Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam
É divertido o afadigar com que tantos se apressam a vaticinar a instabilidade social e o tremer da Geringonça, após o fraco resultado do PCP, nas últimas eleições autárquicas.
Este continuará a perder votos à medida que o tempo passa, pela própria natureza do PCP, que mantém uma matriz autoritária e totalitária, enquistado e anquilosado, por muito que reconheça que Jerónimo de Sousa foi o primeiro suporte desta solução governativa.
Quanto a mim (que raramente acerto, diga-se em abono da verdade) este resultado só reforçou o governo. Nem o PCP nem o BE tiveram resultados que lhes permitam forçar uma outra alternativa. Se precipitarem eleições serão ainda mais penalizados.
A direita teve uma derrota bastante pesada, tanto o PSD como o CDS - a vitória de Assunção Cristas ofuscou a mediocridade dos resultados no resto do País. Passos Coelho sai de cena, finalmente, mas parece que ninguém quer, verdadeiramente, disputar-lhe o lugar.
Mais uma vez reafirmo que não tenho opinião em relação às pretensões separatistas da Catalunha. Penso que têm todo o direito de querer e tentar a independência, no respeito pelos princípios democráticos e de liberdade de expressão de pensamento de todos os catalães.
Não me parece que o apoio ou a falta dele da União Europeia faça qualquer diferença. Na verdade a opinião das Instituições europeias não são confiáveis e variam conforme as conveniências da própria Europa. Todos nos lembramos das ameaças da União Europeia caso a Escócia escolhesse a independência, e do namoro explícito aquando do referendo do Brexit.
Aquilo a que assistimos no domingo, com as cargas policiais e a brutalidade da Guardia Civil sobre os catalães não tem desculpa, justificação ou perdão. E foi essa referência, esse reconhecimento e essa palavra de repúdio que faltou no discurso do Rei. Não esperava que deixasse de defender a unidade do Estado, a Constituição e a legalidade, acusando os separatistas de aventureiros perigosos e em rotura com a democracia e o Estado de Direito, mas o apagamento da repressão gratuita na Catalunha remeteu-o para um apoiante incondicional da facção centralista, protagonizada por Rajoy.
Na realidade todo este problema está inquinado pelos extremismos, o populismo e a fuga em frente. A verdade é que não sei quantos são os catalães que querem a independência. Não me parece ter havido igualdade de circunstância ou oportunidades para as divulgações e propagandas de ambas as partes, a consulta referendária foi um simulacro (participação de 43,03%) sem qualquer garantia de cumprimento das mais elementares regras democráticas.
Enquanto não houver serenidade e reconhecimento do poder central da necessidade de auscultar a opinião dos catalães, dando-lhes a possibilidade de referendar a independência a sério, tal como o reconhecimento das autoridades catalãs em querer saber verdadeiramente a opinião do seu povo, enquanto não houver compromissos de parte a parte, nada se resolverá.
Infelizmente o discurso do rei foi uma oportunidade perdida. Radicalizou os catalães já radicalizados e não condenou nem se afastou das soluções totalitárias e violentas de Rajoy. Penso que o Rei acabou por cavar mais fundo a sepultura da monarquia espanhola.
O discurso de Rui Moreira fez-me lembrar o de Cavaco Silva, aquando da vitória no segundo mandato das presidenciais: rancoroso, pequenino, rançoso e mesquinho.
Pode ter ganho a maioria absoluta, mas perdeu em tudo o resto. Não lhe deve importar.
Não é só a Rajoy que se devem assacar as responsabilidades do desastroso processo a desentolar-se à volta do referendo catalão. É também a todos os que, numa fuga para a frente, tentam empurrar o processo para um beco sem saída. Vale a pena ler a análise de José Almeida Fernandes.
Votar é a maior e melhor manifestação da democracia, uma espéce de sacramento, um dever ciclicamente renovado, uma prática de cidadania, um direito e uma responsabilidade individual.
Serve esta laudatória introdução para lembrar que as urnas estão abertas até às 19:00h.
Vá a correr comprar as cervejolas, as bifanas e faça uma mousse de chocolate, para poder assistir, na primeira fila, ao espectáculo da liberdade e da democracia, do qual somos todos figuras de cartaz. E se ainda não votou, não perca essa experiência que é sempre nova, em todas as catedrais do poder soberano do povo.
Não tenho opinião sobre a independência da Catalunha. Mas tenho opinião sobre o extremar de posições, nomeadamente a do governo central de Madrid, que está a tentar resolver um problema muito sério e complicado com a força bruta. Apenas consegue um recrudescimento do sentimento separatista e que a revolta se instale.
A Espanha franquista permanece na memória de muitos saudosos de uma Nação que nunca foi una.