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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Sem solução

 

Reafirmando tudo o que escrevi ontem, há outra dimensão, e uma grande e fundamental dimensão, do caso Miguel Relvas, que é a política.

 

A promiscuidade entre as empresas, os serviços do Estado, nomeadamente os de informações, as máquinas partidárias, e a comunicação social, o sentimento de impunidade de tantas figuras das nossas elites, as trocas de favores que fazem o mundo dos bastidores do verdadeiro poder, o confisco da independência decisória, a negligência e incompetência dos nossos representantes - governo, oposição, etc. - estão patentes em toda esta embrulhada que pomposamente se apelida de caso das secretas.

 

Se defendo que o estado de direito deve estar ao lado de qualquer individual cidadão, seja ele quem for, não posso de deixar de estranhar, tal como os dois Pedros do Bloco Central, a actuação do Primeiro-ministro, que ficou refém de Miguel Relvas, e da oposição, nomeadamente do PS, que se demitiu de ter qualquer relevância no importantíssimo papel de fiscalizador da acção governativa.

 

Tudo parece uma brincadeira de mau gosto. Juntando as afirmações de António Borges quanto à necessidade de uma nova e mais drástica redução salarial com a derrocada da Espanha, não sei mesmo que quantidade de terra teremos que cavar para chegarmos ao fim do túnel e que forças nos sobrarão para rasgarmos a providencial janela.

 

Malhas de crise

 

 

A crise por que estamos a passar, e neste momento estou a referir-me à económica e financeira, tem obrigado muita gente a reorganizar a sua vida e a redefinir as suas prioridades.

 

Neste momento, há cada vez mais pessoas a optarem pelas lancheiras. À hora de almoço, trocam-se receitas e discutem-se utensílios para se obterem opíparas refeições, saudáveis e a preços irrisórios. O faça você mesmo ganha adeptos. Tudo se faz em casa, desde agricultura de subsistência e biológica, a roupa por medida, não há como a imaginação para vencer o desespero.

 

E os negócios, principalmente aqueles que escapam aos impostos, os que alimentam a economia paralela, em pujante crescimento, aproveitam as oportunidades, levando à letra o nosso Primeiro-ministro. É só passar pelos centros comerciais para se verem banquinhas repletas de exemplares de cores garridas, de várias formas e tamanhos, mais sisudas ou mais folclóricas, que servirão de imediato como modelos às mais caseiras feitas por mãos habilidosas, a preços muito mais convidativos, fazendo passar os euros de mão em mão sem outras intermediações.

 

Malhas que a crise tece.

 

Das trituradoras

 

As figuras públicas, em Portugal, são trucidadas pelas fugas cirúrgicas de informações com que os processos, judiciais ou outros mas profundamente kafkianos, vão sendo do conhecimento geral, a conta gotas, para grande agitação da mole humana, para grande felicidade das caixas de comentários dos posts e das notícias online, dos fóruns de discussão das televisões e das rádios.

 

Miguel Relvas foi para o governo para domesticar a comunicação social, para servir de escudo ao primeiro-ministro, para servir de ponte aos autarcas do partido. É uma figura que personifica o que de mais negativo existe quando nos referimos aos aparelhos partidários. Mas isso não pode justificar o manancial de acusações, suspeitas e insinuações que, todos os dias, são gritadas e repetidas, quase como se fosse essencial que todos concluíssem pela vilania da pessoa em questão, sem qualquer possibilidade de defesa ou explicação.

 

Sócrates e os seus ministros foram e continuam a ser vítimas do mesmo. O pior que pode acontecer a alguém, seja quem for, é ser alvo de suspeitas que ficarão sempre em suspenso, nunca esclarecidas. Se há indícios de que Miguel Relvas actuou criminosamente, pois que se acuse, investigue, julgue e condene ou absolva. Mas este metralhar incessante é indigno e o resultado vai ser o mesmo que os diversos desfechos de processos que se esboroam e desacreditam a justiça, para além das pessoas enroladas por eles.

 

O estado de direito e a justiça para os nossos aliados e amigos deve ser idêntica à dos nossos adversários e inimigos. É uma amarga lição para quem, da parte do PSD, tanto contribuiu para o clima de caça às bruxas, acusações sem provas e delapidação da confiança na política e nos servidores públicos. Quem acredita na liberdade e na justiça não pode deixar de se revoltar com a constante delapidação dos valores da democracia, sinónimo de uma sociedade doente.

 

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