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Da renovação dos clássicos

por Sofia Loureiro dos Santos, em 13.12.20

canja.jpg

Eu hoje decidi que a canja de galinha tinha de ser renovada. Tal como me dizem as jovens que trabalham comigo, com muita pena, eu não consigo fazer a mesma coisa sempre da mesma maneira. É mais forte do que eu. Todas as boas resoluções de uniformidades e pré textos são rapidamente ultrapassadas e sublimadas em inúmeras novas versões de manuais e procedimentos.

Por isso hoje chegou a vez da canja. Não sem antes fazer uma pesquisa internáutica sobre a ancestralidade das receitas, para me inspirar. Mas a verdade é que eram todas mais ou menos unânimes não só nos ingredientes como também na forma de os cozinhar.

Aproveitei a ideia da cebola e da cenoura, que nunca tinha utilizado, mas dando-lhe um toque diferente.

Peguei em 2 chalotas médias e cortei-a em rodelinhas fininhas para dentro da panela. Fiz o mesmo a uma cenoura, juntei um molhinho de coentros, 2 folhas de louro, um fiozinho de azeite e a perna completa do frango (o membro inferior), limpa de peles e gorduras. Coloquei ao lume e deixei amolecer os legumes, com tempero de sal grosso e o sumo de metade de 1 limão.

Depois enchi a panela de água e deixei cozer o frango durante cerca de 1 hora, até a carne largar o osso. Desfiei a carne do frango, retirei as folhas de louro, coloquei massa em cotovelo e cozi 2 ovos à parte.

Mal a massa se aprontou, parti os ovos aos bocadinhos e misturei tudo. Rectifiquei o sal e pronto.

Uma delícia.

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publicado às 20:29

Da nossa vergonha

por Sofia Loureiro dos Santos, em 11.12.20

"(....) Mas a triste sorte de Ihor Homeniuk não mereceu até agora nem a indignação geral nem sequer o interesse específico da Provedora de Justiça, que tanto tem denunciado as condições inaceitáveis dos CIT, aos quais chamou "terras de ninguém" e espaços de "não direito". Não mereceu a exigência de que o SEF seja mudado de cima a baixo - ou extinto. Não mereceu praticamente nada a não ser a obsessão de poucos jornalistas, entre os quais me incluo.

E no entanto pouco houve nos últimos anos que merecesse mais o nosso clamor. Porque se é isto uma polícia portuguesa do século XXI, se é assim que tratamos pessoas completamente desprotegidas, que país somos? Se não chega a diretora do SEF assumir que um homem foi torturado sob a sua guarda, a do Estado português - a nossa - para que lhe indemnizem a família, que falta? Que nos falta?"

É uma vergonha colectiva. Com raras excepções, como a de Fernanda Câncio (21/11/2020), calamos um inqualificável e gravíssimo atropelo a tudo o que tem a ver com leis, Direitos Humanos, decência.

Nem Cristina Gatões, nem Eduardo Cabrita, nem António Costa, em Marcelo Rebelo de Sousa, nem nós, cidadãos, que tantas indignações diárias temos por ninharias e tanto nos calamos por aquilo que de facto importa.

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publicado às 21:40

Sobrado

por Sofia Loureiro dos Santos, em 11.12.20

OWL - Simon Hempsell.jpg

Owl

Simon Hempsell

 

Arrumei o meu sapato

Procurei-lhe pelo par

Escondeu-se o ingrato

E eu saio a coxear

 

Tenho uma meia já posta

A outra por descobrir

Bem chamo mas a resposta

É que não se faz ouvir

 

Tivesse a roupa cem dedos

E o caminho cem luas

Inventava mil enredos

Com saias grandes e nuas

 

Tanta palavra que sobra

No sobrado da cabeça

Mesmo com tanta manobra

Não há verso que apeteça

 

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publicado às 14:30

Patria

por Sofia Loureiro dos Santos, em 07.12.20

patria.jpg

O livro de Fernando Aramburu é avassalador. Muitíssimo bem escrito, narra a vida de duas famílias, e com elas a vida dos bascos, durante a luta pela independência. De um lado os defensores da luta armada do outro as vítimas dessa luta.

O terrível rasgar das relações de amizade, de convívio, de respeito, a separação entre os que dão a vida pela causa e os que são assassinados pela utopia, a pobreza, as complicadas relações humanas atravessadas pela pobreza, pelas diferenças de classes que são como um rio lamacento que vai inundando as consciências.

Uma mãe que fala com Santo Inácio de Loyola, uma esposa que fala com a túmulo do marido, tudo de pedra, tudo frio, a fé que se desmonta e soçobra, o medo, a superação, a resistência e a perda de todas as ilusões.

Um livro tão bom como duro, que remexe nas feridas para as curar.

É raro que a adaptação cinematográfica faça justiça à literatura. Não é este o caso. A série da HBO é fiel ao relato de Fernando Aramburu e dá tons à rigidez da realidade, à crueza das feições torturadas, dos sentimentos afundados, das lágrimas bem fechadas.

Não percam nem um nem outro. À sua maneira é uma história de Natal.

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publicado às 09:15

Entre - Lugar

por Sofia Loureiro dos Santos, em 06.12.20

Prenda de Natal: Manuel de Oliveira

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publicado às 23:15

De palavras me alimento

por Sofia Loureiro dos Santos, em 06.12.20

misterious books sculptures.jpg

Scottish book sculptures

 

De palavras me alimento

Secas pobres resignadas

Ato-as nas bordas do vento

Sopro-lhes gumes de espadas

 

Orações de pão e vinho

Solitária companhia

Atapetam-me o caminho

De tristeza e alegria

 

Escolho pedras são sinais

Das esquinas que encontramos

Pelos mundos desiguais

Pelos sonhos que encerramos

 

Com palavras me renovo

Em silêncios incontidos

É no amor que me devolvo

É nos gestos dissolvidos

 

Conto os dias que me faltam

Escrevo versos ressequidos

Que as palavras já não voltam

Aos meus dedos esquecidos

 

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publicado às 22:27

Da irresponsabilidade criminosa

por Sofia Loureiro dos Santos, em 06.12.20

vacinas covid expresso.jpgTítulos do Expresso entre 26 e 27 de Nov/2020, por ordem cronológica

 

Vivemos tempos de perigo e populismo. A pandemia libertou fantasmas e o pior que há em nós.

A incerteza, o medo, o nascimento espontâneo de especialistas em virologia, epidemiologia, imunologia, saúde pública, vacinação e estatística, arrebatados e comandados pela enorme necessidade de ter audiências e pelo desnorte dos responsáveis políticos, leva ao descrédito e à desconfiança de quem tenta perceber o que se passa.

O Expresso deixou há muito de ser um jornal sério e de referência, mas vai-se superando a si próprio. O mais assustador é a falta de calma e ponderação de quem vai atrás dos títulos bombásticos e gera ainda mais pânico. Talvez um dia haja várias teses de doutoramento sobre o comportamento dos media na pandemia (refiro-me a esta - COVID-19).

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publicado às 16:47

Da demolha e cozedura do bacalhau

por Sofia Loureiro dos Santos, em 06.12.20

bacalhau.jpg

Com ou sem pandemia, o calendário aí está e a noite de Natal aproxima-se a largos passos. É tudo muito estranho pois este ano parece que não passou, que ficou suspenso desde Março e que não sabemos quando vai recomeçar.

Mas tudo continua nas profundezas dos movimentos de rotação da Terra e da órbita à vota do Sol. Portanto convém começar a fazer planos para a Consoada que vai ser uma realidade, independentemente do número de pessoas que pudermos e quisermos juntar.

E do bacalhau não nos escapamos. E como, de vez em quando, resolvo regressar à busca do básico mais básico para uma aprendizagem em etapas, nunca chegando às superiores e voltando ciclicamente às dos patamares, resolvi investigar o problema da demolha do bacalhau e do ainda mais importante tema da cozedura do mesmo.

Está tudo na internet. Depois de assistir a vários tutoriais no YouTube e a descrições mais ou menos exaustivas dos processos (até a DECO tem um artigo sobre este magno problema), cheguei à conclusão que nunca, mas mesmo nunca, cozi o bacalhau como devia. O mistério é ele não se ter queixado, nem nenhum dos comensais.

Vamos por partes: a demolha - não é mais que reidratar o bacalhau, ou seja, restituir-lhe a água que perdeu com a salga (para quem gosta de usar o bacalhau seco e salgado, claro, porque já há bacalhau demolhado e congelado à venda). Deve colocar-se sempre a pele para cima, as postas do bacalhau não devem assentar no fundo do alguidar, onde devem ficar a nadar, para que o sal não se deposite na carne do bicho, a água deve estar fria, sendo substituída frequentemente (não há consenso – nuns sítios dizem de 3 em 3 horas, noutros de 8 em 8 horas). Antes do alguidar deve passar-se o bacalhau por baixo da torneira para retirar de imediato o excesso que está à vista. O tempo da demolha é ditado pelo tipo de bacalhau que se tem.

tempo demolha bacalhau.PNG

Durante este processo o bacalhau deve ser mantido no frigorífico, pois à medida que perde o sal e ganha a água aumenta o risco de se deteriorar. Para se ter a certeza de que está bem, tira-se uma lasca de uma posta e prova-se.

A cozedura foi todo um novo abrir de olhos para segredos culinários, pelo menos para mim, que há anos que como bacalhau cozido com todos nas várias épocas do ano. Pois fiquei a saber que o bacalhau não deve ser fervido. Portanto põe-se um tacho cheio de água ao lume, perfumada (adoro estes preciosismos linguísticos) com um pouco de azeite, louro e alho. Quando a água ferver coloca-se o bacalhau no tacho (com a pele para cima), deixa-se levantar de novo fervura, retira-se o tacho do fogão (desliga-se o lume), tapa-se bem tapado e espera-se 15 minutos.

E pronto, aqui está o resumo da matéria estudada. O momento da verdade será o próximo dia 24 à noite. Eu adoro experimentar coisas quando não devo. É mesmo uma estranha atracção pelo abismo.

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publicado às 15:56

Presidenciais

por Sofia Loureiro dos Santos, em 05.12.20

presidenciais 2021.jpg

 

As próximas eleições presidenciais arriscam-se a ser uma desresponsabilização total, por parte da população, de um acto extremamente importante nos sistemas democráticos. Para isso contribuem as diversas crises que nos têm assolado e depauperado, a pandemia e o medrar dos populismos, que a abstenção alimenta.

A cerca de um mês do fim do prazo para a finalização das candidaturas, Marcelo Rebelo de Sousa vai fazendo campanha a coberto do seu cargo, sem ter ainda formalizado a sua recandidatura. Não havia necessidade.

Os restantes candidatos têm a árdua tarefa de mobilizar um eleitorado descrente, desmotivado e alheado, encolhendo os ombros a mais esta eleição, a que não dão qualquer importância.

E no entanto, prevendo as enormes dificuldades económicas e sociais, para não dizer políticas, que se avizinham, a legitimação de um Presidente com uma grande afluência às urnas seria fundamental para que os cidadãos se pudessem rever no seu representante.

A democracia não é um assunto dos políticos. É um assunto de todos. No momento em que deixarmos de acreditar nisso abrimos as portas à instalação de ditaduras e à entrega do poder a gente inqualificável.

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publicado às 15:37

Se o meu amor me deixar

por Sofia Loureiro dos Santos, em 05.12.20

o abraco gustav klimt.jpg

O abraço

Gustav Klimt

 

Se o meu amor me deixar

Perdida na imensidão

Serei mais terra que mar

Fogueira de solidão

 

Se o meu amor regressar

Mãos vazias de ternura

Já não me vai encontrar

Em suave e lenta fervura

 

Se o meu amor viajar

Pelas terras do além

E a um canto semear

Pozinhos de fazer bem

 

Hei-de limpar-lhe de medo

A cama onde se deitar

Faço uma trança em segredo

Dos sonhos que ele guardar

 

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publicado às 14:40

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