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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Um dia como os outros (67)

 

(...) Não é por haver calor que há mais incêndios, mais grau, menos grau sempre ocorreram vagas de calor e nunca se assistiu a tantos incêndios apesar de os recursos para os prevenir, detectar e combater serem hoje bem mais poderosos do que aqueles de que dispunha no passado. A solução não passa por imaginar o regresso da população ao campo, por valas ou queimadas controladas ou por disparates como a limpeza das matas, como se fossem os pinheiros a única espécie vegetal a proteger.

 

A solução passa por uma economia do ambiente, por atribuir valor económico a actividades e produções desvalorizadas pelo mercado e que são indispensáveis ao equilíbrio ecológico. A solução passa por uma abordagem global integrando diversas políticas, desde a política agrícola às políticas sociais. A solução passa por uma reflexão séria em que em vez de se ganharem votos seja o país a ganhar o futuro.

 

O Jumento

Pontal

Marcelo Rebelo de Sousa disse-o agora mesmo, obviamente não desta forma: o discurso de Pedro Passos Coelho foi uma farsa. O líder do PSD sabe que não há qualquer justificação para uma dissolução da Assembleia da República até 9 de Setembro. Foi agressivamente populista e não disse nada de novo. O ataque ao PS por causa da Justiça é a perigosa continuação do inaceitável aproveitamento político do desabar de um dos pilares da democracia.

 

É claro que Vitalino Canas veio fazer o pas de deux com a dramatização da crise política.

 

A verdade é que a comunicação social quis fazer um caso político desta festa do Pontal, mas não conseguiu. Não há matéria nem sumo naquela espécie de comício. E além disso, ninguém está minimamente interessado.

O triângulo das Bermudas

 

 

Lembro-me de ler O triângulo das Bermudas há muitos anos e de pensar seriamente na hipótese de seres estranhos e fenómenos de outros mundos, tal como entrar em discussões apaixonadas sobre a identidade extraterrestre de Jesus Cristo.

 

É claro que os mitos vão sendo substituídos. Nos tempos que correm são muito mais interessantes os estudos sobre a vida humana de Jesus, o casamento com Maria Madalena, a substituição de Maria Madalena pelo culto da Virgem Mãe, etc.

 

Mas descobrir que os aviões e os navios desapareciam por causa de gás metano destrói todo o encanto do mistério e do romantismo do triângulo das Bermudas.

Meu caro amigo

Chico Buarque

 

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita

 

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

 

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

 

Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando e também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

 

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

 

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

 

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

 

É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

 

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa

 

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

 

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

 

Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

 

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco

 

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

 

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

 

A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus

Branco

Marlous Borm: sem título

 

Dias brancos tórridos

brancos como a cegueira de luz

tanta luz. O ar parado como o raciocínio

imóvel a surda incapacidade de compreender.

Não se notam os contornos dos sentidos

não se sentem as agulhas da tristeza.

O ar parado insuspeito de vida.

Presa do branco

de fios inúteis brancos espessos

de uma teia infinita.

Extremamente alto e incrivelmente perto

 

Oskar procura um cofre, procura o pai por toda a cidade de Nova Iorque, tentando calar a dor da ausência provocada pela morte deste no atentado às Twin Towers do World Trade Centre.

 

Oskar inventa ininterruptamente quando sente as botas pesadas, quando sabe que vai demorar muitas horas a adormecer, angustia-se com a hipótese de novos atentados e com o pânico, tenta equilibrar-se num mundo que se desequilibrou no momento em que os aviões embateram no betão, o fumo, o ruído, os gritos e a ausência, até de um corpo num caixão.

 

Jonathan Safran Foer escreve um livro deliciosamente triste, cheio de nódoas negras no corpo e na alma, atravessando os bombardeamentos de Dresden e de Hiroxima na 2ª Guerra Mundial e o atentado de 11 de Setembro nos EUA.

 

Um livro brilhante e comovente - Extremamente alto e incrivelmente perto - de nós.

A Justiça e o Supremo Magistrado da Nação

O caso Freeport continua a expor a indesmentível politização da justiça. Demonstrando uma inequívoca falta de princípios e embarcando no perigo que é a destruição do estado de direito, os líderes dos partidos políticos, em vez de se demarcarem das múltiplas tentativas de substituição ilegítima dos poderes legalmente exercidos, resultantes dos órgãos representativos consagrados na Constituição, aproveitam o que podem considerar uma vantagem na luta política. Não percebem que será uma vantagem de muito curto prazo e que esta situação é ideal para o germinar de projectos ditatoriais.

 

Tão ou mais grave que a promiscuidade entre a justiça e a política, caucionada pelos líderes partidários, está o silêncio do titular e dos candidatos ao cargo de Presidente da República. A justiça é um dos pilares do regime democrático. Parece-me tristemente significativo que nenhum dos candidatos tenha considerado este assunto merecedor da sua atenção.

 

Nota: ler Helena Garrido em Pior é possível.

Wish you were here

Pink Floyd

 

 

So, so you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skys from pain.
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

And did they get you to trade
Your heros for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
And did you exchange
A walk on part in the war
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here.
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears.
Wish you were here.