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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Um dia como os outros (47)

 

(...) Neste vale tudo (violação do segredo de justiça, conversas escutadas, câmaras e microfones escondidos, lixo vasculhado, fontes anónimas invocadas, afirmações sem provas, testemunhos falsos, interesses inconfessados), não apenas os fins justificam os meios - mas os meios tornam-se fins. Arendt viu nisso um grave sintoma da doença totalitária. A democracia passa a ser um corpo com próteses totalitárias. Esta mecânica tem os seus operadores em magistrados, inspectores, políticos, jornalistas, comentadores, colunistas, bloggers. Tudo feito, é claro, em nome da "liberdade de informação" e da "transparência". Os atentados à liberdade foram sempre cometidos invocando uma outra liberdade. Quem se opõe a este Big Brother mediático-jurídico é chamado de censor, inimigo do jornalismo livre, vassalo do poder, como se não tivessem poder os que dizem opor-se ao poder (deviam ler Foucault para perceber o que é o poder). (...)

 

Via Léxico Familiar

Autismo

Já todos percebemos que ninguém está minimamente preocupado com o facto do Primeiro-ministro ter dito ou não a verdade sobre o negócio da TVI. O que tem interessado a oposição, nomeadamente o PSD, é desgastar continuamente a imagem de Sócrates, pela manifesta incapacidade de o derrotarem convencendo os cidadãos de que tem uma alternativa para o país.

 

As audições na comissão de ética são inequívocas. Até Nuno Santos desqualifica Mário Crespo. Acredito que o país inteiro encolha os ombros perante tanto disparate.

 

 

Entretanto os sindicatos continuam a delapidar todo o seu já escasso potencial de defensores dos trabalhadores. As greves anunciam-se e fazem-se por aumentos salariais. Da função pública aos pilotos da TAP, passando pela CP e pela REFER, o autismo é total.

Agências de rating

É muito estranho o timing da agência Fitch, que piorou a classificação da dívida portuguesa. Na verdade não percebo nada de economia, mas se isto não é especulação e chantagem, parece muitíssimo. Por um lado elogiam o PEC, por outro sugerem que não vai ser cumprido e contribuem grandemente para essa possibilidade.

 

Cada vez mais esta obrigação de um estado, de um país, obedecer às agências financeiras, tomando as medidas que elas entendem e sujeitando-se a este tipo de análises e de má publicidade, me revolta. Isto não é melhorar a nossa economia. Isto é obedecer a uma lógica de ganhar dinheiro a todo o custo.

Ser poeta / Perdidamente

 

 

 

 

Poema de Florbela Espanca

Trovante

 

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente...

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

Que o amor não me engana

 

Zeca Afonso

 

 

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura

 

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?

 

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
 

Muito à flor das àguas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

 

Em novas coutadas
Junta de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

 

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia
 

Devassa e populismo

 

Jaime Gama fez bem ao lembrar os deputados que os computadores, os assentos, o espaço, os lugares, a responsabilidade, a representação são publicas, de todos nós.

 

Mas não há nada que justifique a invasão da privacidade seja de quem for. Portanto José Lello tem toda a razão e Jaime Gama apenas aumentou a confusão entre informação e coscuvilhice.

 

Viver de lado

 

Berkeley: tea and poetry

 

 

Falo-te dos poetas que o são em segredo
dentro da incandescência dos sentidos
que partilham um ser humano desprevenido.
Falo-te dos poetas que em silêncio saboreiam palavras
para que as ouçam no eco nos pensamentos de outros
nos gestos de quem se dá. Falo-te dos poetas dos tempos de luto
ou de sol manso que entre as cortinas do fumo da vida
entreabrem pequenos desenhos de futuro.
Falo-te dos poetas que não abrem a voz
não olham aos céus nem imaginam hipérboles brancas
sem luzes nem mãos esvoaçantes. Falo-te dos poetas que moram ao lado
que vivem de lado e adormecem a personagem que os acolhe
transformando a noite em poemas de olhos abertos.