Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam
O que se está a passar na Turquia começa a ser demasiado familiar e óbvio quanto ao que move e qual o objectivo de Erdogan.
Tal como com Hitler, a comunidade internacional tenta não ver e desvalorizar. Ninguém sabe exactamente como actuar naquele barril de pólvora. Christine Lagarde é apenas um exemplo de quem tem as prioridades distorcidas.
Causa-me muita perplexidade o que se passou ontem no Parlamento, em relação à eleição de António Correia de Campos para a presidência do Conselho Económico e Social.
Não está em causa o facto de cada deputado se pronunciar como quer, em sua consciência, e o voto ser secreto - ainda bem que o é. O que me espanta e não entendo é como foi possível que um acordo entre os dois partidos com maior representação parlamentar não se tenha traduzido na votação maioritária (por 2/3), o que seria o objectivo do dito acordo e o espectável.
Levantam-se várias questões:
Qual a ligação entre os negociadores do acordo entre o PS e o PSD e os restantes deputados dos partidos?
Para o referido acordo apenas se falou do PS e do PSD - foram só esses os partidos envolvidos nas negociações? Se sim, porque ficaram de fora os restantes partidos, nomeadamente aqueles que suportam o governo?
Gostaria de perceber o que se passou. Mas uma coisa é certa - os dois maiores partidos portugueses e o Parlamento não saíram dignificados deste episódio, tal como não tinham saído aquando da tentativa de escolha de Jorge Miranda para Provedor de Justiça, em 2009.
Nem Jorge Miranda nem Correia de Campos merecem este desrespeito e esta desconsideração. Não a eleição em si, pois quem vai a votos arrisca-se a perder e a ganhar, mas toda esta novela à volta de acordos que se usam para achincalhar as necessárias negociações parlamentares e, pior do que isso, personagens que tudo têm feito para elevar a política e servir os cidadãos.
O último livro deste autor é, como habitualmente, uma reflexão violenta e irónica sobre a relação entre os intelectuais, mais propriamente os artistas, a arte e o poder. Mas não só.
Julian Barnes usa Dmitri Shostakovich, um compositor russo que viveu as épocas da revolução russa, das duas Guerras Mundiais, do estalinismo, da ligeira abertura do regime com Nikita Khrushchov e de Leonid Brejnev, para discorrer sobre a humanidade, a nossa capacidade de resistir e de ceder ao poder ou a tudo o que nos é contrário e nos violenta em termos ideológicos ou morais, a forma como nos defendemos e justificamos, por aceitarmos aquilo que nos incomoda e revolta. A vida e os homens são feitos de cambiantes de tons e cores e todos somos capazes dos maiores heroísmos e das piores abjecções.
Numa escrita muito sintética e depurada, o autor encarna Shostakovich e conta a sua vida na Rússia soviética, que alternou períodos em que foi punido por escrever música que não agradava aos ideólogos estalinistas e ao próprio Staline, sendo afastado dos empregos e dos concertos, temendo pela sua vida e pela dos seus familiares e amigos, aguardando à noite, junto ao elevador da sua casa, que o viessem prender para o deportar e/ou matar, com períodos em que era bajulado e premiado pela nomenklatura, recebendo prémios e honrarias.
Shostakovich vive em sobressalto, depressão, ansiedade e negação de si próprio. Despreza-se e não se perdoa por aquilo que considera actos de cobardia - apoiar decisões e deportações lendo discursos ou assinando documentos que outros escrevem, negar apoio a quem, como ele, tinha caído em desgraça, como a última e ultrajante humilhação de se ter tornado membro do Partido Comunista da União Soviética, que tinha conseguido evitar até Khrushchov ter assumido o poder. Não poupa os intelectuais estrangeiros que se dão ao luxo de admirar a sociedade mais avançada do mundo porque nela nunca tinham vivido - Romain Rolland e Jean-Paul Sarte, por exemplo.
O ruído do tempo é muito mais que um romance, muito mais que uma biografia, sem ser nem um romance nem uma biografia. Nos tempos que correm em que assistimos impotentes ao ascender de ditadores, convém não nos esquecermos o que é viver num regime totalitário.
Erdogan está a arrasar tudo e todos os que se lhe opõem ou opuseram. Um verdadeiro desastre, o que se está a passar na Turquia, e muito preocupante a nível global.
Rebecca - um dos clássicos mais clássicos que existem, com toda a razão e sem qualquer desmerecimento.
Tudo é bom - o ambiente, a luz, a soturnidade, a irresistível melancolia, a sugestão do medo, os excelentes actores, contidos e bem orientados, a ingenuidade de Mrs. de Winter, a tristeza de Maxim, o à-vontade insolente de Favell, a fabulosa e sinistra Mrs. Denvers.
Foi o primeiro filme de Hitchcock que vi e fiquei irremediavelmente sua enormíssima fã. Devo ter visto todos os outros, mais de uma vez, aproveitando as reposições e os ciclos comemorativos. Lembro-me particularmente de um na Gulbenkian, em que vi pela primeira vez Os pássaros, e outro no Quarteto - A janela indiscreta ou A mulher que viveu duas vezes - numa sala pequena, com muitas cadeiras em relação ao enorme écran, que nos fazia torcer o pescoço como se fosse uma cena de animação.
O filme mantém todo o suspense de quem o vê pela primeira vez e o arrepio delicioso para quem gosta deste género. Um dos melhores de Alfred Hitchcock, baseado num livro de Daphne du Maurier, e um dos exemplos cinematográficos em que a personagem principal e omnipresente está totalmente ausente.