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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Nada mal

 

 

Não foram de couve mas de brócolos. Depois de cozidos em água e escorridos, foram a fritar em azeite, alho e bocadinhos de bacon, aos quais se juntaram 3 bolinhas de pão seco, raladas no 1-2-3. Acrescentou-se um pouco de água, só mesmo para demolhar ligeiramente o pão, sal e pimenta.

 

O coelho foi assado na marinada, acamada com cebola às rodelas fininhas e tomate maduro sem pele. Cerca de 1 hora no forno, regado com um pouco de azeite e xarope do ácer, é mesmo a única forma de deglutir o coelho.

 

A sobremesa da semana foi uma tigelada. Na verdade não se comeu nada mal.

 

Caricatura de Passos Coelho daqui.

 

Ruir por dentro

 

 

Também no Público de hoje se publica uma entrevista com Anselm Jappe, que tem uma abordagem em relação à lógica de trabalho, tal como a entende o sistema capitalista, que eu acho muito interessante. Se bem compreendi, a ideia de trabalho medido à hora independentemente do serviço que se presta, a competitividade e a produção em massa, em que se cria a necessidade de consumir e que precisa desse consumo, está a reverter, porque a evolução tecnológica e o aumento consequente do desemprego conduz a um menor consumo. Ou seja, o capitalismo está a ruir por dentro.

 

Qual a solução? Ele próprio não sabe. Mas o facto de haver quem questione esta lógica perversa, do produzir mais e mais, sem ter em conta o significado do trabalho como resposta às necessidades da sociedade, desde a manutenção à assistência, já é uma lufada de ar fresco.

 

Insónias

 

Nada como começar o dia com o Inspector Jaime Ramos, as insónias, minhas e dele, e a forma como as vencemos - eu a ler as suas aventuras, ele a cozinhar tortilha de chouriço e batatas salteadas, com uma nuvem de colorau. Também conversamos sobre ideias para o almoço, entre elas a novidade de um arroz de sardinhas.

 

O mais engraçado é que o café da manhã de domingo, hoje numa esplanada aquecida pelo sol que ilumina estes dias de luto, o Público tem precisamente uma entrada sobre a culinária de Jaime Ramos e sobre "O coleccionador de Erva". A ideia de se fazer um livro com as receitas de Jaime Ramos parece-me fantástica. Também Maigret nos brindou com uma colectânea de receitas, essas mais pesadas que as de Jaime Ramos. Cá em casa experimentámos a brandade de bacalhau e mouclade dos mexilhoeiros.

 

O arroz de sardinha terá que ficar para outro dia. Entretanto vou assar um coelho, que já está a marinar, com tempero de sal, louro, pimenta, alho, alecrim, tomilho, vinho e um golpe de vinagre. Ainda não sei bem como acompanhar o assado, mas estou a pensar em algo do tipo migas de couve. Logo se verá, conforme a inspiração do momento.

 

Tijoleira

 

 

Viu toda a sua vida naquela tijoleira que cobria o primeiro e segundo andares, nas mobílias rústicas que combinavam madeira de castanho com sobriedade e segurança, uma rectidão à sua volta a irmanar com a moralidade protestante, nos percursos directos e triunfantes de estudantes dedicados e filhos sem mácula nem desvios, naquela fé de burguesia instalada em como tudo correrá bem porque as regras foram escrupulosamente cumpridas, porque o amor existia em qualidades e quantidades apropriadas, porque a honestidade era o esteio da vivência e a comunidade familiar era uma superfície mais ou menos lisa a barrar tumultos feios e decrépitos.

 

Tudo se desconjuntava e a razão não a compreendia, pois se o universo seguia uma lógica, ela não fora ignorada. Pois se nunca os sonhos tinham tido a ousadia de se sobreporem à realidade, se a mediania bem pensante e de claros e escuros bem definidos tinha atapetado o quotidiano, se a chuva se defendia com gabardine e os ombros se descobriam com as temperaturas tórridas, não se explicava a depressão insidiosa e larvar perante o inusitado do desencontro entre o que se espera e o que realiza.

 

Tudo começava a cheirar a mofo e a desatenção, enquanto se enrolava e aconchegava à sua voz, cada vez mais silenciosa e desbotada. Reduzindo a superfície e o volume talvez as ondas provocadas pelo seu próprio corpo desaparecessem e deixassem de despertar magnetismos incoerentes no arranjo das desconhecidas dimensões que acrescentam o tempo e o espaço.

 

Um dia como os outros (127)

 

(...) o que vale a pena é chamar a atenção para o facto de, ao acusar o tc de todos os males, o primeiro-ministro estar obviamente a acusar quem pediu a intervenção do tc.

ou seja, as instituições democráticas por excelência, a começar pelo presidente da república, que submeteu a apreciação da inconstitucionalidade, arguindo por esta, três normas do orçamento no valor de cerca de 1500 mil mihões. o tc concordou com o presidente em duas delas, que perfazem mil milhões. ou seja, de acordo com o discurso de passos, o presidente é, com o parlamento (os deputados que solicitaram a apreciação do tc) e o provedor de justiça, responsável pela crise política e pelo facto de o país estar numa situação 'muito mais difícil'. (...)

 

Fernanda Câncio

 

Da vingança do governo

 

O discurso do Primeiro-ministro não só reescreveu a história como indicou a linha política que sempre foi a sua e que agora assume, culpabilizando o Tribunal Constitucional - reduzir as despesas nas áreas da saúde, da educação e das prestações sociais. Não esclareceu o significado da decisão, mas podemos aguardar despedimentos e redução permanente de remunerações na função pública.

 

Entretanto o líder do PS, o maior partido da oposição, que tem passado os últimos dias a pedir eleições para assumir o poder, resguardou-se não sei bem para que altura e, em vez de responder de imediato ao discurso vingativo e ressentido de Passos Coelho, fez-se substituir por João Ribeiro que, independentemente do respeito que nos merece, não é o candidato a Primeiro-ministro.

 

De facto estamos encurralados entre um governo de desgraça nacional e a futura incapacidade nacional. Entretanto, Sócrates aproveita para fazer política,  arrasando a estratégia do governo.

 

Da salvação

 

Numa coisa estou de acordo com António José Seguro. O PS só deve ir para o governo após eleições. Governos de salvação nacional não me parecem a solução. Ou este governo se mantém ou vamos para eleições.

 

Pequena parte

 

Ninguém pode acreditar que o governo não tinha preparado a previsível opinião do Tribunal Constitucional. Mesmo que esperasse o melhor, tinha que ter estudado o pior cenário. Colocar a hipótese de que não havia noção deste desfecho, é passar um atestado de ainda maior incompetência a este Primeiro-ministro, a esta maioria governamental.

 

É claro que a estratégia é culpar tudo e todos do que se está a passar. O que está errado é a existência de um Tribunal Constitucional, de uma Constituição, de um povo português e de um povo europeu que não se comportam como Vítor Gaspar observa nos modelos que projecta. Ou seja, o governo não se demite e tenta fazer crer que a seguir virá o dilúvio.

 

É deste tipo de irresponsabilidade e de cegueira que não precisamos. António José Seguro espreita a sua oportunidade. Estamos rodeados de políticos que não se apercebem do todo, só vêm a sua pequena parte. Se houver eleições agora, a abstenção é capaz de vencer, quase com maioria absoluta.