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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da resistência

 

 

Confesso que nunca tinha lido a Ode Marítima na sua totalidade. Conhecia vários fragmentos, alguns que me diziam mais que outros. Antes de ir ao Teatro São Luiz copiei a Ode Marítima (site Casa Fernando Pessoa) para um ficheiro de word e li-a quase toda.

 

São indescritíveis as emoções que nos assaltam ao longo do espectáculo. Com um texto como este, a verdadeira estrela do único acto, somos levados na enxurrada de palavras que Diogo Infante debita, durante mais de 1 hora, sem que nos desprendamos de cena um único segundo.

 

Está lá tudo. Álvaro de Campos (Diogo Infante) diz-nos de uma forma inexcedível a dor e o lamento de quem se exorta a partir, anseia pelo longe e pelos diversos cais de embarque, navios que se perdem pelos sentidos e que se encontram pela ambição da descoberta, da aventura, do perigo, da experimentação de tudo, mas que não é capaz de sair da sua vida moderna, mediana e certinha, traçada diariamente com uma realidade plana, tumultuosa e avassaladora com a imaginação.

 

Não me lembro de melhor metáfora para o nosso momento colectivo. Esta ânsia que atravessa a nossa História, esta investida no que está além, para além, esta contradição entre o querer ir e a saudade do ficar, delicadamente acompanhada pelos pequenos e oportunos solos de guitarra, mais uma metáfora portuguesa, é uma das melhores formas de resistir a toda esta lama informe que nos tolhe a vida, principalmente a nossa atitude perante a adversidade.

 

É essa atitude que hoje nos falta, é esta ambição que está minguada e que se espelha na canção de Pedro Abrunhosa “Para os braços da Minha Mãe”. Gosto de Pedro Abrunhosa como compositor, não como cantor. E apesar da melodia ser bonita, apesar da voz de Camané ser excelente, a letra da canção é a tradução de uma atitude desistente e conservadora, em que à necessidade de partir não se alia qualquer cunho de curiosidade e liberdade para aprender outras realidades, outras culturas, outras oportunidades.

 

A emigração é um flagelo por quanto resulta de uma total incapacidade política, do País e da Europa, de proporcionar às populações vidas dignas e cheias, de um desperdício do esforço, empenhamento e imaginação de quem tem que procurar a felicidade noutros países. Mas esta é uma geração de emigrantes qualificados, que poderão aproveitar de uma forma mais construtiva a inevitabilidade do desembarque em tantos cais e tantos longes quanto os que a imaginação de Álvaro de Campos tanto queria sentir.

 

A resistência faz-se reagindo, com o combate da poesia, da pintura, do teatro, da música, de todas as artes que nos empurram para diante, que nos mostram mais do que aquilo que temos à nossa frente, do que nos atrofia e nos entristece. As saudades farão os navios regressarem, nunca os devem impedir de partir.

 

Ode Marítima

 

Teatro Municipal São Luiz

 

(...)

Ah, seja como for, seja para onde for, partir! 
Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar, 
Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstracta, 
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas, 
Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais! 
Ir, ir, ir, ir de vez! 
Todo o meu sangue raiva por asas! 
Todo o meu corpo atira-se prà frente! 
Galgo pla minha imaginação fora em torrentes! 
Atropelo-me, rujo, precipito-me!… 
Estoiram em espuma as minhas ânsias 
E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos!

(...)

 

Álvaro de Campos

 

Do apelo aos consensos

 

Se ainda houvesse dúvidas quanto à responsabilidade deste governo em tudo o que tem sido a chamada política de austeridade imposta pela Troika, a forma como Passos Coelho e os comentadores que a si próprios se apelidam de técnicos reagiram ao manifesto dos 70, demonstra bem que os apelos aos consensos são apenas retórica vazia. Quando eles existem e seriam bem aproveitados para uma negociação séria com os nossos credores, cai a máscara ao Primeiro-ministro e a esta maioria, que solta todos os pseudojornalistas para uma campanha política mascarada de informação contra tudo o que faça pensar numa alternativa ao estado de penúria perpétua.

 

António José Seguro poderia aproveitar esta evidência, mas nem isso é capaz de fazer.

 

Não é a Troika, a crise ou Os Mercados que nos votam à miséria e ao empobrecimento, é mesmo a ideologia de quem está no poder. As eleições servem para isso mesmo - julgar quem nos governa. Aproveitemos pois a oportunidade das eleições europeias para rejeitarmos esta Europa a várias velocidades, que não respeita as pessoas, que nos levará, a passos largos e seguros, para  a negação do regime democrático. Aproveitemos pois para dizer que não queremos mais esta direita que nos governa, aqui e na Europa.

 

You Gotta Be

 

 Des'ree

 

Listen as your day unfolds
Challenge what the future holds
Try and keep your head up to the sky
Lovers they may cause your tears
Go ahead release your fears
Stand up and be counted don't be 'shamed to cry

You gotta be, you gotta be bad
You gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know love will save the day

Herald what your mother said
Read the books your father read
Try to solve the puzzles in your own sweet time
Some may have more cash than you
Others take a different view
My, oh, my
he-eh-y 

You gotta be bad
You gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know love will save the day

Time asks no questions it goes on without you
Leaving you behind if you can't stand the pace
The world keeps on spinning can't stop it if you tried to
The best part is danger staring you in the face

Remember, listen as your day unfolds
Challenge what the future holds
Try to keep your head up to the sky
Lovers they may cause your tears
Go ahead release your fears
My, oh, my
He-ey-y

You gotta be bad
You gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know love will save the day

You gotta be bad
You gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know love will save the day

Got to be bold, Got to be bad
Got to be wise, no never sad
Got to be hard, not too too hard
All I know is love will save the day

You gotta be bad
You gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
Oooh, yeah yeah yeah

 

Destino

 

 

David Jensz

Life Cycle

 

Tudo o que acaba tem em si mesmo um começo

num imparável ciclo de luz e de sombras.

Fins e princípios como gémeos inseparáveis

e desavindos em perfeita harmonia

na incerteza ou determinação humana do ser.

 

Do tão longínquo futuro

 

 Almeida

 

 

É possível, até mesmo muito provável, que Francisco Assis tenha razão e que a liderança do PS não esteja em causa caso o resultado das eleições europeias seja desastroso. Que o vai ser já todos perceberam e a desvalorização das mesmas serve para distrair do significado da adivinhada derrota do PS. Na verdade não há qualquer esperança de renovação na cúpula do maior partido da oposição. Mas será que faria qualquer diferença? Qual a ideia do PS para o País, dentro do quadro europeu?

 

Desde há largos anos, se não desde sempre, ouvimos falar das famosas reformas estruturais, sem que ninguém explicite o que significa exactamente essa expressão – mais uma vez porque, provavelmente, não significa nada. E repito a pergunta – qual a ideia do PS para o País, independentemente do quadro europeu?

 

A propósito da promessa de António José Seguro quanto à reabertura dos tribunais que agora são encerrados, tal como aconteceu na altura do fecho das maternidades e das escolas – alguém se lembra? – porque os vai reabrir? Alguém ainda acredita, para além de Pinto Monteiro, que são os tribunais, os departamentos de finanças, os hospitais ou as escolas que prendem os cidadãos às aldeias, vilas ou cidades de província? As alterações demográficas, sociais e económicas alteraram a distribuição da população deslocando-a para o litoral. A reorganização administrativa não se faz nem se vislumbra qualquer capacidade dos maiores partidos para afrontar os aparelhos partidários de forma a romper com os interesses instalados.

 

Só a criação de emprego e o desenvolvimento do interior trará incentivos ao enraizamento das populações que, por seu lado, necessitarão de serviços de todo o tipo. Não quero obviamente dizer que se votem os cidadãos ao abandono e à solidão, esvaziando todos os locais de serviços públicos. Mas também não é o facto de os manter a funcionar sem o mínimo de condições para que sejam de qualidade que fará a diferença. Aliás como nunca a fez, como são exemplo os concursos públicos que abrem e fecham sem concorrentes, para não falar da iniciativa privada que, simplesmente, não existe.

 

Estamos a assistir a um desmantelamento daquilo a que nos habituamos a considerar direitos e que, como esta maioria não se cansa de propagandear, não o deveriam ser com argumentos como - a sociedade que construímos é irreal sendo os motivos a suposta injustiça que se faz às novas gerações que sustentam a saúde, a assistência social e as reformas das mais velhas; os funcionários e de tudo o que é serviço público são gastadores de dinheiro e não têm qualidade. Isto ao invés de investir na competência, no rigor e na eficiência, atraindo os melhores e mais competentes, reduzindo em número criteriosamente, usando o mérito para contratar e promover, o demérito para dispensar. Mas aquilo a que esta maioria nos dá direito é a um empobrecimento generalizado, a baixos salários, desqualificação, requalificações que significam despedimentos, ausência de apoios sociais, etc.

 

Onde estão as propostas de António José Seguro para a reforma do estado? É que o investimento na qualificação, na ciência, nas universidades, nas novas tecnologias, nas energias alternativas, foi coisa do tão detestado e megalómano José Sócrates. Neste momento o PS apresenta um candidato a primeiro-ministro muito pouco feroz e bem falante, cuja melopeia adormece e resigna, cuja a cabeça é usada para um penteado certinho, cujo pensamento é árido e faz secar qualquer esperança no futuro próximo.

 

Cavaco Silva já deu o mote - tudo vai continuar, por muitos e longos anos.