A derrota da crise (17)
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(...) Não percebo nada, tudo me cheira a esturro, a teatro de sombras, aperformances, desde o jogo do empurra ao "não subimos porque não queremos", à famosa "contenção" tão celebrada por ambos os lados, aos repetidos "5 minutos para dispersar", às declarações dos responsáveis sindicais ("eles fazem o seu trabalho, nós fazemos o nosso") e ao compromisso da Presidente da AR em "enveredar esforços para desbloquear a situação". Alguém que me explique, por favor.
Publicar um livro de poesia continua a ser como deixá-lo cair de uma ponte e esperar que se ouça o estrondo. Habitualmente, não se ouve nada. - Lawrence Ferlinghetti
Como ler um Escritor - John Freeman
Edições Tinta da China, Lisboa, 2013
As viagens de comboio são óptimas oportunidades para ler. Ultimamente tenho passado várias horas entre Lisboa, Porto e Coimbra, aproveitando para me deliciar com alguns livros que vão aguardando em cima das mesas.
Escrita íntima é um livro editado pela Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM) e pela Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva (FAZVS) e é constituído por um conjunto de cartas trocadas entre os dois pintores, organizadas em três grupos: o primeiro nos anos 30, o segundo durante o seu exílio brasileiro e o terceiro entre 1947 e 1961, correspondendo ao regresso a Paris e à reconstrução das suas vidas.
É um livro fascinante, porque fascinante foi a história de cada um dos pintores, a sua obra, o enquadramento histórico com as guerras, as ditaduras, os anos de interregno ao fugirem para o Brasil (Arpad Szene era judeu), a efervescência artística e intelectual na pintura, na escultura, na literatura e até na música, as viagens, o desenvolvimento da sua arte individualmente e inserida nas correntes das várias épocas que atravessaram e, principalmente, pela sua história como casal que se encontrou e se amou tão total e completamente que faz deles os protagonistas de uma extraordinária história de amor.
As cartas que agora são publicadas, no original (francês com vários termos estrangeirados e adaptados, na sua maioria códigos de carinho e ternura) e traduzidas para o português, com fotografias das próprias cartas e de alguns dos desenhos com que se comunicavam, de quadros e de fotografias dos dois, em casa, com amigos, a trabalharem, mostram uma entrega e um amor através dos mais simples e habituais momentos diários, que não deixa ninguém indiferente.
Imagino que tenham tido uma vida cheia cheia, com partidas e recomeços, com dificuldades e coragem, sempre perseverando na procura dos seus caminhos, influenciando-se e apoiando-se mutuamente, sendo um o guia e a inspiração do outro, núcleo da sua força e amparo das suas fraquezas.
Onde estão os escritores, os guionistas, os realizadores, os investigadores deste país, que não se debruçam sobre esta incrível história de dois artistas amantes por toda uma vida tão repleta de experiências, tensões, viagens e arte, que estiveram no centro de movimentos artísticos tão importantes, que viveram a intensidade, as misérias e os fulgores do século XX?
É um livro inspirador. Está também a decorrer uma exposição, na FAZVS a propósito desta Escrita íntima, a não perder, certamente.
No intervalo destes últimos 40 anos, o mundo mudou radicalmente. O desenvolvimento tecnológico exponencial permitiu maior longevidade e qualidade de vida, nos países a que se convencionou chamar desenvolvidos, maior riqueza e bem-estar, melhor e mais rápida divulgação com as novas tecnologias de informação.
Politicamente a queda do muro de Berlim, o ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque, a consolidação e alargamento da União Europeia, o despertar dos países da América do Sul, o crescimento da China e da Índia, os fenómenos de migração populacional, entre muitos outros, modificaram os equilíbrios existentes a um ritmo crescente, transformando o mundo numa massa globalizada, que cria riqueza mas que a concentra em cada vez menores núcleos de indivíduos, aumentando o fosso entre os que mais podem e os que nada podem.
Percebemos hoje que não tem havido capacidade, imaginação nem vontade de lidar com os novos problemas que se avolumam – as alterações demográficas, o reacender dos ódios (xenofobia e racismo), as alterações climatéricas, a gestão dos recursos naturais. Em Portugal e na Europa assiste-se a um cada vez maior divórcio entre os governantes, os líderes dos partidos e os representantes das diversas associações sociais (sindicatos, confederações patronais, industriais, etc) e a restante população, aumentando a descrença neste regime democrático em que esses mesmos governantes, líderes e representantes são, por definição, eleitos livremente.1
A total subversão do papel da comunicação e da informação, fruto da revolução informática, transformou a vida, os direitos, as liberdades e o conceito de justiça numa paródia, assistindo-se à construção e destruição de carácter e de factos, mais falsos que verdadeiros, numa roda-viva dentada que tritura pessoas, instituições, conceitos. A manipulação das vontades e dos sentimentos globais movem as multidões e aqueles que deveriam ser os dirigentes deixam-se dirigir pelas ondas de protesto, indignação, fúria ou júbilo que todos os dias assolam a sociedade.
Estas organizações políticas não conseguem mobilizar os cidadãos, que deixaram de acreditar no que lhes é dito e repetido. A vida vai correndo à parte do que é cozinhado nas cadeiras dos diversos poderes e a raiva surda com o encolher de ombros vai sendo a atitude de quem quer manter a mínima sanidade mental. É confrangedor ouvir as frases gastas, os clichés, as palavras de ordem de governo, oposição, comentadores, economistas, sindicalistas e outros membros que gravitam na órbita desta elite, sem centelha, sem ideias, sem glória.
Ao contrário de tanta coisa que se modificou nos últimos 40 anos, nada se quer mudar nesta organização política formal, porque já é só formalidade e alimentação de interesses de poder, sem que importe a sociedade, o seu respirar, o seu viver, a sua felicidade. A riqueza e o poder deixaram de ser meios para serem fins, e o governo da nação deixou de se preocupar com a própria nação para se preocupar com os que a governam, num mundo ficcional e desligado da realidade.
Por isso é cada vez mais provável a queda do regime democrático. Ninguém acredita nele. Continuamos neste romance de faz-de-conta até que, provavelmente tarde de mais, outro regime ditatorial tome conta de nós. É que eu não conheço mais nenhum tipo de regime – democracia e ditadura podem ter várias práticas e vários nomes, mas são apenas essas as alternativas - democracia ou ditadura. E a avaliar pelo que se passa nesta Europa, o primeiro arrisca-se a ser trocado por um mais moderno, mais chique e mais na moda.
1 A última manifestação convocada pela CGTP parecia uma procissão, com andor e ladainhas e menos fulgor que as rezas de um velório.