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Cada um cumpre o destino que lhe cumpre. / E deseja o destino que deseja; / Nem cumpre o que deseja, / Nem deseja o que cumpre. [Ricardo Reis]

(…) mas o que daqui ressalta é, acima de tudo, a consciência muito clara de que, por mais belas que sejam tais palavras, por mais harmoniosa que seja a sua música, por mais que o “todo” seja “eloquente”, há sempre uma dimensão que elas não atingem. Como se diz no último poema: “Que o amor não se ouve nem se canta / Apenas se sente”. (…)
O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas
20.
A todos os que me querem e me ouvem
Assim farás de ovo e serpente
Que o amor não se ouve nem se canta
Apenas se sente
A todos os que serão sem que o sejam
À espera da luz que não se acende
Assim abrirás o manto da vida
Para todo o sempre
Livro 3 (pág. 82)

(…) A matéria-prima desse infinito labor continuam a ser as palavras – “Com palavras amareis um pouco ou totalmente / Pelas palavras o nada será o todo eloquente” – , (…)
O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas
9.
Escavareis a terra com as mãos da solidão
Cantareis a alma com a voz da paixão
Usareis o alento do corpo sem salvação
Expiareis com a vida o peso da ambição
Pelas palavras semeareis o fruto e a semente
Nas palavras sofrereis a pomba ou a serpente
Com palavras amareis um pouco ou totalmente
Pelas palavras o nada será o todo eloquente
Livro 3 (pág. 71)

(…) Digamos que na segunda parte ecoa uma atitude mais pessoal, talvez mais próxima dos pequenos dramas de cada um de nós, mais interrogativa perante as escolhas a que, melhor ou pior, a vida sempre nos obriga: “E agora que faço comigo matéria informe que se criou / e por céus e terras em paixões secretas alastrou / de ti desabrigada por ti desmanchada em ti / teimosamente escondida?” (…)
O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas
8.
Nasceram-me braços e pernas cresceram-me bocas e línguas
fundiram-se sangue e saliva cozeram-se peles e dias.
E agora que faço comigo matéria informe que se criou
e por céus e terras em paixões secretas alastrou
de ti desabrigada por ti desmanchada em ti
teimosamente escondida?
Livro 2 (pág. 56)

(…) Aqui, os sentimentos são também razões e vice-versa, numa fusão mediante a qual todas as fronteiras conceptuais parecem esbater-se, num mecanismo cujo efeito pode ser, de certo modo, libertador, mas permanece ciente da humildade humana perante uma outra dimensão (chamemos-lhe divina) que radica no humano mas se situa infinitamente para lá do humano: “Ao longe está a candeia / As flores que sempre sonhei / Desejo que me incendeia / Palavras que eu criei // As grades estão quebradas / O dia escureceu / Tenho mil e uma estradas / Nenhuma que chegue ao céu”. (…)
O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas
12.
Sequei a água do mar
Abri as portas que encerra
O mundo a transbordar
Das incertezas da terra
Ao longe está a candeia
As flores que sempre sonhei
Desejo que me incendeia
Palavras que eu criei
As grades estão quebradas
O dia escureceu
Tenho mil e uma estradas
Nenhuma que chegue ao céu
Livro 1 (pág. 26)

(…) Não vale a pena, portanto, conceber categorias rígidas ou sistemáticas para um conhecimento cuja amplitude é essencialmente holística e só pode funcionar como um todo, no qual não conseguimos separar a razão e o coração: “Senhor Deus falta-me o ar / Nesta Babel de emoções / Sem conseguir separar / Sentimentos de razões”. (…)
O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas
20.
Senhor Deus falta-me o ar
Nesta Babel de emoções
Sem conseguir separar
Sentimentos de razões
Os dardos que te roubei
São ramos envenenados
Palavras com que matei
Cordeiros sacrificados
As portas estão fechadas
Os lacraus fazem a guarda
Milhões de línguas caladas
Descanso que ainda tarda
Fujo de ti meu Senhor
Sem sequer olhar em frente
Nos braços do teu andor
Passeia o medo da gente
Livro 1 (pág. 34)

(…) É dessa matéria terrestre, corporal, palpável, que temos sempre de partir para encetar outros voos, o que implica que, tal como na Bíblia, a linguagem aqui veiculada é eminentemente simbólica, fazendo apelo a uma dimensão metafórica latente em todas as palavras que proferimos, cujo alcance acaba por ser bem mais amplo do que seria o seu significado literal: “Suspendo a luz que semeia / A ânsia do teu perfume / Palavra que incendeia / O feno do meu ciúme // Recebe-me em fogo lento / Os beijos que te confortam / Desfaz-te do desalento / Das cordas que te sufocam”. (…)
O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas
4.
Suspendo a luz que semeia
A ânsia do teu perfume
Palavra que incendeia
O feno do meu ciúme
Recebe-me em fogo lento
Os beijos que te confortam
Desfaz-te do desalento
Das cordas que te sufocam
Se ainda sentes na sombra
O manto da descoberta
Esquece o medo que assombra
O sonho que te liberta
Livro 1 (pág. 18)
Eu queria ser astronauta
o meu país não deixou
Depois quis ir jogar á bola
a minha mãe não deixou
Tive vontade de voltar a escola
mas o doutor não deixou
Fechei os olhos e tentei dormir
aquela dor não deixou.
Ó meu anjo da guarda
faz-me voltar a sonhar
faz-me ser astronauta ...e voar
O meu quarto é o meu mundo
o ecrã é a janela
Não choro em frente á minha mãe
eu que gosto tanto dela
Mas esta dor não quer desaparecer
vai-me levar com ela
Ó meu anjo da guarda
faz-me voltar a sonhar
faz-me ser astronauta....e voar
Acordar meter os pés no chão
Levantar e dar o que tens para dar
Voltar a rir, voltar a andar
Voltar Voltar
Voltarei
Voltarei
Voltarei
Voltarei

(…) Leiamos, então, as Prosas Bíblicas de Maria Sofia Magalhães, organizadas em três “livros”, dos quais o primeiro ocupa cerca de metade do conjunto e avulta como aquele em que sentimos mais intensamente a carga misteriosa que o ilumina. Quando digo “carga misteriosa”, uso o adjectivo sem uma conotação demasiado espiritual, já que, embora estes poemas mostrem um inegável pendor místico desde a abertura – “Senhor Deus a fome é tua / Que alimento sem querer / Raiva fria alma crua / Corpo em vida a perecer” –, as imagens que neles encontramos descem muitas vezes à nossa natureza de seres humanos, i.e., seres terrestres na sua materialidade. (…)
O HUMANO E O DIVINO - Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas
1.
Senhor Deus a fome é tua
Que alimento sem querer
Raiva fria alma crua
Corpo em vida a perecer
Senhor Deus a tua sede
Banha ombros a quem sente
Penitência de quem pede
Incerteza de quem mente
Senhor Deus não tenho rumo
Com a tua direção
Numa prece te consumo
Sem te dar o meu perdão
Livro 1 (pág. 15)
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