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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Perplexidade

 

Nunca deixará de me surpreender a tendência que as pessoas têm para se crucificarem publicamente. As declarações de Nuno Godinho de Matos, ao assumir que auferia 10 a 12000 euros por ano (60 a 68000 ao todo) para entrar mudo e sair calado das reuniões do conselho de administração não executivo do BES, por saber tanto da actividade bancária como da de calceteiro, serão para nos mostrar estupidez, ingenuidade, falta de vergonha, o quê, exactamente?

Da (falta de) informação

A descredibilização da informação institucionalizada, tal como nos habituámos a concebê-la – jornais, rádio e televisão – é gravíssima. Qualquer notícia sistematicamente divulgada levanta de imediato suspeitas de manipulação. Isto vem a propósito da barragem mediática a que temos assistido em relação à TAP. Desde há uma ou duas semanas que todos os dias nos aparecem avarias, falhas, atrasos, problemas com os aviões, com os pilotos, com os sindicatos, enfim, repentinamente a TAP passou a ter um holofote noticioso diário, para reportar problemas aparentemente graves.

 

Mas em nenhuma das notícias é abordada a razão deste contínuo fluxo noticioso – aumentaram as avarias em relação às semanas anteriores? Houve alguma mudança nos critérios de avaliação da segurança? Quais os níveis de segurança da TAP? Em termos absolutos e em termos relativos (outras companhias de aviação europeias), como está avaliada a TAP nos vários rankings existentes? Porque problemas técnicos devem existir centenas por dia, na TAP e em qualquer companhia aérea. Não é isso que é preocupante mas a tipologia dos problemas, a forma e brevidade com que são resolvidos e os procedimentos de manutenção/ prevenção dos mesmos. Por outro lado a próxima privatização da TAP não deverá ser alheia a esta avalanche de problemas, cujo objectivo parece ser a desvalorização da companhia aérea para que os investidores privados tenham menos despesas.

 

A abordagem jornalística a que temos tido acesso não esclarece nenhuma dúvida e apenas instala a suspeição e a insegurança. Se é por incompetência ou por manipulação não sei, mas qualquer das hipóteses é muito degradante. A qualidade da informação é central no funcionamento de uma sociedade. Neste momento há outras fontes de informação e qualquer de nós se pode arrogar o privilégio de ser o seu próprio jornalista. Mas não só o conhecimento da profissão é nulo como as próprias fontes também não têm credibilidade assegurada, pelo que o trabalho jornalístico clássico ainda não tem substituição válida.

 

A cada vez maior dificuldade na afirmação dos vários jornais não será apenas fruto da crescente utilização da internet e das tecnologias de informação, mas também da enorme falta de qualidade da maioria deles. A valorização dos títulos bombásticos é preferível à veracidade dos mesmos, à verificação das fontes, ao cruzamento de dados, à investigação e estudo das matérias. Por isso a substituição da direcção do Diário de Notícias, um jornal centenário que se deveria orgulhar dos seus cabelos brancos e pugnar pela fidelização dos leitores, pode ser um sinal de esperança. Veremos se temos alguma razão para festejar.

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