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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Um dia como os outros (128)

 

(...) Isto, sim, é a falência do Estado. A falência pura e simples, se de facto não há dinheiro para cumprir os compromisso básicos (apesar da "ajuda" externa), ou, alternativa ou cumulativamente, a falência do Estado de Direito, na medida em que o governo delibera desrespeitar a Lei Fundamental e quem está legalmente incumbido de a fazer respeitar. Governar o país dentro da legalidade está acima das possibilidades desta gente.

 

Porfírio Silva

 

Mousse de chocolate

 

 

Há 24 anos. Conseguia, finalmente, satisfazer a minha curiosidade e olhar para o rosto do meu filho. Durante 9 meses imaginara como seriam as suas feições, se parecido com o pai, se parecido com a mãe. Mas ele parecia-se muito a um daqueles bonecos que as miúdas gostam, os bebé chorão. Perfeito, sereno, chorava para mamar e eu, mãe inexperiente, não sabia a quantidade de leite que precisava, como lhe dar banho, pois o medo de o deixar escorregar era imenso, como o adormecer, como o vestir.

 

Sempre comeu maravilhosamente, tudo o que lhe dava. Lembro-me que a 1ª papa estava horrenda, espessa, com grumos. Depois das primeiras colheradas, que ele lambeu sem se queixar, decidi fazer outra, que ele comeu com a mesma solenidade com que nos olhava de cada vez que queríamos que repetisse as gracinhas típicas dos bebés. Falou tarde, perfeita e pausadamente. Adorava brincar com jornais e fazer filas intermináveis de sapatos. Era delicado e rústico.

 

Comprar-lhe uma prenda era sempre uma aventura. Nunca fez listas de desejos nem ambicionou brinquedos quando passava por eles. Gostava de um e de um só - o Woody, depois uma pistola de cowboy, a seguir tudo o que dissesse respeito ao Astérix, posteriormente o Tim Tim. De tempos a tempos passava a outra fase.

 

Portanto atirei-me hoje a confecção de uma mousse de chocolate, de que ele gosta, que já tinha experimentado algumas vezes mas que me saía sempre mal. Ou porque deslaçava, ou porque as quantidades dos ingredientes não estavam bem, ou porque cozia as claras em castelo.

 

Ingredientes:

6 ovos

chocolate para culinária - 200g

300g de açúcar (para quem é menos guloso, 200 ou 250g chegam)

200ml de leite

uma pitada de sal

 

Para dentro de um tacho parte-se o chocolate aos bocadinhos, deita-se o leite e o açúcar e leva-se ao lume, mexendo sempre até o chocolate derreter por completo e ficar um creme, retirando-o imediatamente do calor. Separam-se as gemas das claras, misturam-se bem as gemas numa tigela e incorporam-se com cuidado no creme. À parte batem-se as claras em castelo bem firme, com uma pitada de sal, e vão-se juntando ao creme, que deve estar apenas morno, sem bater. Vai ao frigorífico cerca de 2 horas.

 

Ficou uma delícia. E ele comeu com gosto, delicadamente, como ao longo dos seus 24 anos.

 

Sílabas

 

Almada Negreiros

Partida de Emigrantes

 

O meu país divide-se em sílabas

- por - ele tudo de nada acontece. Afunda-se

encolhe-se enruga-se esvazia-se em gente

mole e arrastada – tu - e eu manchamos a terra.

O meu país divide-nos e abre

os rios por onde se espalha e cresce

em múltiplas sílabas de dor – gal - de fim

afinal

Portugal.

 

Fragile

 

Sting

 

If blood will flow when flesh and steel are one

Drying in the colour of the evening sun

Tomorrow's rain will wash the stains away

But something in our minds will always stay

Perhaps this final act was meant

To clinch a lifetime's argument

That nothing comes from violence and nothing ever could

For all those born beneath an angry star

Lest we forget how fragile we are

 

On and on the rain will fall

Like tears from a star like tears from a star

On and on the rain will say

How fragile we are how fragile we are

 

On and on the rain will fall

Like tears from a star like tears from a star

On and on the rain will say

How fragile we are how fragile we are

How fragile we are how fragile we are

 

As vozes dos outros (8)

 

(...) Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida. (...)

 

Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980.- 5.

 

As vozes dos outros (7)

 

(...) Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.

a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.

b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios.

Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver. (...)

 

 

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.