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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Dona Rosinha a Solteira ou a linguagem das Flores

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Ontem fui ao Teatro Meridional ver esta peça de Federico García Lorca.

 

Mas entrar na melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo é sempre uma experiência única, em que tudo se transforma para acolher os espectadores como se fossem velhos amigos. O café e o chá à nossa espera com uma fatia de bolo, cadeiras, mesas e luzes que convidam a uma intimidade simpática e não intrusiva, peças de mobília que nos colocam dentro de um cenário, fazendo dos presentes actores.

 

Por vezes acontecem revezes e inesperados contratempos, como foi o caso de ontem. Um problema na electricidade, devidamente explicado por Miguel Seabra, atrasou o início da representação, para quem não se importou de esperar, que foi a quase totalidade dos presentes. Entretanto, Natália Luíza distribuiu folhas com poemas de Federico García Lorca, no original e traduzidos por Ruy Belo e Eugénio de Andrade. A pouco e pouco, seguindo-se a ela, várias pessoas declamaram os poemas, criando um ambiente de partilha das palavras e da sua melodia, ecoando por dentro de nós a ressonância de sentimentos, que fizeram do tempo de espera um novo espectáculo.

 

A peça fala da espera, da esperança e do desespero, da resiliência e da fuga à realidade, de mulheres e dos homens que as cercam e enganam, das decisões e dos confinamentos a que nos condenamos, do arrastar da memória e do despojamento final. Fios que se esticam e partem, bordados que se desfiam e morrem, numa linguagem de flores.

 

Três mulheres, três épocas. As luzes, os movimentos, a música, o alternar da leveza e da crua realidade, Dona Rosinha a Solteira, ou a linguagem das flores, é uma peça do início do século XX que continua a ser actual.

 

Nunca é demais ir ao Meridional. Preparem-se já para a próxima, que estreia a 9 de Maio.

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A Morte de Estaline

 

 

O mais impressionante, neste filme, é que é quase hiper realista. Muitos dos episódios, se não todos, mesmo que compactados e em épocas distintas, são verdadeiros. É uma comédia negra que, a partir de situações cruéis, vividas por seres humanos capazes de todos os horrores e sujeitos a tudo o que de grotesco acontece a todos, as mostra nas suas facetas ridículas e absurdas.

 

A maldade, a perfídia, a estupidez, a ambição, o medo, a cobardia, tudo está lá, enrolado numa comédia negra e aterradora. Excelente e muito didáctico, sobre Estaline e sobre a condição humana.

Das crendices travestidas de ciência

 

Para a mentira ser segura

e trazer profundidade

tem de trazer à mistura

qualquer coisa de verdade.

António Aleixo

 

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Prova Oral

 

 

O mais triste é que este tipo de pessoas, que usam muito bem as palavras e se socorrem da ciência, quando lhes interessa, para a acusarem de estar refém das indústrias e dos interesses económicos, mascarando os seus próprios interesses ou as suas crenças (gosto particularmente da Desintoxicação Plantar Electrolítica e da Hidrocolonoterapia - uma forma elegante e pseudocientífico de dizer clisteres, muito em voga no tempo de Molière) - não opiniões baseadas em estudos e factos - são capazes de arrebanhar seguidores. E são perigosíssimos, como podemos ver pelo exemplo da recusa da vacinação e pela adopção de padrões de consumo que não têm qualquer base para se afirmarem melhores que outros.

 

As tais confrarias e embustes da malévola indústria, a que os médicos, triste gente influenciável e pouco inteligente, que não vê a luz do colesterol nem a alcalinização do corpo, foram aquelas que, em menos de um século, permitiram um aumento da esperança e da qualidade de vida inigualáveis nos séculos anteriores, em que a leitura das entranhas do animais e dos desenhos das nuvens ditavam a medicina.

 

Em medicina, como noutras ciências, há muita coisa que já foi aceite como verdade e que agora não o é, porque a própria investigação científica assim o demonstrou, não porque os ventos do norte ou do sul tenham trazido a água do mar para nos hidratar de conhecimento. Confundir a abordagem completa dos doentes com mambojambo é má fé ou loucura.

 

Informemo-nos, estudemos e saibamos pensar e criticar. O conhecimento é o inimigo de todas as fraudes.

 

PS - Um dia, alguém que muito me ensinou na minha especialidade, a propósito da discussão do diagnóstico de um caso, em que havia várias pessoas que votavam num - o errado - e uma que votava noutro - o certo - disse que a medicina, e a ciência em geral, não era uma democracia. Ou seja, não há debates nem opiniões, há evidências e demonstrações.

De Abril

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25 Abril de 1974 - Largo do Carmo

Eduardo Gageiro

 

 

De Abril o brilho dos olhos nos cravos

armas flores e meninos espantados

liberdade perfumada para escravos

despertados pelos sonhos renovados.

 

Tantos anos que passaram num só dia

tanto tempo concentrado de ternura

desde sempre com a voz da poesia

para sempre com um cravo à cintura.

 

De Abril sinto o sal da alegria

um instante de contínuas ilusões

num País que do mundo sobraria

com a alma inundada de canções.

 

É de Abril a cor da mão que te ofereço

o carinho com que planto tanta espada

ao País que tanto sofro e desmereço

na certeza da perpétua madrugada.

Um dia como os outros (181)

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 João Miguel Tavares escreveu ontem mais uma crónica sobre mim, no Público. Ao seu estilo, não escreveu sobre mim, tentou fazer de mim um degrau. Não me queixo, sou maior. Se ele me quiser levar com ele, para umas migalhas de fama sua, a um gabinete de primeiro-ministro, não deixo. Felizmente, posso, sou maior. E é prudente sê-lo quando se convive com JMT, que tenta fazer dos outros, quem quer que seja, um degrau.

JMT tem um fundo de comércio, José Sócrates, e explora-o até ao tutano. Ontem, fez-me dano colateral. Em escutas feitas a Sócrates, em 2014, em conversa onde não estou, nem falo, nem ouço, e que não soube ter acontecido senão dois anos depois, o ex-primeiro-ministro fala de mim para diretor do DN. Em 2016, alguém publicou essas escutas, deixando pairar a ideia de que eu combinei um cargo com um político. Escrevi, então: "Se calhar são costume essas combinações (com político, com irmão maçon, com correligionário), não sei... Mas não para mim. Nunca quis na minha carreira profissional esta dúvida: sou o que sou graças a mim ou não?" (DN, 22-02-2016).

Nesse texto, eu escrevi também que não queria, nem sabia ser diretor do DN. Assim era em 2014 e 2016, quando ninguém me pôs a questão. Ontem, JMT lembrou o que então escrevi e perguntou: "Há pouco mais de dois anos, Ferreira Fernandes não sabia, nem queria, ser diretor do DN. O que mudou, entretanto, para passar a saber e a querer?" Respondo: "Porque agora os donos do DN me convidaram e porque agora quero." Quanto a saber ser diretor do DN, continuo sem saber se sei.

Contradições e mudanças de vontade, JMT não as entende porque o seu fundo de comércio é uma certezinha que lhe basta e o sustenta. Então, se hoje sou diretor do DN, isso só pode estar relacionado com a sugestão de Sócrates de há quatro anos. E essa certeza é alimentada pela análise que ele faz da minha atuação nos 15 dias e picos desde que sou diretor do DN: sobre o assunto, nada, nem um editorial. Não escrevi sobre Sócrates! Estranho... Aliás, um suspeito comportamento que eu já há muito evidenciava: "Ferreira Fernandes continuou a defender Sócrates já depois da prisão - até que um certo dia se calou, e não mais se lhe ouviu um pio sobre o tema", escreveu ontem JMT, deste pau-mandado que sou.

Sócrates foi preso em 22 de novembro de 2014. Dois dias depois, escrevi: "É a data em que um ex-primeiro-ministro foi detido, suspeito de não ter sido honesto com os bens que os portugueses lhe confiaram. Desta vez, a suspeita não foi destilada só em manchetes de pombos-correio, não. Daí a data ser fundamental: tem a marca da Justiça. Se a Justiça o prova, maldito seja o líder que abusou o seu país, os compatriotas e os seus correligionários. Se a Justiça foi irresponsável, pobre diaba que tem de ser refeita de cima a baixo" (DN, 24-11-14).

Três dias depois, escrevi: "[Até à prisão] Calúnias e não processos - contra Sócrates foi o que houve, e só. Agora, temos uma situação nova. Magistrados acusaram e um juiz considerou haver indícios para prosseguir um processo contra Sócrates. A situação nova espevitou a canalhada, por um lado, e, por outro, os cidadãos pró e os cidadãos contra Sócrates. Para com os primeiros, repito o meu desprezo. Dos segundos, pró ou contra, espero o reconhecimento trivialmente democrático: cabe aos juízes julgar" (DN, 27-11-14).

Seis meses passados, escrevi: "De novo, sabemos porque o próprio Sócrates o disse, ele pediu dinheiro a um amigo. Muito dinheiro. Como esse amigo teve vários negócios com o Estado quando Sócrates era governante, é legítimo que a Justiça investigue. (...) Com este caso Sócrates, temos até agora, patenteadas, duas situações graves: a lentidão da Justiça e Sócrates ter mentido. Nada de novo, já conhecemos o mesmo noutras circunstâncias e com outros protagonistas. Mas pode vir a acontecer uma de duas situações bem mais graves: ou a Justiça não conseguir produzir prova, depois do estardalhaço que fez com a detenção, ou um ex-primeiro-ministro ser condenado por corrupção. E, sobretudo, acontece já uma situação iníqua: a Justiça fornece informações inquinadas aos jornais. Também não é novo" (DN, 17-06-15).

No fim do primeiro ano de prisão, escrevi: "Dizia-se que este era o ano em que ou se provava alguma coisa contra o ex-primeiro-ministro ou se provava que certos magistrados foram irresponsáveis. Errado. Essa alternativa, "ou, ou", foi derrotada. Nesta matéria, 2015 não foi adversativo, foi o ano da copulativa "e"! Sócrates suicidou-se como político "e" magistrados desonraram-se como defensores da lei. Cada entrevista de José Sócrates desautorizou-o como político, por causa do tipo de relação, revelado pelas suas próprias palavras, que ele tinha com o dinheiro de um amigo com negócios com o Estado; "e" cada capa dos jornais com fugas de informação desautorizou a investigação. Essa copulativa que os acasalou, Justiça/Sócrates, pariu um manto turvo sobre a sociedade. Note-se, ainda, que não se fala aqui do processo, porque desconhecemos, todos, tudo. Falo das palavras públicas de Sócrates e dos métodos manhosos da investigação. Ambos exemplificando factos lamentáveis, qualquer que seja o desfecho judicial" (DN, 19-12-2015).

E todos os demais textos meus - ao contrário do "calou-se, e não mais se lhe ouviu um pio sobre o tema", ontem garantido por JMT - foram pautados pelo mesmo respeito pelos homens e pela justiça. E para mudar de homem (JMT chama-lhe "tema"), cito outro texto meu sobre a indecência de se passar nas tevês, os gestos, a voz e os olhares de um homem a ser filmado nos interrogatórios: "Custo da badalhoquice: uma multa. O que não vale nada para os ladrões de alma", escrevi. E não era sobre a indecência da SIC, esta semana, nem era sobre a Operação Marquês. Era sobre Miguel Macedo, ministro do PSD e vítima do abuso, a quem pedi "desculpa pela parte que me cabe por ser português." Já tremo por JMT desencantar, um dia destes, uma escuta de Miguel Macedo a arranjar-me emprego.

 

Ferreira Fernandes

 

Nota: a crónica de João Miguel Tavares

Já ninguém se indigna

Passou a ser normal assistir à despudorada exibição da humilhação pública dos cidadãos. Nada nos espanta nem indigna, mesmo o exercício de uma Justiça que se compraz com o poder. Ninguém se indigna com a promiscuidade absoluta entre os jornais e o arrasar dos direitos mais elementares.

 

Até ao dia em que for um de nós.

Recantiga

Miguel Araújo 

 

E era as folhas espalhadas, muito recalcadas do correr
Do ano
A recolherem uma a uma por entre a caruma de volta
Ao ramo

E era à noite a trovoada que encheu na enxurrada aquela
Poça morta
De repente, em ricochete, a refazer-se em sete nuvens
Gota a gota

Era de repente o rio, num só rodopio a subir o monte
A correr contra a corrente assim de trás para a frente
A voltar à fonte

Um monte de cartas espalhadas des-desmoronando-se
Todo em castelo
E era linha duma vida sendo recolhida de volta ao novelo

Era aquelas coisas tontas, as afrontas que eu digo e que
Me arrependo
A voltarem para mim como se assim tivessem remendo

E era eu, um passarinho caído no ninho à espera do fim
E eras tu, até que enfim, a voltar para mim

Revoluções

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Estamos perto de comemorar o 44º aniversário da revolução do 25 de Abril. Para além dos discursos oficiais, da repetição das imagens e dos sons emocionantes daquela madrugada e daquele dia, era muito importante que quiséssemos e soubéssemos fazer novas revoluções.

 

Uma revolução nas leis laborais, de forma a reduzir a idade da reforma, os horários de trabalho, a torná-los flexíveis e adaptáveis às funções e aos objectivos, incentivando o teletrabalho sempre que fosse possível. De uma assentada, reduzíamaos o desemprego e renovávamos os envelhecidos quadros, dando possibilidade aos jovens de ter uma vida própria e digna, capacitando os mais velhos para outra fase mais livre e descansada.

 

Uma revolução social, capacitando as comunidades de transportes locais, que pudessem recolher e conduzir os seus habitantes entre os supermercados, os jardins, os centros de saúde, etc., formando um grupo de apoio domiciliário para pequenas obras nas casas, para entrega de compras, para ajuda nas tarefas domésticas ou outras de que a população mais idosa cada vez precisa mais.

 

Uma revolução na saúde, deslocando a entrada no sistema para os centros de saúde e para o atendimento ao domicílio, fornecendo os centros de saúde de várias especialidades e vários especialistas, de médicos, técnicos, enfermeiros, assistentes administrativos e operacionais, retirando a pressão dos hospitais que deveriam ser apenas para os casos agudos e de curta duração.

 

Uma revolução na habitação, incentivando a recuperação das casas e proporcionando rendas acessíveis para todos, nomeadamente para quem quer iniciar a sua vida.

 

As pessoas precisam de tempo para praticarem exercício, para prepararem refeições, para acompanharem os filhos e os pais. As pessoas precisam de espaço próprio para construirem famílias, para serem autónomas, para se realizarem como cidadãos. As pessoas precisam de emprego minimamente estável para produzirem, para evoluírem, para poderem aspirar a uma vida condigna, terem filhos, viajarem, usufruirem, consumirem.

 

No próximo 25 de Abril, que tal vir a Geringonça (ou outras engenhocas) com estas ideias ou outras que inovem, que sejam realistas e que nos despertem para a esperança e para a felicidade?

Da ala pediátrica (Hospital de São João)

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Afinal parece que as condições indignas em que são atendidas e tratadas as crianças no Hospital de São João, a ser verdade o que diz o Observador, não têm nada a ver com as cativações de Centeno. Afinal parece que a responsabilidade do assunto será da Associação O Joãozinho, cujo Presidente é o economista Pedro Arroja.

 

No meio estão promessas de construção de um supermercado à SONAE e a não aceitação da administração da obra pelo Ministério da Saúde. É uma situação que se arrasta desde 2011 e que este governo está a tentar resolver desde 2016. Mais uma vez a informação vai caindo a conta-gotas, dando espaço a que profiram afirmações que, se calhar, não têm fundamento.

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