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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Cheque ensino

 

Continua o governo a desmantelar os serviços públicos, agora o de educação. O estado vai financiar ainda mais o sector privado no ensino obrigatório. Enquanto nos entretemos com as patéticas e lamentáveis telenovelas de quem disse e de quem fez, em desmentidos e suspeições vergonhosas, vai-se concretizando a agenda ideológica desta maioria.

 

Onde está a posição do PS a esta medida? Que fazem os porta-vozes do maior partido da oposição em relação a esta revolução silenciosa, totalmente contrária ao que defendeu em governos anteriores?

 

Muita gente não entende bem o que faz Sócrates na sua prédica semanal, na RTP. Talvez o seu propósito seja simplesmente lembrar à população que o PS governou, defendendo os seus governos e defendendo-se a si próprio. António José Seguro esqueceu-se de 6 anos de história do PS. Que tente afirmar a sua liderança mostrando que é diferente, é natural, que nunca sequer refira o que de bom o PS fez nas anteriores legislaturas é significativo, dando uma imagem de um líder pouco recomendável.

 

As pessoas podem estar alheadas, revoltadas, cansadas, mas percebem a diferença entre aqueles que lutam pelas suas ideias e os que se escondem atrás de uma retórica vazia, esquecendo-se do passado para sobreviverem.

 

Ruídos politicamente relevantes

 

Em relação à alegada negação de medicamentos inovadores por parte dos IPO, por motivos economicistas, convém que se esclareçam algumas coisas:

  1. A Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica (CNFT) foi criada com o objectivo de elaborar um Formulário Nacional de Medicamentos, actualizá-lo, elaborar normas de utilização dos medicamentos incluídos e promover a sua utilização no SNS.
  2. Dessa Comissão fazem parte, entre outros, Médicos e Farmacêuticos representantes de várias unidades hospitalares e um representante da Ordem dos Médicos - Dr. José Manuel Silva (o Bastonário).
  3. A dita Comissão já elaborou uma lista de medicamentos a serem utilizados no cancro da próstata da qual não consta o medicamento de que se fala (abiraterona), segundo um comunicado do Ministério da Saúde.
  4. Se, como diz o Bastonário, o medicamento tem eficácia comprovada e consta das guidelines internacionais, e das normas de orientação clínica da Ordem dos Médicos (as quais não se encontram disponíveis no site), porque não está na lista da CNFT (não a encontrei acessível na internet)?

Este é um assunto demasiado importante para que subsistam dúvidas. Uma coisa é a racionalização dos custos e a reorientação das prioridades, outra muito diferente é negar aos doentes a melhor, indicada e mais adequada terapêutica. Mas será de facto esse o caso?

 

Cismas

 

As fronteiras existem mesmo para ser ultrapassadas. Sejam vermelhas, amarelas ou incolores, não há palavras irrevogáveis nem limites distinguíveis. É tudo muito movediço.

 

É como as memórias traiçoeiras e atraiçoadas. Instabilidade política? A maior está precisamente dentro do governo. Sim, porque a oposição é mesmo só uma palavra, diariamente revogável.

 

Meu amor, meu amor

 

 

Alain Oulman & Ary dos Santos

canta Amália Rodrigues

 

Meu amor meu amor

meu corpo em movimento

minha voz à procura

do seu próprio lamento.

 

Meu limão de amargura meu punhal a escrever

nós parámos o tempo não sabemos morrer

e nascemos nascemos

do nosso entristecer.

 

Meu amor meu amor

meu nó e sofrimento

minha mó de ternura

minha nau de tormento

 

este mar não tem cura este céu não tem ar

nós parámos o vento não sabemos nadar

e morremos morremos

devagar devagar.

 

Estrias

 

Number one

Jackson Pollock 

 

 

Acerto as cartas pelas estrias

papel engelhado de mil e umas tardes

esfregando olhos dedilhando raízes

desapego e paixão envelhecidas.

As marcas na madeira como escrita

de vidas sem história.

Aliso as mantas pelos dedos

que se multiplicam a uma velocidade

com que não desmancham os vícios da dor.

Livres como flores agrestes em ofertas de paz.

 

Decantar

 

Robert Malte Engelsmann 

 

Corto o cabelo em frente ao espelho

primeiro uma ponta uma sobrancelha

o despontar da orelha o nariz que se entorna.

Aparo e vou desgastando numa procura da simetria ideal.

Corto o espelho na ponta do nariz

uma sobrancelha a mais um cotovelo que se inclina

vou cortando o corpo na direcção que se destina

a mais abstracta pintura em que se mistura.

De aparas e segmentos desprezados recomponho a figura

a um canto que é mesmo nesse esconso desencanto

que me revejo

e me decanto.

 

Dentro de casa / A gaiola dourada

 

Sempre que vou ao cinema prometo a mim própria que irei muito mais vezes, tal é o prazer de me sentar na sala escura e assistir às histórias que se desenrolam à minha frente. Misturo-me com as personagens e esqueço-me de mim. É uma realidade por vezes mais presente que a vida que arrastamos sem nos apercebermos de que se não repetirá nunca.

 

Dentro de casa, de François Ozon, e A gaiola dourada, de Ruben Alves, são dois excelentes filmes neste Agosto de temperatura pouco veranil. O primeiro, uma pequena perversa parábola sobre o espreitar pela janela, o desejo do que está para lá da nossa vivência, as emoções que roubamos. O segundo, uma ternurenta comédia e uma reflexão bem-disposta sobre a emigração portuguesa em França e a segunda geração.

 

 

Dentro de casa (Dan la maison)
 
 
A gaiola dourada (La cage dorée)
 

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