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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Um dia como os outros (163)

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 (...) Se, pela primeira vez em Portugal, a esquerda conseguir entender-se com o pragmatismo que nunca lhe assistiu – ao contrário da direita, que desde os primórdios da democracia tem pragmatismo para dar e vender – António Costa parte de uma derrota eleitoral humilhante para uma vitória política histórica. A narrativa de 40 anos de democracia (“o PS só se pode entender com o PSD, por causa dos constrangimentos europeus e outros”) cairá por terra. E para quem tem dúvidas é bom lembrar que a legitimidade política pertence à maioria dos deputados do parlamento: a quem consegue fazer passar um orçamento e resistir a uma moção de censura. É isso que está na Constituição e o hábito não é um preceito constitucional.

 

Ana Sá Lopes

Das indignações selectivas

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Francis Luis Mora

 

Confesso que me escapam, por vezes, as razões pelas quais alguns assuntos causam incêndios nas redes sociais e outros não beliscam as consciências de quem ouve notícias.

 

Vem esta reflexão a propósito de alguns factos recentes da nossa informação televisiva. O primeiro caso que foi motivo de grande agitação foi o do programa Prós e Contras sobre o estado da Justiça em Portugal, em plena campanha eleitoral. Para minha estupefacção, as palavras de Paulo Rangel não serviam para mote de um programa de informação, uilizando-as para lançar a discussão em torno da Justiça, ou da falta dela, e da suposta partidarização da mesma/ politização da Justiça. Esta ideia motivou um violento ataque à pivot do programa e ao director de informação, tendo-se usado inclusivamente a insinuação de favores políticos pela existência de laços familiares entre Fátima Campos Ferreira e um membro do governo. Nada me parecia mais adequado, em plena campanha eleitoral, como o confronto dos vários intervenientes com a gravíssima declaração de Paulo Rangel. Após a transmissão do Prós e Contras fez-se um silêncio ensurdecedor, como se a polémica anterior não tivesse existido.

 

O segundo caso passou-se há poucos dias e refere-se à suposta graçola de José Rodrigues dos Santos em relação ao género do Prof. Alexandre Quintanilha. José Rodrigues dos Santos já mostrou por diversas vezes a sua incompetência, negligência, falta de pejo na indisfarçável parcialidade dos seus comentários pretensamente apolíticos e inteligentes, para além de um humor sem graça que se manifesta naquele inominável piscar de olho. Ao ver e ouvir o que disse e que, de facto, se presta à interpretação de um momento de pseudo brejeirice estúpida, é natural a indignação do Prof. Quintanilha e de todos os que o ouviram. Mas a verdade é que as explicações e o pedido de desculpa posteriores são, pelo menos, plausíveis.

 

O terceiro caso prende-se com uma notícia de há 2 dias, também fornecida pela RTP, em que terá havido pelo menos um caso de suspeita de fraude nas eleições de Domingo, quando duas eleitoras foram impedidas de votar porque os seus votos já teriam sido descarregados. E ao contrário do que se passou com as duas situações anteriores, não vi qualquer menção, nem indignação, nem petição, nem pedidos de explicações, nada, como se nada se tivesse passado. Ora a essência de um regime democrático e pluripartidário está na santidade de uma eleições livres e limpas, em que não se toleram suspeitas de fraude.

 

Não pretendo minimamente arvorar-me em juíza das boas e das más causas, mas estas coincidências causam-me alguma desconfiança quanto aos verdadeiros motivos destas indignações selectivas. Será que não haverá alguma animosidade contra a RTP e, especificamente, contra Paulo Dentinho?

 

Nota: Já agora reparo na discrição que acompanha e acompanhou a saída de António José Teixeira da direcção de informação da SIC Notícias logo após as eleições.

Das legitimidades eleitorais

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As eleições do último Domingo deram a vitória à coligação de direita. Por muito que isso seja incompreensível, foi essa a vontade maioritária dos eleitores - ter um governo liderado pelo PSD/ CDS.

 

É claro que não se discute a legitimidade de qualquer outro governo que resulte da nova configuração parlamentar, que possibilita a formação de uma plataforma governativa à esquerda liderada pelo PS. Mas não foi essa a vontade dos eleitores expressa nas urnas.

 

Por outro lado, caso se mantenham as posturas de todas as forças políticas - sobranceira a da coligação de direita, dialogante a do PS, absolutamente surpreendente a do PCP e equívoca a do BE - poderá não ser possível cumprir a exigência que, quanto a mim erradamente, Cavaco Silva fez - governo de maioria absoluta.

 

Na verdade a esquerda à esquerda do PS, que durante estes 40 anos sempre se colocou num patamar de autoridade nunca outorgado pelo voto popular e que sempre se recusou a colaborar com o PS para uma alternativa governamental, tendo-se coligado por com a direita para derrubar governos do PS, terá que se comprometer a ultrapassar os seus próprios complexos e as suas históricas atitudes antidemocráticas, para que se torne credível uma hipótese alternativa de esquerda, com qualquer quadro parlamentar.

 

Também o PS terá que mudar, e António Costa abriu a porta a entendimentos com os partidos à sua esquerda, ainda antes das eleições.

 

No entanto continuo a pensar que a solução que melhor interpreta a vontade expressa nas últimas eleições é um governo liderado por Passos Coelho, minoritário, com negociação de apoios parlamentares quando disso necessitar. António Costa e o PS terão com certeza oportunidade de avaliar as propostas da coligação e pronunciar-se sobre elas. A instabilidade desta solução não será maior que a de qualquer outra. E a estabilidade não é, só por si, garantia de coisa nenhuma.

 

Nota: que fique bem claro que em nada me repugna um governo do PS apoiado pelo PCP e pelo BE, com as condições que se lhes devem impor, nem partilho a narrativa do caos e da desgraça que daí virão, veiculada e martelada pelos comentadores e jornalistas que espelham essa mesma direita.

Um dia como os outros (162)

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No domingo passado, o país teve uma surpresa. Mas permitam-me lembrar o contexto que antecipou o abalo. Durante semanas, as sondagens e as conversas tinham-nos levado a uma convicção geral: a coligação PAF ia ganhar com maioria relativa. Repito, a 3 de outubro o que se sabia era o seguinte: muitíssimo provavelmente, ganhava o PAF sem maioria absoluta. Era o que diziam as sondagens - repetidamente alargando a vantagem, mas com limites prudentes - e concordavam os cidadãos, dando conta da campanha de uns, sem percalços e crucifixo no bolso, e a de outros, com Carlos do Carmo a falar. No dia 3, pois, véspera devotada à reflexão do voto, os portugueses reconheciam essa inevitabilidade. Porém, às 20.00, o país foi assombrado: a PAF ganhou e ganhou sem atingir a maioria absoluta!

Hão de concordar que é difícil gerir um país onde acontece o que se espera. Os alentejanos têm aquele provérbio "chuva em novembro, Natal em dezembro", mas suspeito que o que eles, e os portugueses em geral, esperam, mesmo, é a Páscoa. No dia das eleições foi o coelhinho que nos surgiu no presépio. Para espanto de todos que haviam passado as semanas anteriores a dizer exatamente isso. Enfim, logo no dia 4, Passos foi entronizado. Esquecendo-se de que o dia seguinte era 5 de outubro e que há datas que podem tornar-se vingativas, sobretudo quando foram degradadas a não feriado.

Os portugueses vinham de um mandato governamental em que se passou todo o contrário do que se prometera na campanha anterior. Desta vez, a campanha eleitoral tinha indiciado um certo e determinado resultado e foi, pois, com o pasmo nacional que a CNE confirmou que sim, era mesmo esse o resultado. Incrível! O primeiro caso, de não cumprimento das promessas, os portugueses aceitaram com naturalidade. Já no segundo, espantaram-se quando lhes aconteceu aquilo de que estavam carecas de saber que ia acontecer. Ora, entre nós, quando as coisas se passam de forma tão insólita (porque esperada), é natural que descambem em situações cada vez mais naturais. Ou, se quiserem, surpreendentes.

Às primeiras horas, tudo se passou como é costume. Tendo o PSD e o CDS votos para governar relativamente, preparavam-se para governar absolutamente. O primeiro sinal de qualquer coisa de estranho surgiu quando o Presidente Cavaco Silva foi alertado pela sua assessora mais de fiar (uma calculadora Texas Instruments). De 116 deputados para governar de vento à popa, encontraram-se garantidos só 104, aos quais se podia, na melhor das hipóteses, somar os quatro da emigração - 108. Fizeram-se contas e recontas mas dava sempre um défice de oito. Ainda se fosse daquelas contas para volkswagenear o défice orçamental... Mas não, eram cabeças para serem postadas em hemiciclo, filmadas, com bancadas de jornalistas à coca e público a espreitar das galerias - um buraco de oito nota-se.

Em Belém, Cavaco olhou o Tejo, passou uma falua, e esse concurso de circunstâncias - a calculadora mais a vela latina - levou-o a pensar que se não se podia governar com vento à popa, podia-se bolinar, ziguezagueando. Isso levou-o direito à solução: "O PS!!!", explicou ele a Passos Coelho. Cavaco Silva serviu em África, mas só na Universidade de Lourenço Marques, não esteve na savana e não aprendeu a lei n.º 1 do caçador: nunca cutucar uma pacaça ferida. António Costa lambia as feridas de domingo quando foi despertado pela Pátria. Ninguém se sente mais vivinho da Costa do que encontrar, ao sair do bloco operatório, apelos ansiosos de ajuda...

Entretanto, a semana avançava como se um estado de sítio - uma Lei de Murphy à portuguesa, "nada pode ser mais extraordinário por cá do que aquilo que é óbvio lá fora" - tivesse sido imposto a toda política portuguesa. Nada ficou imune, até o PCP. Jerónimo de Sousa, que fora interpelado durante a campanha por um garoto ("quando for grande quero ser primeiro-ministro", disse o menino), começou a pensar que na sua vida, até aí restringida a operário metalúrgico e líder do PC, ainda podia vir a ser político. Essa epifania, acrescentada ao acidente (uma Catarina de olhos azuis atropelou-o no dia 4), levou Jerónimo, já que tinha uns deputados, fazer com eles política. Falou com Costa, o tal revivido, e empurrou-o. "Vai", disse. A semana farta em ação tem tido ainda a vantagem de discursos breves.

Os portugueses, já espantados com os resultados óbvios, surpreendiam-se com as esquisitices que se podem fazer com o adquirido que afinal não é. Por exemplo, ainda ontem, o ganhador sentou-se com o perdedor e pôs cara de póquer. O outro limitou-se a dizer: "Pago para ver." Não viu nada, mas nós vimos que o ganhador teve de dizer: "Para a próxima vou ser mais atrevido." Para a semana há mais.

O que eu quero dizer-vos é que estou a gostar. Políticos a fazer política, nunca esperei.

 

Ferreira Fernandes

Da novidade da (velha) política

 

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Desde a noite das eleições que viajámos através de uma espécie de buraco negro, como se 40 anos se mudassem de uma assentada. O que, ao contrário de muitos dentro do PS, considero positivo.

 

É extraordinário ouvir, após 40 anos, o PCP admitir que não é o mesmo ser governado pela coligação PSD/CDS ou pelo PS. Este volte-face permitiu que o PS, mesmo reconhecendo-se que este, pela mão de António Costa, se tivesse recusado a excluir o PCP e o BE da responsabilidade governativa, se transformasse no fiel da balança deste equilíbrio bastante instável..

 

Por outro lado o Presidente da República, apostado em não deixar qualquer saudade pelo triste exercício da sua triste função, tem ajudado bastante ao foco dado a António Costa, deixando-lhe a iniciativa política de fazer o papel de negociador. Em vez de ter chamado de imediato todos os líderes partidários de forma a pedir-lhes os compromissos que declarou exigir para dar posse a um governo, resolveu ignorar essa formalidade constitucional e indigitar Passos Coelho a iniciar as diligências para a formação do governo.

 

Neste momento está tudo em jogo:

  • Se a coligação não conseguir um entendimento com o PS, será que o Presidente vai dar posse a um governo minoritário de direita que busque apoios parlamentares à medida das necessidades?
  • Se o PS recusar apoio à coligação e conseguir um compromisso com os partidos à sua esquerda, será que o Presidente dará posse a um governo de maioria de esquerda?
  • Se não for possível viabilizar nenhuma das coligações, haverá governo de iniciativa presidencial ou governo de gestão?

 

O PS está entre 2 espadas - se apoiar a coligação, nas próximas eleições poderá ser canibalizado pela esquerda; se formar um governo com apoio de uma maioria de esquerda parlamentar, nas próximas eleições poderá perder o seu segmento mais à direita, que não lhe perdoará a guinada revolucionária, mas também poderá crescer à custa do BE e/ ou do PCP.

 

O BE está entre a espada e a parede - se não apoiar o PS ficará com o ónus de inviabilizar um governo de esquerda; se deixar cair as suas linhas vermelhas poderá estar condenado a desaparecer.

 

No caso da coligação: ou está completamente desnorteada, porque perdeu a liderança do processo político e não soube lidar com a reviravolta na esquerda, ou está a dramatizar, jogando a cartada da vitimização para conseguir uma maioria absoluta nas próximas eleições.

 

Uma coisa parece quase certa - qualquer que seja a solução governativa encontrada não será duradoura. O próximo Presidente terá que convocar eleições em início de mandato.

 

Isto sou eu a arriscar-me a novos inconseguimentos, que já se transformaram numa tradição. A que somei a minha crença, que se provou errada, de que Marcelo Rebelo de Sousa não seria candidato à Presidência. Sempre defendi que não trocaria o seu papel de entertainer com o da função institucional. Mais uma vez, enganei-me.

 

ADENDA: Esqueci-me de dizer que Paulo Portas é um actor político... irrelevante.

Do meu próprio inconseguimento (2)

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Já por diversas vezes ficou bem provado a minha total ausência de clarividência política. Confesso a minha incapacidade para perceber vários fenómenos na sociedade portuguesa.

 

O primeiro é o fato de uma enorme percentagem dos meus concidadãos pura e simplesmente se absterem de votar. O alheamento e o encolher de ombros, a par do permanente ruído dos queixumes, são uma marca identitária que me custa a aceitar.

 

O segundo é o sentido de voto que resulta destas eleições, após quatro anos de empobrecimento e retrocesso. Escusamos de versejar e tentar relativizar a perda de maioria absoluta da coligação de direita. Para mim é mesmo incompreensível que tenha ganho, por muito ou por pouco.

 

O terceiro é a atitude de António Costa que, desde a primeira hora, teve o meu apoio. Após tão estrondosa derrota – não esqueço que defendi que era ele que poderia levar o PS ao governo, substituindo António José Seguro da sua liderança invertebrada, não tem uma palavra para o combate interno que, fatalmente, se seguirá. Mesmo que não se demitisse, e admito que até seja importante manter a serenidade neste período imediatamente anterior às presidenciais, o que estaria à espera era que, pelo menos, anunciasse a realização de um Congresso extraordinário onde poderia reforçar (ou não) a sua liderança. O PS vai precisar de ter um líder incontestado e, neste momento, ou António Costa assume o risco de pedir que o desafiem e lhe disputem o lugar de Secretário Geral, ou o PS vai continuar em lutas internas enfraquecendo-se e esboroando-se.

 

Mas claro, isto sou eu que não entendo o resultado das eleições. Uma coisa é certa – teremos PAF por mais uns belos tempos. Este modelo foi sufragado e o PS terá que ter força para conseguir negociar algumas das suas bandeiras eleitorais.

 

Quanto às presidenciais – e que tal o PS repensar também a sua estratégia? É que se anuncia mais uma estrondosa derrota, seja ela com Sampaio da Nóvoa ou com Maria de Belém.

A escolha do povo

Não foi a minha escolha. Mas foi clara e inequívoca. A coligação de direita, a confirmarem-se estes resultados, tem uma vitória estrondosa.

 

António Costa terá que se demitir. Fui sua apoiante desde a primeira hora e continuo sua apoiante. Mas a verdade é que esta é uma derrota muito expressiva.

 

É à coligação de direita que compete governar. Espero que o PS honre o seu lugar na oposição e não se perca em somas e cálculos que desvirtuem o resultado das urnas.

Ao voto!

 

Não se esqueça

não se lamente

não se crispe

não se encolha

não se chore

não se arrepele

não se desgoste

não se desgrenhe

não se ajoelhe

não se arraste

não se atrase.

 

O dia é de erguer

os olhos

o corpo

a mente

o dia é de alegria

de renovação

de liberdade.

 

O dia é de votar!