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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

A Máfia do Pinhal*

pinhal leiria.jpg

 

Serei eu que tenho o foco desviado mas acho gritante o relativo silêncio à volta da reportagem da TVI sobre a combinação criminosa de fazer arder o pinhal de Leiria, a 15 de Outubro do ano passado. Lembro-me bem do que aconteceu após a reportagem sobre a corrupção nas Raríssimas.

 

Onde estão os títulos diários nos jornais, as reportagens nas televisões, as indignações, comentários e apelos presidenciais? Será que a devastação criminosa do pinhal de Leiria é menos grave que a corrupção nas Raríssimas?

 

No dia 15 de Outubro do ano passado houve 523 ocorrências, morreram 48 pessoas e arderam mais de 50.000 hectares de terreno. Confesso que não entendo as prioridades dos nossos media informativos.

 

*Título da reportagem da TVI

Meu amigo está longe

Amália Rodrigues

 

Gisela João

José Carlos Ary Dos Santos & Alain Oulman

 

 

Nem um poema, nem um verso, nem um canto,

Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto

Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,

Meu amigo está longe

E a distância é tão grande.

 

Nem um som, nem um grito, nem um ai

Tudo calado, todos sem mãe nem pai

Amiga noiva mãe irmã amante,

Meu amigo está longe

E a tristeza é tão grande.

 

Ai esta mágoa, ai este pranto, ai esta dor

Dor do amor sozinho, o amor maior

Amiga noiva mãe irmã amante,

Meu amigo está longe

E a saudade é tão grande.

Da incerteza das certezas

trump putin.png

 

Depois do embuste que levou à guerra no Iraque, de que já aqui falei mais de uma vez, como nos podemos sentir seguros perante a afirmação de Macron sobre as provas do uso de armas químicas pelo regime Sírio?

 

Que elas foram usadas, parece não haver dúvidas. Inaceitável e muito suspeito é o facto da Rússia vetar investigações independentes, patrocinadas pela ONU, impedindo que as decisões sejam totalmente suportadas por provas colhidas por uma Comissão que não esteja manipulada por qualquer das partes.

 

Mas tudo isto me angustia e alarma. A credibilidade dos actores políticos é nenhuma e qualquer passo dado pode desencadear tempestades impossíveis de controlar. Infelizmente, as Nações estão pouco Unidas e a força que têm para se fazerem ouvir é nenhuma.

Domingo chuvoso

pastelinhos de peixe.png

Neste domingo chuvoso, em que as notícias do Brasil, da Alemanha, da Síria, da Catalunha, da nossa própria falta de prioridades e de estratégias para um desenvolvimento económico e social assente no conhecimento, na inovação, nas artes, no património, na natureza, nos deixam tão escuros e frios como o tempo, resolvi dedicar-me à confecção do jantar.

 

Entretida a usar as mãos, a mente fica livre. Aproveito o silêncio e a conversa comigo própria, preparando a semana, lembrando-me do que falta fazer, dos compromissos e das decisões a tomar. O calor do fogão é um excelente contraponto à saraivada que fustiga a janela e os cheiros apaziguam as preocupações e as ansiedades.

 

Inspirando-me numa receita que vi no canal 24-Kitchen, mas com as minhas pequenas alterações, coloquei oito lombinhos de pescada congelada num tacho, sentados numa cama de cebola, alho, pimento vermelho (picados fininhos) e azeite, temperados com sal, pimenta e salsa (também picadinha). Enquanto a pescada guisava, deitei uma mandioca e uma batata doce cortadas aos pedacinhos num tacho com água e sal, para cozerem.

 

Quando estavam bem cozidas, retirei-lhes a água e esmaguei-as com um garfo, misturando bem. Depois desfiz os lombinhos da pescada e juntei, com o molho todo, ao puré de batata doce e mandioca. Mexi muito bem com dois ovos inteiros, para ficar uma papa, rectifiquei os temperos, e moldei uns pastelinhos idênticos aos de bacalhau. Fiz como a minha avó fazia, com duas colheres de sopa. É demorado mas ficam bem. No fim foi só fritar os bolinhos em óleo. Bem sei que se devem evitar os fritos, mas eu não os comia desde o Natal!

 

Acompanhei com salada de várias alfaces, precedidos de uma sopa de couve-flor, abóbora e courgette, temperada com sal, cominhos e salsa. Também com as sopas adoptei um truque que aprendi com o Chefe Avillez: deixar os legumes amolecerem em cebola, alho e um fio de azeite e, só depois, cobrir com água e cozer; a seguir pode-se triturar e rectificar a consistência e os temperos. Ficam bastante saborosas.

 

Convenhamos que foi trabalhoso. Mas cá em casa gostaram. Penso que até respiraram de alívio, pois as minhas incursões culinárias são sempre motivo de grande apreensão familiar...

 

Não percebo muito bem porquê, devo acrescentar.

Apesar de você

 Chico Buarque

 

 

 

Hoje você é quem manda

Falou, tá falado

Não tem discussão, não

A minha gente hoje anda

Falando de lado

E olhando pro chão, viu

 

Você que inventou esse estado

E inventou de inventar

Toda a escuridão

Você que inventou o pecado

Esqueceu-se de inventar

O perdão

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Eu pergunto a você

Onde vai se esconder

Da enorme euforia

Como vai proibir

Quando o galo insistir

Em cantar

Água nova brotando

E a gente se amando

Sem parar

 

Quando chegar o momento

Esse meu sofrimento

Vou cobrar com juros, juro

Todo esse amor reprimido

Esse grito contido

Este samba no escuro

 

Você que inventou a tristeza

Ora, tenha a fineza

De desinventar

Você vai pagar e é dobrado

Cada lágrima rolada

Nesse meu penar

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Inda pago pra ver

O jardim florescer

Qual você não queria

Você vai se amargar

Vendo o dia raiar

Sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir

Que esse dia há de vir

Antes do que você pensa

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Você vai ter que ver

A manhã renascer

E esbanjar poesia

Como vai se explicar

Vendo o céu clarear

De repente, impunemente

Como vai abafar

Nosso coro a cantar

Na sua frente

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Você vai se dar mal

Etc. e tal

Lá lá lá lá laiá

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