Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Inutilidades

 

 

 

A inutilidade do automatismo de almas e corpos

inúteis porque iguais a todas as partículas universais

movimentando-se caoticamente governadas por leis invisíveis

que exaltam eternamente a inutilidade filosófica do pensamento.

 

Trezentos mil

 

 

Os manifestantes contam-se às centenas de milhar, cem mil, duzentos mil, trezentos mil, começaram contra Mário Soares, Salgado Zenha, Cavaco Silva, Maria de Lurdes Rodrigues, Sócrates, continuam agora contra a Troika, Passos Coelho e Cavaco Silva. Jerónimo de Sousa rejubila com tantos milhares precisando até de recuar 32 anos, para abarcar a enchente.

 

Infelizmente é isso mesmo, estamos a recuar muitas décadas. Mas não só nos direitos adquiridos. Também no conveniente apagamento do que é uma democracia representativa, resultados eleitorais, no competente exaltar das forças trabalhadoras e da rua, a rua que o PCP, a CGTP e o BE tanto gostam de invocar para fazer cair governos democraticamente eleitos. Exactamente os mesmos partidos que em sede parlamentar tudo fizeram para derrotar o governo anterior, o tal mais à direita de sempre, como todos os governos de Portugal desde 25 de Novembro de 1975.

 

O sindicalismo velho e derrotado pelas circunstâncias, pela História e pel’Os Mercados continua, cego e surdo às avalanches da sociedade. Os trabalhadores já não usam calças com peitilho mas os sindicatos continuam a usar o mesmo espartilho. A consagração de Arménio Carlos foi apoteótica. E os próximos capítulos serão iguais aos que já passaram.

 

Nota: Vale a pena ler o Valupi.

 

O sentido do fim / The sense of an ending

 

 

O fim não tem que ter um sentido. Mas pode haver sentido para um fim.

 

Em busca do que falta nas nossas vidas ou do que não sabemos. Ou do que sabemos ou do que nos lembramos. A memória é apenas uma ajuda para o esquecimento activo. O que somos ou o que vamos sendo, sem honra nem glória. Aquilo que depuramos dentro do que nos foi tocando aceitando as derrotas manipulando as nossas próprias emoções. Tudo fazemos para sobreviver ao nosso próprio tédio.

 

Ao chegar perto do fim tentamos encontrar um fim para cada um. Para todas as roturas que encontrámos ou provocámos. Para todos os amores que sofremos realizados ou não. Para todas as derrotas as vergonhas escondidas as pequenas maldades os pequenos orgulhos as pequenas ambições as pequenas invejas as pequenas lealdades as pequenas razões de tudo.

 

Mas será preciso primeiro fazer essa viagem. Ir desenrolando o que aplicadamente fomos colocando em gavetas labirínticas talvez à espera de não ser preciso escancarar as janelas. Ou nem sequer ter consciência da sua existência.

 

 

Crespologia

 

Não se pode acusar quem relata conversas privadas em restaurantes e cafés, sejam sobre política, astros ou futebol, para depois vir pedir justificações a Vítor Gaspar. Os jornalistas sabem as regras que estão afixadas. Não vale a pena invocar o interesse público. Essa conversa dá sempre para o lado que se quer. É uma conversa de moucos. São mais uns limites que se ultrapassam. Limites que foram impostos por estruturas onde as regras são às claras. Mais tarde serão limites impostos por ditaduras.

 

Nada disto tem a ver com combate e afirmação de repúdio à política europeia, defesa da soberania ou recusa de protectorados alemães.

 

Veremos

 

Vemos na Grécia, Portugal. Porque será que achamos que somos diferentes dos gregos? Mas que Europa é esta em que Merkel se julga dona da União Europeia, do dinheiro da União Europeia, das políticas da União Europeia?

 

Vemos na Grécia, Portugal. E veremos outros países. Como eles começam a ver em Merkel outro Hitler. Como outros hão de ver.

 

Encontro incidental

 

Monet

 

Entrou no quarto com cara amarrada, levemente indisposta pela companhia. A miúda passou o tempo como ela imaginava que passaria, ao telemóvel. Telefonou a várias pessoas, entre familiares e amigos, a contar da sua entrada inusitada nas urgências, das dores e da operação, da cicatriz e dos repuxões, da má qualidade da comida e da simpatia da médica.

 

Entre as vítimas contava-se o namorado, um desgraçado escurinho e magrinho, com a indumentária de gueto exibida numa demonstração de arrogância de tribo, com um ar de preguiça e tédio que se impunha, avesso às várias tentativas de vitimização da companheira. Como as mulheres são manipuladoras, atrevidamente dramáticas, descrevendo e mostrando interiores doridos, ao que eles apenas são capazes de regurgitar que nooojjjooo. Mas o mais extraordinário foi o facto de, mal o rapaz ter desaparecido de vista, ter voltado aos telefonemas intempestivos, de longos minutos, a perguntar como estava a ocupar todos os segundos da vida dele. Isto até ao exacto momento anterior ao adormecimento.

 

Apesar de tudo, a carranca foi-se-lhe suavizando. Era uma miúda terna e divertida, com uma noção perfeita de que não deveria provocar a velha (com certeza que, para ela, era uma velha com cara de pesadelo). Não fez perguntas, não fez comentários, não fez nada que lhe acirrasse o desagrado. Dormia com o silêncio das almas jovens sem torturas, bem diferente do seu ressonar bastante audível, aquisição que muitos anos e muitos quilos lhe tinham somado, das suas insónias bravias e dos seus calores nocturnos, transpirados de desalento e de inúmeras ideias, que se esvaíam mal raiava o dia.

 

Foi quase como uma noitada antes de um qualquer evento científico, companheiras de uma noite, distâncias bem guardadas mas com o seu quê de cumplicidade, mesmo sem que a idade, o estilo e as ideias fossem diametralmente opostas. E seríam?

 

Demora

 

John Marin

 

 

Terei que saber reforçar os minutos que me sobram

pela angústia do conhecido.

Tenho que saber demorar as horas que não chegam

pela tácita compreensão da paciência.

Apresento-me à perícia

de quem repete diariamente gestos precisos

à avidez das inevitáveis dobras

de um tempo que demora a chegar

e tem pressa de partir.

 

 

A ortografia é a questão

 

 

Não concordo com o acordo ortográfico. Não percebo a necessidade, nem os pressupostos, nem o resultado deste acordo. Nesse aspecto comungo da opinião de Vasco da Graça Moura. Mas também suponho que tenha havido sempre ferozes e ilustres opositores aos vários acordos ortográficos que foram sendo absorvidos pela língua portuguesa e pelas várias gerações de portugueses. Este será só mais um.

 

Mas só nesse aspecto. Desde que haja legislação que nos obrigue, desde o início deste ano, a usar o dito acordo, mesmo que nos meus posts o não use, em tudo o que for oficial devo cumprir a lei. Eu e qualquer outra pessoa, nomeadamente Vasco da Graça Moura. Além de um inútil disparate, esta atitude é bem demonstrativa de uma certa cultura instalada – mal sai uma lei a primeira coisa a fazer é encontrar uma ou várias maneiras de a boicotar e não a cumprir. Será que Vasco da Graça Moura mediu bem a sua (e da Administração unânime) decisão? E se alguém resolver cumprir a lei, dentro do CCB? O que lhe vai acontecer? Se Vasco da Graça Moura quiser lutar denodadamente para alterar essa determinação, não me parece a melhor forma de o fazer. Para além disso, será que informou quem o nomeou dessa sua intenção?

 

Não partilho do coro de protestos pelo saneamento político de António Mega Ferreira. Cumpriu até ao fim o seu mandato e foi substituído. Foi uma nomeação política? Pois foi como terá sido a de Mega Ferreira. É da competência do poder político fazer essas nomeações. Mas o que me causa pena é ver que o PS, pela educadíssima e pausada voz do seu líder, em vez de fazer oposição política à concretização de uma ideologia retrógrada, conservadora, de desmantelamento das funções dos estado, mais precisamente as da saúde, educação e segurança social, de alienação de sectores chave para a soberania, de não acautelamento da liberdade e da independência da informação, do autoritarismo fiscal, etc., tenha escolhido esta bravata de Graça Moura para fingir que é oposição.

 

Nota: Aqui fica o esclarecimento. Pelso vistos, só a partir de 2014 o uso do acordo é obrigatório para todos.