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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Até quando

 

Jochen Hein: see II 

 

Levantamos o corpo numa penitência diária

de quem ignora ao que regressa

não sabemos parar este irremediável aperto

do tempo esta camisa de ferro a que nos comprometemos

obrigações que só a nós amarrámos mas

que outros sentem secretamente.

Levantamos os olhos da terra para onde

queremos mergulhar mítico lugar de alimento

e paz onde o deserto das casas e das ruas não assusta

mas comove. Recolhemos a vontade aonde ela já não existe

reinventamos em cada segundo a energia que move

músculos e engole a funda tristeza da desesperança.

Até quando.

 

Aproxima-se uma tempestade de silêncio

 

Ulla Gmeiner:

rauschende stille/roaring silence

Poema de: Porfírio Silva

 

Aproxima-se uma tempestade de silêncio.

As palavras e as bocas desencontraram-se

na poeira do mundo. A única aresta do tempo

onde passados e futuros se encontram,

a tua carne, arde. Essa linha arde, desde esta tarde,

na recusa da tua memória. Há uma terra

repleta, há uma terra deserta

e entre uma e outra um oceano de bocas

fervilham pelo mundo sem que nada aconteça.

Aproxima-se uma tempestade:

sobre esta colina onde vivo abate-se um alvoroçado

silêncio. Palavras e bocas tresmalhadas

tapam o sol e a lua:

chegou o tempo de um eclipse parecer uma promessa.

 

Um dia como os outros (126)

 

(...) Mas, convenhamos, é Gaspar o maior culpado? Obviamente que face aos resultados das suas acções não poderia ficar nem mais um segundo no Governo, mas foi ele quem disse que mesmo que não estivéssemos sujeitos a este memorando de entendimento o iríamos aplicar? Foi ele que disse que se devia ir para além da troika? É ele o maior responsável por uma política que o melhor horizonte que tem para nos apresentar é um desemprego de 18% para 2016?

Foi ele quem definiu uma meta que consiste em destruir uma inteira geração através duma austeridade sem perspectivas? Foi ele quem definiu uma política, que agora não há ninguém que não saiba, provocou que todos os sacrifícios, todos os cortes, todas as desgraças provocadas tivessem sido em vão? Foi Gaspar que condenou os nossos filhos, sobrinhos e amigos a emigrar definitivamente pois o País nada lhes terá para oferecer nas próximas décadas?

Não, não foi ele. Foi o primeiro-ministro. E existisse sentido de Estado, conhecesse Passos Coelho o verdadeiro estado do País, entendesse a enormidade das suas opções e o primeiro-ministro pediria uma audiência ao Presidente da República e faria também o evidente: apresentaria a sua imediata demissão.

A dimensão da tragédia que nos foi apresentada é demasiado brutal para que tudo fique na mesma. Nós já a conhecíamos, mas pela primeira vez o Governo deu a entender que finalmente tinha percebido. Convenhamos, era, aliás, impossível, desta vez, não perceber: os números, sobretudo os do desemprego, são demasiado estridentes.

Falhou, falhou tudo. O fracasso é completo e total. Um Governo que precisa de aqui chegar para perceber que errou não pode permanecer em funções. Um Governo que foi o primeiro agente de destruição duma geração, dum tecido económico, de ter criado uma situação social insustentável, um nível de desemprego que destrói uma comunidade, não pode agora vir dizer que vai mudar (nem essa intenção tem, claro está). Um Governo que espalhou e aplaudiu todo o napalm económico e social que vinha da Europa não tem a mais pequena capacidade de negociar uma outra política. (...)

 

Pedro Marques Lopes

 

Camille Claudel

 

 

 

 

 

Bruno Nuytten

 

 

 

 Bruno Dumont

 

 

Vi o primeiro filme, com umas soberbas interpretações de Isabelle Adjani e Gérard Depardieu. Fiquei fascinada com Camille Claudel e com as suas obras, a loucura, a obsessão pela terra, pelas mãos, pela criação, o amor-ódio por Rodin e a traição do irmão. Mal posso esperar por esta versão.

 

Das reformas estruturais

 

Acho muito interessantes os anúncios das já feitas e das ainda por fazer reformas estruturais. São palavras na moda que não querem dizer absolutamente nada. Uma das áreas que se está sempre a reformar é a função pública. Agora fala-se em redução dos funcionários públicos. Não tenho nada contra. Conheço imensos funcionários públicos que não trabalham, que têm o seu emprego mais ou menos garantido, que se queixam todos os dias de todos os males do universo e não mexem uma palha para os melhorar. Aliás como muitos funcionários privados. Mas as rescisões que se vão iniciar serão com base em que escolhas? Quais os funcionários a dispensar? Os que não produzem e boicotam ou aqueles que têm contratos a 1 mês, renováveis ou não, que estão a recibos verdes? E estará o governo preparado para pagar bem e dar condições aos melhores quadros, de forma a ter uma função pública moderna, eficiente e ao serviço dos cidadãos?

 

Todos sabemos que o resultado desta maravilhosa reforma estrutural vai ser um estado mínimo e deficiente, burocrata, lento e medíocre. E de mais um exército de desempregados.

 

Mais de 24 horas

 

 

Apesar de meio anestesiada, pois as declarações do governo já não me espantam, começo a contar as horas de espera pelo pedido de demissão do ministro Vítor Gaspar.

 

Depois de ouvir o Bloco Central, em que Miguel Frasquilho tenta assacar a responsabilidade à Troika de não se ter alterado o rumo das medidas de austeridade, defendendo que deveria ter sido a Troika a inflectir o caminho, até pelo bom comportamento, aliás exemplar, do povo português, eu estou totalmente em desacordo. É ao governo, à Assembleia da República e ao Presidente que se devem assacar as responsabilidades. Em vez de aluno exemplar, o que esperávamos era que o governo defendesse o povo, demonstrasse que esta condução política não servia, que este tipo de medidas eram contraproducentes.

 

O problema é que este governo, este primeiro-ministro e este ministro das finanças queriam estas medidas, assumiram como deles esta política, comungam desta ideologia, foram até para além do que a Troika preconizava. Por isso acho inqualificável as tentativas que agora se fazem para branquear aquilo que foi opção do governo e da maioria.

 

Não foi a Troika que impôs, foi o governo. E o que mais me assusta é que não se vislumbra qualquer desanuviamento nos anos futuros, nos muitos anos que se avizinham. Onde está o Presidente? De que está à espera para, em segredo ou através do facebook, forçar a demissão deste governo? Tente encontrar outro com este Parlamento e, caso não seja possível, convoque eleições legislativas?

 

Triste, cinzento e revoltado

 

i online

 

O governo soma e segue e continua com a incapacidade de cumprir todas as metas a que nos obrigou, depois de ter tomado todas as medidas adicionais que empobreceram e empobrecem o país, aumentam o desemprego e reduzem a esperança.

 

É um governo para lá de inacreditável, mas o que mais me entristece e desampara é que o PS não se transforma nem se revela, numa inconsistência abúlica que explica as intenções de votos nas sondagens. Por outro lado, figuras do regime que se pretendem agora fora do mesmo, figuras das décadas democráticas, com responsabilidades nas decisões e opções tomadas, nem que seja pelo seu voto, tal como todos nós, que dizem defender a refundação ou a reforma ou a remodelação, tanto faz, do regime democrático, falam dos partidos, do parlamento, das eleições e dos governos como algo a que são alheios e que cheira mal. Afirmando ao mesmo tempo que não conhecem democracia sem partidos.

 

Querem a quadratura do círculo? E porque não fundarem outro partido? E porque não filiarem-se nos que existem e lutarem, dentro deles, para a tal moralização, rejuvenescimento ou renascimento da política? Têm ideias e ainda bem, mas começarem manifestos a falar da vivência democrática como de alguma coisa de que os protagonistas devem penitenciar-se, não augura nada de bom.

 

Triste, cinzento e revoltado, o povo assiste a quem tanto por ele fala, a quem tanto por ele reivindica, a quem tanto o quer salvar e afunda. Como sabem os manifestantes da vontade do povo? Como a medem, como a auscultam, quem lhes deu a responsabilidade de o representar?

 

E o Presidente da República, o garante do funcionamento das instituições, do alto da sua magistratura clandestina não cumpre o papel de provedor do povo, de último reduto a quem recorrer. Não existe.