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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Dos preparativos

luxemburgo pintura.jpg

Harry Rabinger

 

 

A idade traz destas coisas: não só ficamos mais vagarosos, a mexer-nos, a pensar, a decidir como, e talvez por isso, mais cautelosos, mais pensativos, mais prudentes. Planear uma viagem de 10 dias com alguns jovens adultos por perto, habituados a ver num avião um sucedâneo de um autocarro ou de um comboio, com inúmeras vantagens, é um exercício de divertimento dos mesmos perante a abordagem de expedição ao fim do mundo a que assistem.

 

Para mim o planeamento e a antecipação de uma tão desejada viagem são elementos indispensáveis para a felicidade, que começa precisamente pela degustação do prazer que se vai ter. Além disso, como somos nós próprios a fazer tudo, desde a criteriosa escolha dos locais a visitar, necessariamente muito poucos em comparação com o desejado, usando todas as ferramentas antigas e modernas, até às marcações das viagens, reserva de hotéis, carros de aluguer, museus, monumentos históricos, etc., a viagem não se reduz a ela própria mas expande-se a toda a uma constelação de cumplicidades e gozo da antevisão do paraíso.

 

Sob o olhar de condescendência ternurenta dos profissionais, imprimimos os cartões de embarque, os comprovativos do aluguer da viatura, os comprovativos dos hotéis, carregamos e actualizamos o GPS, confirmamos as previsões meteorológicas (que muitas vezes não acertam), avaliamos as possíveis dimensões e pesos das malas, ponderamos a necessidade de agasalhos, listamos os medicamentos (sim, também já temos essa parte), pedimos o táxi para o aeroporto, fazemos as contas aos horários para não nos atrasarmos, etc.

 

Se pensar bem, a primeira vez que me lembro de ter viajado de avião para um país estrangeiro - para França (não contando com Angola e Cabo Verde que, quando lá vivi, não eram estrangeiros) - já era (jovem) mãe de 2 filhos. Por muito que as viagens pela Europa se tenham banalizado, se calhar nunca conseguirei encará-las com a naturalidade de quem já nasceu numa Europa sem fronteiras e sem passaportes, que é o caso do pessoal mais novo. A liberdade de circulação de pessoas e bens é uma grande conquista do espaço europeu e uma grande vantagem destas gerações em relação à minha. A casa deles é mesmo o mundo.

 

Pois bem, estou de partida para uns dias de recreio e evasão.

Youkali

 

 

Kurt Weill & Roger Fernay & Teresa Stratas

 

C’est presque au bout du monde

Ma barque  vagabonde

Errant au gré de l’onde

M’y conduisit un jour

L’île est toute petite

Mais la fée qui l’habite

Gentiment nous invite

À en faire le tour

 

Youkali, c’est le pays de nos désirs

Youkali, c’est le bonheur, c’est le plaisir

Youkali, c’est la terre où l’on quitte tous les soucis

C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie

L’étoile qu’on suit, c’est Youkali

 

Youkali, c’est le respect de tous les vœux échangés

Youkali, c’est le pays des beaux amours partagés

C’est l’espérance qui est au cœur de tous les humains

La délivrance que nous attendons tous pour demain

 

Youkali, c’est le pays de nos désirs

Youkali, c’est le bonheur, c’est le plaisir

Mais c’est un rêve, une folie

Il n’y a pas de Youkali

Mais c’est un rêve, une folie

Il n’y a pas de Youkali

 

Et la vie nous entraîne

Lassante, quotidienne

Mais la pauvre âme humaine

Cherchant partout l’oubli

A, pour quitter la terre

Su trouver le mystère

Où nos rêves se terrent

En quelque Youkali

 

Youkali, c’est le pays de nos désirs

Youkali, c’est le bonheur, c’est le plaisir

Youkali, c’est la terre où l’on quitte tous les soucis

C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie

L’étoile qu’on suit, c’est Youkali

 

Youkali, c’est le respect de tous les voeux échangés

Youkali, c’est le pays des beaux amours partagés

C’est l’espérance qui est au cœur de tous les humains

La délivrance que nous attendons tous pour demain

 

Youkali, c’est le pays de nos désirs

Youkali, c’est le bonheur, c’est le plaisir

Mais c’est un rêve, une folie

Il n’y a pas de Youkali

Mais c’est un rêve, une folie

Il n’y a pas de Youkali

Dos populismos caseiros

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A peseudo-tragédia das candidaturas da autarquia portuense, com a pseudo-bravata de Rui Moreira contra as declarações de Ana Catarina Mendes, é uma pequena amostra, para quem ainda não quis ver, do que é o populismo dos tão propalados independentes.

 

Rui Moreira é mais um exemplo do nojo anti-partidário com tiques autoritários e trauliteiros, neste caso com a pronúncia do norte. É fantástico, muito sério e muito honesto e não precisa nada da peçonha partidária, com excepção dos votos, claro.

 

Manuel Pizarro é bom como cidadão, mas como dirigente do PS deve ser mantido a uma sanitária distância. Nada de lugares para os membros dos partidos, deles só necessita da campanha, da máquina de angariar votos e do trabalho posterior.

 

A responsabilidade é mesmo do PS, não por causa das observações de Ana Catarina Mendes que, mesmo que infelizes, não me parecem graves a nenhum título, mas porque prescindiu de assumir um candidato, mesmo não ganhador.

 

Espero que Manuel Pizarro se candidate autonomamente e que defenda as suas ideias e os votos no seu partido. A democracia sem partidos e com movimentos abrangentes e de cidadãos todos eles muito fantásticos, sérios e apartidários, é uma falácia que só quem não quer não entende. E talvez os portuenses o possam dizer nas urnas.

Do problema das retenções

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Não, não é da retenção de IRS, mas sim de fluidos. Ao contrário do que aprendi no curso de Medicina, por certo já muito desactualizado, agora todas as pessoas, mais as mulheres, claro, fazem retenção de líquidos, mesmo que não tenham qualquer tipo de insuficiência cardio-vascular, qualquer estado de mal absorção e/ ou hipoproteinémia, qualquer tipo de insuficiência renal.

 

A retenção de fluidos, conforme tenho aprendido nos últimos tempos, é qualquer coisa também ela muito fluida que nos faz aumentar de peso e que passa com a ingestão obsessiva de drenantes, outra palavra que começou a fazer parte do meu léxico. Portanto temos chás drenantes e líquidos drenantes, tudo para reter a retenção de fluidos, sejam eles quais forem. Também é preciso beber litradas de água que, paradoxalmente, acelera a drenagem dos ditos.

 

Para além das várias intolerâncias da humanidade, onde se destacam as recentíssimas intolerâncias ao glúten e à lactose, temos agora que ingerir chás de hibisco, alcachofra, gengibre e dente-de-leão, sumos detox com estranhas misturas de ervas e frutos, banir para todo o sempre o açúcar, deliciando-nos com doces que não têm doce, sobremesas sem açúcar e comendo muita gelatina, daquela dietética, queijo magro, manteiga que não é manteiga, pão das mais diversas farinhas, nomeadamente de farelo (lembro-me sempre que o meu avô compunha a comida dos porcos com farelo), com excepção absoluta do trigo, esquecer a existência da batata (a não ser que seja batata-doce, o novo milagre que cura todos os males do corpo), da massa e do arroz.

 

Portanto, para além de todas as culpas ancestrais que carregamos, as culpas da educação judaico-cristã, as culpas do escasso tempo livre que temos para a família e os amigos, soma-se agora a culpa de comer, porque não sabemos e porque estamos viciados em açúcar. Substituímos o silício pelos complicados e restritos menus a que nos obrigamos, tudo para acabar com a retenção de gordura, de açúcar e, principalmente, dos tais famigerados líquidos que teimam em acumular-se nos nossos martirizados organismos, mesmo depois de uma extremamente saudável sopa de couve-flor com orégãos e de uma saciante beringela gratinada com cogumelos.

Das declarações de princípios

Não sei se o facto de Mélenchon não apelar ao voto em Macron tem ou não influência nas pessoas que votaram nele na 1ª volta das presidenciais francesas. Também não sei se, caso ele apelasse ao voto em Macron, houvesse alguma diferença na votação dos seus eleitores.

 

Mas isso não me impede de considerar um erro histórico o facto de Mélenchon não fazer tudo o que é possível para derrotar Marine Le Pen, para que a expressão eleitoral dela seja a menor possível, para mobilizar todos os eleitores a votar na 2ª volta das presidenciais. E isso só se consegue votando em Macron.

 

É uma questão de princípios e de prioridades, da essência da escolha. Acho um tremendo erro. E espero sinceramente que o seu calculismo político não o venha fazer arrepender-se desta posição.

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