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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Prosas Bíblicas - Livro 3

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(…) mas o que daqui ressalta é, acima de tudo, a consciência muito clara de que, por mais belas que sejam tais palavras, por mais harmoniosa que seja a sua música, por mais que o “todo” seja “eloquente”, há sempre uma dimensão que elas não atingem. Como se diz no último poema: “Que o amor não se ouve nem se canta / Apenas se sente”. (…)

O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas

 

20.

A todos os que me querem e me ouvem

Assim farás de ovo e serpente

Que o amor não se ouve nem se canta

Apenas se sente

 

A todos os que serão sem que o sejam

À espera da luz que não se acende

Assim abrirás o manto da vida

Para todo o sempre

 

Livro 3 (pág. 82)

Prosas Bíblicas - Livro 3

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(…) A matéria-prima desse infinito labor continuam a ser as palavras – “Com palavras amareis um pouco ou totalmente / Pelas palavras o nada será o todo eloquente” – , (…)

O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas

 

9.

Escavareis a terra com as mãos da solidão

Cantareis a alma com a voz da paixão

Usareis o alento do corpo sem salvação

Expiareis com a vida o peso da ambição

 

Pelas palavras semeareis o fruto e a semente

Nas palavras sofrereis a pomba ou a serpente

Com palavras amareis um pouco ou totalmente

Pelas palavras o nada será o todo eloquente

 

Livro 3 (pág. 71)

Prosas Bíblicas - Livro 2

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(…) Digamos que na segunda parte ecoa uma atitude mais pessoal, talvez mais próxima dos pequenos dramas de cada um de nós, mais interrogativa perante as escolhas a que, melhor ou pior, a vida sempre nos obriga: “E agora que faço comigo matéria informe que se criou / e por céus e terras em paixões secretas alastrou / de ti desabrigada por ti desmanchada em ti / teimosamente escondida?” (…)

O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas

 

8.

Nasceram-me braços e pernas cresceram-me bocas e línguas

fundiram-se sangue e saliva cozeram-se peles e dias.

E agora que faço comigo matéria informe que se criou

e por céus e terras em paixões secretas alastrou

de ti desabrigada por ti desmanchada em ti

teimosamente escondida?

 

Livro 2 (pág. 56)

Prosas Bíblicas - Livro 1

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(…) Aqui, os sentimentos são também razões e vice-versa, numa fusão mediante a qual todas as fronteiras conceptuais parecem esbater-se, num mecanismo cujo efeito pode ser, de certo modo, libertador, mas permanece ciente da humildade humana perante uma outra dimensão (chamemos-lhe divina) que radica no humano mas se situa infinitamente para lá do humano: “Ao longe está a candeia / As flores que sempre sonhei / Desejo que me incendeia / Palavras que eu criei // As grades estão quebradas / O dia escureceu / Tenho mil e uma estradas / Nenhuma que chegue ao céu”. (…)

O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas

 

12.

Sequei a água do mar

Abri as portas que encerra

O mundo a transbordar

Das incertezas da terra

 

Ao longe está a candeia

As flores que sempre sonhei

Desejo que me incendeia

Palavras que eu criei

 

As grades estão quebradas

O dia escureceu

Tenho mil e uma estradas

Nenhuma que chegue ao céu

 

Livro 1 (pág. 26)

Prosas Bíblicas - Livro 1

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(…) Não vale a pena, portanto, conceber categorias rígidas ou sistemáticas para um conhecimento cuja amplitude é essencialmente holística e só pode funcionar como um todo, no qual não conseguimos separar a razão e o coração: “Senhor Deus falta-me o ar / Nesta Babel de emoções / Sem conseguir separar / Sentimentos de razões”. (…)

O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas

 

20.

Senhor Deus falta-me o ar

Nesta Babel de emoções

Sem conseguir separar

Sentimentos de razões

 

Os dardos que te roubei

São ramos envenenados

Palavras com que matei

Cordeiros sacrificados

 

As portas estão fechadas

Os lacraus fazem a guarda

Milhões de línguas caladas

Descanso que ainda tarda

 

Fujo de ti meu Senhor

Sem sequer olhar em frente

Nos braços do teu andor

Passeia o medo da gente

 

Livro 1 (pág. 34)

Prosas Bíblicas - Livro 1

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(…) É dessa matéria terrestre, corporal, palpável, que temos sempre de partir para encetar outros voos, o que implica que, tal como na Bíblia, a linguagem aqui veiculada é eminentemente simbólica, fazendo apelo a uma dimensão metafórica latente em todas as palavras que proferimos, cujo alcance acaba por ser bem mais amplo do que seria o seu significado literal: “Suspendo a luz que semeia / A ânsia do teu perfume / Palavra que incendeia / O feno do meu ciúme // Recebe-me em fogo lento / Os beijos que te confortam / Desfaz-te do desalento / Das cordas que te sufocam”. (…)

O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas

 

4.

Suspendo a luz que semeia

A ânsia do teu perfume

Palavra que incendeia

O feno do meu ciúme

 

Recebe-me em fogo lento

Os beijos que te confortam

Desfaz-te do desalento

Das cordas que te sufocam

 

Se ainda sentes na sombra

O manto da descoberta

Esquece o medo que assombra

O sonho que te liberta

 

Livro 1 (pág. 18)

Voar

 Xutos e Pontapés

 

Eu queria ser astronauta

o meu país não deixou

Depois quis ir jogar á bola

a minha mãe não deixou

Tive vontade de voltar a escola

mas o doutor não deixou

Fechei os olhos e tentei dormir

aquela dor não deixou.

 

Ó meu anjo da guarda

faz-me voltar a sonhar

faz-me ser astronauta ...e voar

 

O meu quarto é o meu mundo

o ecrã é a janela

Não choro em frente á minha mãe

eu que gosto tanto dela

Mas esta dor não quer desaparecer

vai-me levar com ela

 

Ó meu anjo da guarda

faz-me voltar a sonhar

faz-me ser astronauta....e voar

 

Acordar meter os pés no chão

Levantar e dar o que tens para dar

Voltar a rir, voltar a andar

Voltar Voltar

Voltarei

Voltarei

Voltarei

Voltarei

Prosas Bíblicas - Livro 1

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(…) Leiamos, então, as Prosas Bíblicas de Maria Sofia Magalhães, organizadas em três “livros”, dos quais o primeiro ocupa cerca de metade do conjunto e avulta como aquele em que sentimos mais intensamente a carga misteriosa que o ilumina. Quando digo “carga misteriosa”, uso o adjectivo sem uma conotação demasiado espiritual, já que, embora estes poemas mostrem um inegável pendor místico desde a abertura – “Senhor Deus a fome é tua / Que alimento sem querer / Raiva fria alma crua / Corpo em vida a perecer” –, as imagens que neles encontramos descem muitas vezes à nossa natureza de seres humanos, i.e., seres terrestres na sua materialidade. (…) 

O HUMANO E O DIVINO - Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas

 

1.

Senhor Deus a fome é tua

Que alimento sem querer

Raiva fria alma crua

Corpo em vida a perecer

 

Senhor Deus a tua sede

Banha ombros a quem sente

Penitência de quem pede

Incerteza de quem mente

 

Senhor Deus não tenho rumo

Com a tua direção

Numa prece te consumo

Sem te dar o meu perdão

 

Livro 1 (pág. 15)

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