um dos museus emblemáticos da cidade. Almocei uma ensalada e fruta, caso raro em Espanha (não sei porquê, pois têm boa fruta) e fui para o alojamento, onde descansei ouvindo vários excertos de noticiários americanos sobre as próximas eleições.
À noite, esperava-me a minha querida companhia, e um restaurante peruano - Cevicheria Thani - com ceviche, piqué crioulo e sal lomo. Fantástica maneira de acabar um dia com tantos quilómetros.


Parque do Retiro
Ensaio o passo nas avenidas.
Ensino às articulações
a necessidade do movimento.
Tento o foco no olhar
do que à minha frente se desenha.
Pergunto ao espaço como se equilibra
se os pássaros desapareceram.

El puente
Si me dicen que estás al otro lado
de un puente, por extraño que parezca
que estés al otro lado y que me esperes,
yo cruzaré ese puente.
Dime cuál es el puente que separa
tu vida de la mía,
en qué hora negra, en qué ciudad lluviosa,
en qué mundo sin luz está ese puente,
y yo lo cruzaré.
[Amalia Bautista]
Se me disserem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e que esperes por mim,
eu atravessarei essa ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e eu a atravessarei.
[Tradução minha]
Madrid teve sempre uma sonoridade particular, quase como um slogan publicitário – Madrid me encanta. Grande, espaçosa, próspera, uma cidade de promessas e de esperanças.
Já há muito que tínhamos planeado esta visita, mais que uma viagem, uma visita. Já cá tínhamos estado há uns anos, e recordo as longas avenidas um enorme museu do Prado, um extensíssimo Parque do Retiro, mas pouco mais.
Neste momento, quando a palavra faz ressonância em mim, surge-me de imediato Roto Madrid*, o nome de um livro de Amalia Bautista, de que tanto gosto. Madrid quebrada, Madrid partida.
Aterrei após um voo rapidíssimo, muito mais rápido do que as horas de espera no Aeroporto de Lisboa, numa sala pequena, atulhada de gente e quase sem cadeiras para que as pessoas se sentassem.
Madrid-Barajas é grande. Tentei trazer o mínimo de bagagem e planear o máximo que pude, para que não me perdesse ou não me baralhasse, pois a minha distração e a minha falta de orientação são famosas e bem reais. Mas agora tenho que me bastar a mim própria.
Correu bem. Mal cheguei fui informada pelo meu anfitrião que íamos jantar ao 29 Fanegas (em Português 29 Alqueires). Pousei a bagagem no alojamento encontrado e, com o telemóvel e o google maps que passaram a ser os meus guias permanentes, lá fui aquilo que pensava serem 17 minutos de distância, a pé.
Foram 30 minutos. Vá lá que não estava frio. Comemos muito bem, muito bem mesmo, várias coisitas antes e uma ternera que se desfazia na boca!
Voltámos também a pé, o que faz as delícias da minha PT, sempre pronta a grandes trrrrrrrrrreinos seja onde for! Depois de um grande beijo ao meu querido anfitrião, achei melhor ir dormir. O próximo dia seria mais cansativo.

Isabel constrói a vida
Com os cubos de brincar
Ensaia a voz colorida
Passarito a chilrear
Isabel aprende o dia
Num tapete de voar
Vai espalhando alegria
Com ternura no olhar
Isabel é dançarina
Equilibra-se a cantar
Estica o corpo de menina
Pés em pontas a bailar
Isabel acorda o mundo
Em tempos de madrugar
Puxa-me a alma do fundo
Com mãozitas de sarar
Isabel abre a janela
Do futuro que inventar
Seja barco vento ou vela
No caminho que criar
No cais da vida espero
A barca do meu amor
Abafo o meu desespero
Asfixio a minha dor
Chegará de madrugada
Guiada pelo clarão
De uma lua iluminada
Pelos olhos da paixão
A alma que se quebrou
No dia em que tu partiste
Em asas se transformou
Num voo que não desiste
No cais desta vida aguardo
O momento de embarcar
Que eu meu amor já não tardo
Na ânsia de te abraçar
Depois deste fim do debate entre Vance e Walz, por muito polido e bem falante que tenha sido Vance, nada pode justificar o voto em Trump. A verdade é que Trump não aceitou os resultados eleitorais de 2020 e, se tivesse sido Vance o Vice-Presidente, a democracia não tinha prevalecido.
Nunca entenderei a dúvida entre a escolha da democracia e a escolha da mentira, da vigarice e do crime.
Debate entre Tim Wlaz e JD Vance
2 de outubro 2024
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