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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

... a laborar há 9 anos...

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Nesta casa serve-se tudo a quente.

As cadeiras são de pau e têm as costas direitas.

Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação.

A porta está sempre aberta...

... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado.

Esta casa tem nas janelas a bandeira do desafio.

Espalhadas pelas mesas as palavras que não lhe faltam.

Serve silêncios de cumplicidade.

Regista o tempo que passa nas paredes da memória.

Esta casa é varrida por tempestades cíclicas com elevado grau de intensidade.

O equilíbrio das ideias é periclitante.

De luz permanece uma lâmpada acesa...

... mesmo que escondida entre as brumas do desconcerto.

A renovação vai abrindo fendas e reconstruindo o remendo das incertezas.

 

Sejam bem-vindos.

Intervalo

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Um dos motivos porque adoro viajar é a felicidade que sinto ao regressar a casa.

 

Em volta da mesa a conversa acalma e estimula, o apelo primitivo ao alimento do corpo e da mente, à intimidade de quem se ama, respeita e quer.

 

Pão fatiado a preceito, uma prova de queijos, um mestiço (ovelha e cabra) outro de cabra, um chouriço bem curado, vinho tinto Couteiro-Mor escolha 2010, requeijão acabado de fazer com doce de abóbora de outros natais, a chuva forte nas janelas e uma luz que se espalha, discreta, pela sombra da noite.

Largo de Sto. António

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E pronto, já chegámos ao Outono, portanto ao Inverno. Não há ano em que o início de Novembro, com a habitual peregrinação a terras beirãs, não seja o princípio do frio e da chuva. Por muito bom tempo que esteja antes, no dia da feira arrefece e chove.

 

Muita gente mas pouca feira. Encolheu e especializou-se: castanhas foram mais que muitas, queijos e enchidos (maravilhosos) menos, muitíssimas tendas com roupa e sapatos; jeropiga para vários gostos, castanhas mais ou menos assadas e farturas, obviamente, quentes e polvilhadas de açúcar e canela.

 

Este ano houve um extra: como de costume as ruas onde montam as tendas ficam interditas ao trânsito e ao estacionamento. O largo de Sto. António é uma boa alternativa e costumo lá deixar o carro, todos os anos. Desta vez havia um lugarzito bem bom encostado ao passeio e lá deixei o reluzente carro, acabadinho de lavar no dia anterior.

 

Na manhã seguinte, quando o fui buscar, pensei que tinha havido uma limpeza de esgotos na cidade dos pombos, imediatamente acima do tejadilho do meu maravilhoso veículo, numa frondosa árvore. Era tanta porcaria, nos vidros, nas portas, misturada com penas, que parecia o resultado de uma guerra intestina (literalmente) da passarada.

 

Quando comentei, entre o ultrajada e ofendida, o facto com familiares, a frase - Onde o deixaste? No largo de Sto. António? - vinha acompanhada de um imparável sorriso de gozo misturado com pena, de quem já sofreu ou viu sofrer agruras semelhantes.

 

Antes de me vir embora a primeira coisa que fiz foi procurar um local onde pudesse lavar aquela bodeguice. Ao chegar à oficina o senhor que lá estava, com o mesmo imparável sorriso de gozo misturado com pena comentou - Ah, foi no largo de Sto. António...

 

Fiquei a saber que o Largo de Sto. António deve ser conhecido como o cagatório público dos pombos alcainenses.

Naco na pedra

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A ideia de quatro dias inteirinhos e seguidos de férias animam qualquer um (ou qualquer uma) com o gozo dos pequeníssimos prazeres e rituais de lazer multiplicados por… infinito. Não sei se apenas pelo distender da falta de compromissos ou se pela curiosidade inata da minha pessoa, surpreendo-me muitas vezes com as cenas quotidianas.

 

Na calmaria de um almoço banal, com a única diferença de ser dia de semana e eu não estar a trabalhar e, além disso, estar muito bem acompanhada numa conversa amena e confortável, a degustar um polvo salteado com migas de espinafres, reparo na senhora que se sentava mesmo ao meu lado: cerca de cinquenta e tal anos, compacta sem ser gorda, cabelo penteado para fora, óculos com aros de massa, túnica de cor bordeaux e calças mais ou menos do mesmo tom, com um ar afirmativo e assertivo de quem manda e gosta de mandar. Repentinamente afasta irritada uma pedra que fumegava com uns nacos de carne em cima:

- Não sou capaz de comer isto assim; agonia-me a carne crua!

O empregado, solícito, sugere à senhora um bifinho da vazia ou do lombo, ou as outras iguarias que se ofereciam no menu. A senhora, soberba e mal-educada:

- Como só a salada!

O desgraçado do companheiro da frente fez-se mais magro e mais cinzento do que já era, murmurando qualquer coisa para dentro do prato e concentrando-se na sua própria refeição. Pouco tempo depois ambos abandonaram a mesa, ela com a mesma ferocidade indignada, deixando no prato os despojos do tomate da salada que, pelos vistos, também a enjoavam.

 

Enfim, há algumas coisas que se me afiguram misteriosas: se uma pessoa se agonia com carne crua, porque escolhe para o almoço naco na pedra?

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