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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Do começo das dificuldades

O governo de Passos Coelho e Paulo Portas caiu. Aguardamos a decisão de Cavaco Silva.

 

António Costa assumiu um risco enorme apenas ultrapassado pela responsabilidade do seu governo em nos demonstrar que há outra maneira de governar. Não será de rosas mas de muitos espinhos e cardos os caminhos que irá percorrer, tomando por certo que irá ser Primeiro-ministro.

 

Ser-lhe-á pedido o possível e o impossível, ser-lhe-ão apontados todos os franzir de sobrolhos dos seus aliados à esquerda, suportará o peso de todas as desilusões que, fatalmente, iremos sentir. Se esta coligação não se aguentar, o PS e os partidos à sua esquerda serão submergidos durante algum tempo.

 

Os cidadãos pedem a este próximo governo que os defenda e os honre com o sentido de missão e de serviço público, que lhes devolva o sentido da decência e da dignidade que tanta falta faz a quem já perdeu tanto, que lhes mostre que há esperança num futuro melhor.

Confissão

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Por muito que tente ser fria, realista, distante, pragmática e que observe os meus princípios do alto da sua pureza, confesso a minha secreta e imensa satisfação pelas palavras de Carlos César na Assembleia da República, pelo júbilo de uma nova esperança, pelo limiar da possibilidade de haver outra forma de governar.

 

À falta de argumentos em relação à total e estrita observância dos preceitos democráticos e da Constituição, a nova ordem é atacar o próprio Parlamento, denegrindo o papel dos deputados, insultando-os e tentando demonstrar que é um antro de ente corrupta e preguiçosa. O que mais me incomoda é a adopção deste mesmo tipo de comentários por pessoas que me habituei a admirar, como António Barreto. Feios, porcos e maus, estes deputados de esquerda que tiveram o topete de se concertar para assumirem uma alternativa de governo.

 

O espírito dos inquisidores desperta infelizmente também nas alas mais fundamentalistas do PS. É só observar o bulling a que estão sujeitos aqueles que não estão de alma e coração com esta solução governativa.

 

Vale a pena atentar bem no que disse o líder parlamentar do PS: (...) o Parlamento é um espaço de representação cívica e não um campo de batalha. De convergências e de controvérsia, mas marcado pela concidadania (...) quando os políticos divergem não se devem tornar inimigos (...).

Um político a sério

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Mesmo parecendo contraditório com o que expus no post anterior, devo dizer que António Costa tem demonstrado ser um verdadeiro e hábil político. A forma como transformou uma derrota em vitória é inegável e é a razão porque tantos de nós o desejamos como Primeiro-ministro.

 

O que estamos a viver, com reservas ou sem elas, é bem o espelho de uma reviravolta histórica na nossa vida democrática. E devo ampliar a minha admiração a Catarina Martins e a Jerónimo de Sousa que, mesmo com todas as cautelas e cepticismos, souberam abrir uma hipótese de entendimento, impensável no próprio dia das eleições.

 

Espero que a Europa e os ditos "mercados" saibam respeitar a democracia em Portugal, com os seus tempos e as suas especificidades. Abre-se uma esperança de verdadeira mudança que pode alastrar a outros países. É do êxito dessa mudança que a direita tem medo.

 

Uma nota para o artigo de António Barreto de hoje, no DN, um homem que parece ter desistido da sua posição esclarecida e moderada. A síndroma de Medina Carreira é, infelizmente, contagiosa.

Clarificações

As alterações políticas a que assistimos desde 4 de Outubro fazem com que me sinta em grande confusão ideológica, pois queria muito uma alteração governativa com a inexorável derrota da política destes últimos 4 anos, e senti-me espantada e esperançosa com a hipótese de poder realizar este desejo.

 

Mas é bom que nos recentremos e nos distanciemos desses desejos e vontades, para que o realismo e o pragmatismo imperem:

  1. António Costa foi eleito Secretário Geral do PS, em substituição de António José Seguro porque, com ele, o PS teria assegurada uma estrondoso vitória eleitoral.
  2. António Costa apresentou-se a eleições como candidato a Primeiro-ministro, ambicionando uma maioria absoluta para governar. Sempre defendeu entendimentos com os partidos à sua esquerda e afirmou por diversas vezes a quase impossibilidade de acordos com a direita.
  3. António Costa perdeu as eleições por uma margem bastante clara.

 

Nada disto impede nem retira legitimidade democrática à alternativa de um governo com apoio parlamentar dos partidos à esquerda do PS. Mas a legitimidade política de António Costa para liderar esta solução é fraca, tenho que o admitir.

 

António Costa não procurou o reforço da sua legitimidade política propondo um congresso extraordinário e perguntando a opinião dos militantes e simpatizantes do PS - os mesmos que o elegeram para candidato a Primeiro-ministro. Por isso, por muito que me agrade a hipótese de um governo de esquerda, por muito que repita a mim própria que nestas eleições se escolhem deputados e não primeiro-ministros, por muito que eu saiba que a soma dos deputados de esquerda é superior à soma dos deputados de direita, não deixo de pensar que esta solução precisa de ser sufragada pelos cidadãos.

 

Sendo assim, acho que Cavaco Silva deverá dar posse a António Costa e que o próximo (ou próxima) Presidente da República deverá convocar eleições antecipadas de forma a clarificar qual a solução governativa que os cidadãos querem: uma coligação de direita, uma coligação de esquerda ou um governo minoritário com apoios parlamentares à medida das necessidades.

 

Na verdade não me sinto confortável com um governo liderado por um PS que, até há bem poucas semanas, declarava, e com razão, que a única forma de garantir um governo de esquerda era tendo uma maioria absoluta; e também com partidos que, até há bem poucas semanas, juravam que o PS era semelhante à direita.

 

Os pragmatismos podem ser invocados em todas as circunstâncias e podem ser argumento para opiniões simétricas e contrárias. O PCP mudou e abriu esta brecha - o povo deve confirmar que é esta a sua opção, com António Costa à frente de uma coligação de governo ou parlamentar.

 

Por muito que rejubile com um governo liderado pelo PS toda eu clamo por um governo com estes partidos e com ideias a ganharem eleições.

 

Nota: acabo de ouvir Jerónimo de Sousa dizer que o PCP aprova o acordo com o PS. Este é, de facto, um tempo histórico, seja o que for que vá acontecer daqui para a frente. O próximo acto será protagonizado pelo Presidente Cavaco Silva.

A hora da verdade (2)

No seguimento do post anterior, se se confirmar a rejeição em bloco do governo de Passos Coelho no Parlamento, não é certo que Cavaco Silva emposse António Costa.

 

O Presidente pode manter o governo em funções de gestão, se considerar que, embora exista um acordo para a legislatura com o BE, o PCP e o PEV, este não assegura a estabilidade para um governo de 4 anos. Neste caso o Presidente condicionará a actuação do seu sucessor, obrigando-o a convocar eleições imediatamente após a sua posse. Por outro lado a coligação de esquerda poderá ganhar votos com a eventual vitimização pela situação criada.

 

Mas se o Presidente decidir aceitar as garantias desse (ainda inexistente) acordo entre os 4 partidos, será o PAF que se vitimizará e tudo fará para pressionar o próximo Presidente a convocar eleições antecipadas. Toda a campanha presidencial será à volta deste tema. Os candidatos serão obrigados a pronunciar-se sobre a sua opção, caso ganhem as eleições. E o tempo do PS no governo será muito escasso para que, de alguma forma, consiga provar que é, de facto, uma alternativa ao pensamento único da direita.

 

Seja qual for a sua decisão, Cavaco Silva será criticado por cerca de metade da população. Por sua inteira responsabilidade.

A hora da verdade (1)

À hora em que escrevo este post ainda não há um acordo de compromisso para a legislatura assinado com o PCP. Ou seja, ainda não é certo que António Costa tenha uma proposta alternativa a apresentar ao Presidente Cavaco Silva, honrando a sua promessa de só rejeitar o governo da coligação PSD/ CDS se obtiver um documento escrito em que os partidos de esquerda asseguram a estabilidade governativa do PS no Parlamento.

 

Se o PCP não assinar o acordo, veremos se o PS mantém a sua decisão e se, depois de toda esta reviravolta, o governo de Passos Coelho não acabará por passar na Assembleia da República. Neste cenário o PCP será acusado de inviabilizar o governo de esquerda e será altamente penalizado numas próximas eleições. Pelo contrário, o PS e o BE capitalizarão e reforçarão o seu eleitorado e será óbvio, como o foi até 4 de Outubro, que para eleger um governo de esquerda o voto no PCP é um desperdício.

 

Se o PCP assinar o acordo, Cavaco Silva terá nas suas mãos a decisão que, qualquer que seja, desagradará a cerca de metade da população.

Das democracias amputadas

O que se tem ouvido e lido sobre o resultado das eleições de 4 de Outubro e da consequente formação de governo é indicativo da subalternização da política e da deriva antidemocrática dos últimos anos.

 

Ao arrepio dos resultados eleitorais, as mais variadas vozes vindas de sectores empresariais e políticos, que se instalaram na sociedade e têm usufruído da ideologia dominante desde a crise de 2008, avisam os incautos sobre a inevitabilidade do caos caso se encontre uma alternativa de governo com apoio parlamentar da ala esquerda da Assembleia da República, ou decretando que a única atitude legítima e democrática do PS é viabilizar e aceitar as propostas e os acordos que a direita lhe propuser.

 

Se podermos pensar com o mínimo de distância, não compreendemos a causa da obrigação do PS em negociar apenas à direita como decreto resultante de ter perdido as eleições legislativas, como segundo partido mais votado. Independentemente do que possamos pensar sobre a viabilidade da solução governativa com o apoio parlamentar do BE e do PCP, o que se estranharia seria a prioridade dada pelo PS às negociações com o PAF, depois das declarações de António Costa relativas à negação do conceito dos partidos do arco da governação e de tudo o que o PS e a coligação de direita disseram durante a campanha. Será que os representantes eleitos estão impedidos de escolher com quem podem ou não fazer entendimentos, protocolos e alianças?

 

E quanto à divulgação dos entendimentos, do programa do eventual governo socialista e dos seus compromissos, a que propósito é que se exige conhecimento deles antes de estarem finalizados? Quando é que foram disponibilizados os compromissos entre o PSD e o CDS após as eleições de 2011? E será que desses compromissos constava a aprovação de todos os Orçamentos de Estado da legislatura?

 

Mantenho as minhas reservas e o meu cepticismo em relação à solução preconizada pelo PS. Penso que é uma manobra de alto risco, principalmente para o próprio PS. Considero no entanto que a campanha mediática a que temos assistido, liderada pelos pseudo jornalistas comentadores e afins, obedientemente mandatados pela coligação PSD/ CDS, mostra bem o conceito que têm de democracia - só são aceitáveis e só se aceitam governos de direita. As opções dos cidadãos resumem-se a não terem opção.

 

Uma nota final para a forma lamentável e indigna como muitos se têm referido a Francisco Assis, um homem frontal e que assume as suas opiniões. É muito triste ler os comentários que num estilo absolutamente troglodita, pululam no facebook.

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