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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Governança caritativa

 

Passos Coelho, ao fim de vários dias de silêncio, desmentiu a existência de um desvio colossal. A justificação para o imposto extraordinário não é verdadeira e, para além de não ser universal nem equitativo, este imposto preventivo afirma o inverso do que o PSD criticou no governo anterior e do que divulgou em campanha eleitoral. É um imposto injusto e, muito provavelmente, desnecessário.

 

O aumento médio dos preços dos transportes públicos em 15% são, ao contrário do que seria lógico e prudente, um desincentivo à sua utilização. O anúncio do encerramento de algumas carreiras, mais deficitárias e/ou com menos passageiros são também outro sinal da redução dos serviços assegurados pelo Estado.

 

Fica a promessa de passes sociais para os menos favorecidos. Não sei muito bem como se vão catalogar os menos favorecidos, nem qual o tecto dos rendimentos para se ser considerado menos favorecido. O ordenado mínimo? Arranja-se um cartão de menos favorecimento, um atestado, um carimbo, um medalhão?

 

Estes desfavorecidos portugueses terão o carinho do governo, beneficiando até da reutilização de medicamentos, segundo uma notícia saída há pouco tempo. Convém esclarecer bem essa ideia, pois a segurança das pessoas, mesmo sendo menos favorecidas, é uma preocupação partilhada até pela OMS. Mas nada parece desanimar os nossos caritativos governantes.

Um dia como os outros (92)

 

Começamos mal. Com "desvios colossais", que o são na versão do primeiro-ministro, mas podem não ser nas narrativas do ministro das Finanças e do Presidente da República e que depois não se detectam nas contas do Estado divulgadas para o primeiro semestre. (…)

 

(…) Eis que saíram as contas do Estado do primeiro semestre deste ano e o "desvio colossal" transforma-se em desvios explicados por padrões intra-anuais e regras contabilísticas. E os objectivos definidos pela troika são cumpridos com bastante folga . E isto mesmo sem o Governo ter adoptado as medidas do lado da despesa consagradas no Orçamento do Estado para 2011. (…)

 

(…) Este seguro contra surpresas, além de dificultar a vida orçamental em 2012, vai alimentar as resistências habituais aos cortes de despesa.


O que se tem passado nestes ainda poucos dias do novo Governo gera mais preocupação do que confiança. Há demasiadas acções marcadas por tácticas políticas que prejudicam os interesses do País. Há já demasiados casos de falta de coragem de tomar medidas com efeitos significativos em grupos específicos. Lançar impostos é fácil. (…)

 

Helena Garrido

 

Mas apetece

 

 

Mas apetece ouvir, falar e escrever dos e sobre os nossos artistas, os que melhor são e fazem. Como exemplo escolho o Teatro Meridional.

 

Não há peça deles a que tenha assistido que me tenha deixado desiludida. A imaginação com que tratam temas actuais, compondo textos imprevisíveis, rigorosos, absurdos, corrosivos, cómicos, a simplicidade dos cenários, depurados, minimalistas, o jogo de luzes e de sombras, a música e o excelente trabalho de excelentes actores, transformam os espectáculos em experiências memoráveis e difíceis de traduzir.

 

Em Especialistas, agora em cena (e até 7 de Agosto), o Teatro Meridional usa a sustentabilidade ambiental, centrada no problema da energia, para ilustrar aquilo que a nossa sociedade ocidental transformou na ditadura das linguagens dos divulgadores especializados em parcelas do conhecimento. A manipulação da informação é um facto, misturando nos discursos apelos aos instintos do consumismo, do misticismo, da especulação, da mesquinhez, do altruísmo e da ingenuidade, sob a capa da imparcialidade científica, económica, psicológica e moralizadora.

 

Um retrato contemporâneo, em que a preponderância dos Especialistas e a hegemonia da especialização, ao olhar apenas segmentos desligados de um corpo social, é incapaz de manter um cimento entre os vários sectores, de avaliar as necessidades, os valores, os anseios desse corpo, privilegiando uns em detrimento de outros para manter equilíbrios, tal como se vai afastando daquilo que é a escolha de todos para impor a opinião de alguns – a dos Especialistas que ninguém pode, sabe ou quer escolher.

 

Acresce ao excelente espectáculo o espaço e o ambiente de conforto e acolhimento, onde nunca falta café, chá, e até bolo, associado à preocupação de bilhetes com preços em consonância com estes tempos de crise.

 

Parabéns a todo o grupo do Teatro Meridional por mais este magnífico espectáculo.

 

Não apetece

 

 

Não apetece escrever sobre a realidade diária, sobre a frustração de certezas que se concretizam, das notícias que vamos ouvindo, murmuradas ou gritadas, de conhecidos ou familiares, envolvendo a falta de ética, de profissionalismo, de informação e de competência de alguns companheiros de profissão, que se aproveitam da fragilidade alheia, sem qualquer contemplação para os indivíduos e para o sistema.

 

Não apetece falar das privatizações a qualquer preço, dos aumentos dos preços dos transportes públicos, do cinismo dos responsáveis políticos, demonstrando à saciedade o calculismo e a desvergonha que foi a campanha e a manipulação anterior às eleições legislativas.

 

Não apetece ouvir o que se vai passando nas esferas de decisão política europeia, onde continuam a pontificar personagens como Durão Barroso, sem qualquer rasgo, visão ou simples ideia, arrastados por uma total incapacidade de olhar para além do seu próprio perímetro geográfico. A reboque dos acontecimentos, as cimeiras sucedem-se e vamo-nos agarrando à esperança de ainda ser possível acontecer alguma coisa que ilumine os responsáveis europeus.

Ser oposição / ser governo

 

Aplaudo vigorosamente as medidas do Ministério da Educação, aumentando a carga horária de Matemática e Português, à custa da Área Projecto e do Estudo Acompanhado que, embora boas ideias na teoria, pouco resultaram na prática. O mais interessante é que estas medidas já tinham sido aprovadas pelo anterior executivo e revogadas no Parlamento, pela coligação que englobava o PSD e o CDS. Não é interessante e esclarecedor?

 

Veraneantes leitores

 

Picasso: Joven mujer leyendo un libro en la playa

 

Há umas semanas, numa conferência durante a Feira do Livro do Porto, uma das senhoras da assistência justificava a diminuta compra de livros de poesia em Portugal com a falta de qualidade e o défice de leitores e de leitura. Discorreu sobre a quantidade de estrangeiros que, em férias e nas praias e piscinas, não dispensavam um livro, enquanto os portugueses nem o jornal liam.

 

Talvez por isso tenha estado mais atenta ao mundo da leitura banhista este ano. Aquilo que constatei, idêntico ao que já tinha constatado em férias anteriores, é que há raríssimas pessoas a ler, apenas jornais desportivos ou os tablóides, nas várias línguas em que eles são produzidos e distribuídos. Para além disso recordo-me que, há alguns anos, os locais de venda de jornais e revistas costumavam ter livros de bolso, também em várias línguas embora menos em Português, tendo chegado a comprar alguns policiais para me distrair. Neste momento, no sítio onde costumo veranear, não há um único posto de venda em que se reconheça qualquer coisa parecida com um livro, seja de que tipo for.

 

Concluo que eu e a referida senhora fazemos férias de verão em locais com características muito diferentes, e que a população que gosta de ler ocupa um nicho  paradisíaco e ... desconhecido, pelo menos para mim.

 

A praia em silêncio

 

Escultura de barco na praia de Stonehaven

 

Alguma coisa diferente na praia deste ano, alguma coisa de abandono, de melancólico, de apreensivo. Não as pequenas ondas de mar frio e brando, não a areia fina e limpa, não o vento que se levantava pelo meio-dia, não as cores vivas das bolas, dos fatos de banho, dos guarda-sóis.

 

Era o silêncio. A falta de gritos da criançada, a ausência das risadas da juventude, a inexistência dos pregões a oferecerem bolos, água, gelados, a música calada, os tagarelas mudos.

 

A praia cumpria-se, como em todos os Verões, mas neste mais triste, mais parada, mais apática, mais introspectiva.