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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Ruído

O ruído está a tornar-se uma constante em todo o lado.

 

Nos cafés ouvem-se as vozes estridentes das donas de casa que contam as dores nas costas, os almoços de galinha de cabidela e a má educação dos netos para todos os comensais desprevenidos, que tentam, no seu canto, saborear a meia torrada e passar os olhos pelo jornal.

 

Entram crianças pequenas que gritam desenfreadamente sem que os queridos papás e mamãs os façam calar. Instalou-se na sociedade a noção de que as crianças não podem ser contrariadas, pelo que pulula a selvajaria e a prepotência dos pequenos ditadores, com o embasbacamento dos adultos demitidos das suas funções.

 

Os adolescentes e jovens adultos usam algumas palavras-chave para comunicarem, para além de alguns sons ininteligíveis, mas sempre a um volume exageradíssimo, talvez porque têm os orifícios auriculares ocluídos pelos auscultadores de um qualquer acessório musical.

 

Os ajuntamentos de claques futebolísticas, agora com a iminência do mundial de futebol, estão inundados daquelas horrorosas e ensurdecedoras imitações de instrumento musical, com um som absolutamente assustador.

 

Ainda não percebi se a quantidade de ruído serve para não ouvirmos os nossos próprios pensamentos, por depressivos, ou para não nos deprimirmos pela total ausência de pensamento. Qualquer das hipóteses é deprimente.

Fronteiras

 

Há uns dias li um livro que me deixou muito desconfortável. Não pelo que lá conta, que não é novidade, mas pela estranha semelhança que algumas características da sociedade retratada começa a ter com a nossa.

 

Miguel Pinto continua a história de Carlos Dominguez, um cirurgião cubano perseguido e preso pela polícia política do seu país por delito de opinião. A Fronteira mais Longínqua é protagonizada pelos informadores e desinformadores, espiões e contra-espiões, gente com medo e que suspeita do seu amigo, do seu parceiro, que não se sente seguro quando escreve, quando conversa, quando telefona. Carlos Dominguez só tem um desejo: fugir de Cuba. O livro lê-se de uma assentada, como se fosse de aventuras.

 

Em Portugal, no momento presente, começa a considerar-se normal falar em tom ameaçador dos emails que se trocaram, julgam-se e insultam-se pessoas pelo simples facto de defenderem o governo, o PS ou o Primeiro-ministro Sócrates, levantam-se suspeitas com base em conversas telefónicas, em algo que alguém comentou, que se ouviu na mesa do lado, em sms.

 

É vergonhoso como se tenta condicionar a livre expressão da opinião usando meios imorais, para depois invocar o interesse nacional, a honorabilidade, a defesa da honestidade e a denúncia dos corruptos.

 

Estamos a viver tempos perigosos. Não se olha a meios para atingir os fins. E os fins, mesmo que mascarados de nobreza de carácter, são apenas as razões dos que não sabem ou não são capazes de se respeitarem e de respeitarem a liberdade dos outros.

Sozinho

Caetano Veloso

 

Às vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado
Juntando o antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho os meus desejos e planos secretos
Só abro pra você, mais ninguém

Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela de repente me ganha?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

Nódoa de petróleo

 

Esta difusa e subterrânea ladainha que tudo vale a favor da pátria começa a corroer a liberdade com que avaliamos e debatemos as várias opções políticas, económicas e culturais. A Constituição não pode servir de escudo intransponível para umas coisas e de papel datado e descartável para outras.

 

As alterações fiscais, por muito prementes e inadiáveis que sejam, têm que ser tecnicamente bem feitas e por gente competente. Não é aceitável um Ministro desculpar-se com o os rigores da crise, pelo atropelo Constitucional.

 

Na verdade, a percepção de que a vida portuguesa se passa em áreas estanques e não miscíveis é cada vez mais aguda. Ao ouvir e ler repetidamente que há enormes buracos orçamentais no SNS perante a apatia e a falta de rasgo dos responsáveis governativos que, com o seu silêncio e incapacidade, fazem coro com os que, devagar devagarinho, vão incutindo na população a óbvia impossibilidade de pagar o estado social; ao assistir às escassas camadas de população que nem sequer põem a hipótese de ter os seus filhos a estudar no ensino público, como se este fosse feito para as classes sociais mais desfavorecidas, filhos de servos que serão servos, sinto alastrar uma nódoa de petróleo de inexorável perda de liberdade, do regresso do autoritarismo, da aristocracia dos eternos poderosos.

 

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