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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da intrínseca estupidez

A internet e as redes sociais dão-nos a ilusão de sermos todos uma grande família, numa relação de proximidade com quem nem sequer conhecemos. Por isso nos expomos ao mundo, publicando pensamentos, disparates, pretensões, ignorâncias, futilidades e fotografias, nossas e de outros a quem não pedimos autorização, numa demissão total da reserva e privacidade das nossas vidas e da nossa intimidade e também daqueles que fazem verdadeiramente parte do nosso grupo familiar e de amizade.

 

Por outro lado assistimos ao alardear dos lados mais negros, falsos, cínicos e violentos do ser humano. A coberto do anonimato e da facilidade de comunicação, lemos trivialidades, insultos e mentiras. Tal como os adolescentes dão a toda a escola o código de entrada da porta do prédio onde moram, sem se aperceberem de que é o mesmo que distribuírem pelos pátios a chave de entrada da sua casa, a sensação de devassa a que estamos sujeitos é assustadora.

 

A propósito do último post que publiquei sobre Maria de Lurdes Rodrigues, reparei que estava a ser muito visitada por pessoas direccionadas de um blogue que se distingue pelo grupo de energúmenos que a si mesmo se chama classe docente, conspurcando todos os que são verdadeiros professores. E então dei com um comentário a um post sobre a condenação de Maria de Lurdes Rodrigues, que linkava para o meu:

 

 

Não estranhei o teor nem a elegância do comentário. Apenas fiquei espantadíssima com o excerto de uma dúvida que, em 2008 (!!!), enviei ao site Ciberdúvidas a propósito de uma expressão que vi e ouvi diversas vezes e que pensava estar errada: "envergar por uma carreira". Como não tenho a pretensão de saber tudo e, bem pelo contrário, tenho alguma tendência a dar erros de ortografia, umas vezes por dislexia outras por ignorância pura, resolvi esclarecer-me:

 

 

Confesso que fiquei perplexa. Percebi, mais uma vez, que tudo o que escrevemos, por muito normal e inocente que nos pareça, pode ser vasculhado, guardado e usado para insultar e descredibilizar, quando não com mais escuros e dúbios objectivos.

 

Numa sociedade que nos quer fazer acreditar que somos uma grande, unida e feliz família universal, percebemos que de universal há seguramente a intrínseca estupidez humana. Estamos a construir um Big Brother vingativo, cheios de flores e música celestial com que enganadoramente o enfeitamos.

Mobilizar Portugal

 

O desapego dos cidadãos à política e aos políticos é directamente proporcional à incompetência e vacuidade dos protagonistas. Prova disso é a mobilização para as primárias do PS - quando há uma causa importante, quando os cidadãos têm um motivo para aderirem à política fazem-no.

 

Este facto é verificável em Portugal e noutros países europeus. A participação na votação para o referendo escocês teve uma percentagem histórica de 85,6%. É a evidência de que há interesse e envolvimento da sociedade para resolver os problemas que sentem importantes.

 

O ataque de populismo de António José Seguro, rivalizando com Marinho e Pinto, na tentativa de apelar aos instintos mais primários de culpabilização dos responsáveis eleitos por todos os males do universo é patético e, espero eu, contraproducente. A hipotética proposta de alteração da lei eleitoral, a dormir desde há vários anos, para além das insinuações sobre a promiscuidade entre negócios e políticas, demonstram bem as habilidades de que é capaz.

 

Nas primárias do PS está em causa a escolha de alguém que nos saiba e possa representar, não uma pessoa que afirma ter-se anulado estrategicamente para conseguir ter o partido na mão e que coloca o seu direito a ser candidato a Primeiro-ministro à frente dos interesses do país. Está em causa a hipótese de alternativa a este governo.

 

Depois das primárias a disputar a 28 de Setembro se, como acredito, António Costa vencer, espero que António José Seguro se demita de Secretário-geral do PS. Os recentes agendamentos de discussões parlamentares fazem-me temer que o não fará.

Da minha janela

O Tejo

 

A verdadeira dor

a que não se bebe em lágrimas

a que não se aperta em aflição

entre os nós dos dedos

a que não embacia os cabelos

a que não se encarquilha na porosidade

e fragilidade do esqueleto

está na funda e incompreensível solidão

no silêncio de um mar que não termina

num infinito universo que elimina

a sôfrega vastidão do tempo.

Maria de Lurdes Rodrigues

 

Da justiça temos uma ideia romântica de igualdade, imparcialidade e infalibilidade. De um sistema de justiça queremos que seja rápido, certeiro e rigoroso.

 

Não conheço Maria de Lurdes Rodrigues. Pertenço a uma área profissional totalmente distinta, nunca me cruzei com ela nem profissional nem socialmente. Tenho dela, no entanto, a maior das admirações e um enorme respeito pelo que tem lutado pelo serviço público de Educação, nomeadamente no governo de Sócrates.

 

Não seria intelectualmente honesto da minha parte se, agora, viesse a desacreditar todo o processo em que está envolvida. Ainda tenho esperança que o objectivo da justiça seja ser certeira e rigorosa, já que não é igual para todos os cidadãos, muito menos rápida.  Espero portanto, tal como todos o devemos fazer para todos os processos, o desenrolar dos acontecimento e a conclusão de que, ao contrário de ter prevaricado no exercício de um cargo público, o honrou e dignificou, como eu penso que o fez.

 

No entretanto presto-lhe a minha homenagem.

Dos populismos e dos demagogos

 

Marinho e Pinto conseguiu uma votação expressiva nas eleições para o Parlamento Europeu com uma campanha populista, contra os maus políticos e a má política. Seria ele o paladino da moral e dos costumes da seriedade e do serviço público, em pose de Estado, um verdadeiro missionário pelo povo.

 

Mas descobriu que no Parlamento Europeu era só corrupção e ladroagem, um escândalo de ordenado que, no entanto, ele tem que aceitar, muito a contragosto, pois é pobre e a filha é emigrante. Descobriu que é noutros palcos e noutras arenas que a sua luta será mais grandiosa e mais popular. Por isso manifesta a sua disponibilidade para se candidatar às legislativas e/ ou à Presidência da República. A seu tempo o veremos decidir por qual ou a sequência de campanhas e eleições que se somarão.

 

No entretanto vai abalroando o partido que lhe deu guarida e já vai criar um novo partido, para o qual procura apoios.

 

Espero que lhe dêem muitas oportunidades de falar, de mostrar como defenderá o povo, no qual se inclui, dos demagogos e dos populistas. Mais uma vez, ninguém pode dizer que não sabia e que foi enganada. Está tudo à vista.

 

A democracia é mesmo uma superior forma de organização social.

Vamos a jogo

Toda a gente percebeu a razão e o objectivo destas primárias no PS convocadas por António José Seguro - arrastar o mais possível a situação impossível dentro do partido, para arrefecer os ânimos exaltados com os resultados das europeias. Todos os estratagemas foram usados.

 

António Costa sabia disso e aceitou o repto. Disse, e quanto a mim muito bem, que não discutia os formalismos mas sim a substância, ou seja, a liderança do PS e portanto a a liderança da oposição.

 

Sendo assim não vale a pena estarmos agora com suspeições de golpes da parte de apoiantes de Seguro ou de apoiantes de Costa. Quem se inscreveu como simpatizante para votar conhecia as regras do jogo. E é com essas que teremos de jogar.

 

Para mim estas eleições serviram para expor ainda mais o tipo de liderança de António José Seguro.  As entrevistas que vai dando, os vídeos que disponibiliza na campanha, demonstram bem a fibra deste candidato a Primeiro-ministro.

 

Ninguém pode dizer que não sabia, que não esperava, que foi enganado - está à vista. Não cabe na cabeça de António José Seguro que lhe possam disputar aquilo que considera ser o seu prémio, merecido pela paciência de ter esperado 3 anos para poder concorrer a umas legislativas. É isso que lhe dói - o oportunismo de António Costa. O país só lhe faz falta para concretizar a sua ambição pessoal.

 

Para mim, e penso que para muita gente, está em causa o voto nas legislativas - no PS, caso ganhe António Costa, ou noutro partido, em branco ou nulo, caso ganhe António José Seguro.

Um dia como os outros (145)

(...) o secretário-geral do PS terá decidido esconder quem é e o que pensa para evitar cisões nas hostes do PS, escondendo-se portanto do País do qual quereria ser primeiro-ministro. (...)

 

(...) ele aventa que sabe coisas terríveis, às quais terá assistido bem caladinho e das quais nem depois de eleito chefe falou, para não chatear ninguém - sendo que nem agora, que finalmente se soltou, diz que coisas são. (...)

 

(...) Percebe-se que alguém que achou que ser falso era a forma certa de manter o partido e chegar ao Governo não entenda que raio fez de errado; que quem acusa de traição aquele que o desafia não tenha capacidade ética para vislumbrar que a maior das traições - aos outros e a si - é fingir ser-se o que se não é. (...)

 

(...) Quem se confessa capaz de ser nada para chegar onde quer é bem capaz de tudo.

 

Fernanda Câncio

Um dia como os outros (144)

(...) Nota final: a diferença entre o debate moderado por Clara de Sousa, sobre política e os problemas do país, e o debate moderado por Judite de Sousa, sobre zangas de comadres, é da noite para o dia. Ontem, não houve interrupções inúteis e perguntas vazias. Firme, sóbria e eficaz. O que se quer de quem modera um debate. Uma raridade no jornalismo televisivo português.

 

Daniel Oliveira

Das reformas inadiáveis

Vários governos falaram, sempre com carácter de urgência, da indispensável reforma do SNS para que se garantisse a sua sustentabilidade e, consequentemente, a sua existência.

 

Trinca e cinco anos depois da sua fundação, essa urgência ainda não foi implementada. Temos um sistema pesado, assimétrico, com enormes falhas de acessibilidade, com recursos humanos desajustados às actuais necessidades. O país mudou, a distribuição etária, demográfica e de patologias é muito diferente, a oferta tecnológica de meios complementares é infinitamente superior, as terapêuticas também se modificaram, resultantes dos diferentes métodos de diagnóstico e os custos subiram astronomicamente.

 

Neste momento o SNS está centrado nos hospitais. As urgências transformaram-se na porta de entrada dos cuidados de saúde e as consultas externas enchem os gabinetes, as salas de espera e os corredores hospitalares, esticando os tempos de espera para marcações não consentâneos com um correcto e eficaz atendimento. Neste grupo de consultas externas estão as 1ª consultas que resultam da referenciação efectuada nos CS e as de follow-up de situações anteriormente tratadas no hospital.

 

Porque não se deslocam as consultas para os CS? Porque não existem médicos especialistas a fazer consultas de especialidade nos CS? Ginecologia, Pediatria, Gastrenterologia, Endocrinologia, …? Porque não podem ser efectuados alguns pequenos actos cirúrgicos em gabinetes devidamente equipados nos CS? Porque não se oferecem consultas de Oftalmologia, ORL e Odontologia no SNS, nos CS? Porque não se formam Enfermeiros e outros técnicos de saúde para, nos próprios CS ou nos domicílios, fazerem atendimento e acompanhamento de doentes crónicos, diabéticos, insuficientes cardíacos ou oncológicos, com grandes ganhos de conforto e qualidade para os doentes e redução de custos para o Estado?

 

Os hospitais deveriam ser locais de passagem para as fases agudas e graves, que não pudessem ser tratadas em casa e/ ou nos CS. Para isso é preciso que haja vontade política e que as várias corporações ligadas à saúde compreendam que ou se altera a cultura instalada ou se desmantela o SNS, um dos maiores factores de promoção de efectiva igualdade numa sociedade que se pretende solidária e democrática.

 

Era este o género de discussão a que eu gostava de assistir entre os candidatos a líderes no PS. Ou noutro partido qualquer. Estes são os assuntos importantes, não os estados de alma, ofensas ou juras de lealdade.

 

Nota: Esta entrevista a Marta Temido, Presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, é muito interessante.

Dos resultados dos (tristes) debates

A votação em qualquer dos candidatos a líder está já decidida e estes debates não servem para ninguém, simpatizante ou militante do PS, optar por qualquer deles. Quem é militante já escolheu e quem se inscreveu como simpatizante também.

 

Estes debates servem para o eleitorado, no geral, dependendo do líder do PS, ponderar votar ou não no PS. Por isso é tão importante que António Costa fale para fora.