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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Hibernação

Precisava que os dias tivessem muito mais horas e que cada minuto se prolongasse por 90 segundos. Amontoam-se obrigações, compromisso e ideias, que no turbilhão e na catadupa do trabalho se perdem por entre o tumulto da secretária.

 

Já tentei agendas, notas e papelinhos que inexoravelmente se perdem, esquecendo-me sucessivamente de consultar os plannings onde tento registar o que tenho para fazer.

 

Com tudo isso nem tenho tido ânimo de comentar os acontecimentos que não se esquecem de acontecer, mesmo que não haja acontecimentos ou que estes aconteçam por vontade dos criadores de acontecimentos, em vez de por existência própria.

 

Muito se fala do medo existente na nossa sociedade e, mais precisamente, do medo existente no PS. Pobre PS que tão medrosos militantes tem. Pobre PS que tão malheiros militantes tem.

 

Se isto é o retrato do resto dos partidos, do resto do país, bem podemos continuar nesta vida em que se debatem factos que não se sabem se existem ou não, suspeitas de corrupção e famílias de políticos, em vez de ir ao âmago das questões.

 

Há corrupção na nossa sociedade, há uma ineficácia atroz do nosso sistema de justiça, há um desgaste e um cansaço de todos perante tanto barulho para nada.

 

Os dinheiros públicos, as decisões dos governantes, etc., devem estar sob escrutínio público e o jornalismo livre e responsável é essencial na democracia. Mas quem escrutina as informações veiculadas pelo jornalismo se o sistema judicial não funciona?

 

O debate político está parado, esperemos que apenas em hibernação.

 

Sendo assim, vou aproveitando os 60 segundos de cada minuto para me dedicar aos múltiplos afazeres que me abafam. Vá lá que o dia hoje parece mais brilhante.
 

Traulitadas

O estilo trauliteiro do Ministro dos Assuntos Parlamentares demonstra que ele decerto levou uma traulitada na cabeça.

 

Deve ser por isso que têm medo, os militantes socialistas, das traulitadas de Santos Silva. Manuel Alegre vai mantendo o estilo reserva moral do PS até ao bocejo.

 

No país em grande e caótica cavalgada para uma crise que se alimenta das traulitadas dos bancos, dos empresários e dos desgraçados que regressarão das terras para onde emigraram, ouvimos as esperanças governativas e o seus comentadores e opositores destratarem-se, falando de medo e de situacionismo, em linguagem desadequada e cansativa.

 

Chega e sobra para o aumento da desesperança.

Barcelona

 

Giulia y los Tellarini

 

 

Por qué tanto perderse
tanto buscarse, sin encontrarse.
Me encierran los muros de todas partes.
Barcelona

 

Te estás equivocando
no puedes seguir inventando
que el mundo sea otra cosa
y volar como mariposa.
Barcelona

 

Hace un calor que me deja
fría por dentro
con este vicio de vivir mintiendo
que bonito sería tu mar
si supiera yo nadar.
Barcelona

 

Mi mente tan llena
de cara de gente extranjera,
conocida, desconocida
he vuelto a ser transparente.
No existo más.
Barcelona

 

Siendo esposa de tus ruidos
tu laberinto extrovertido
no he encontrado la razón
por qué me duele el corazón
Barcelona

 

Porque es tan fuerte
que sólo podré vivirte
en la distancia y escribirte
una canción.
Te quiero, Barcelona

 

Breve canção

 

(pintura de Connie Chadwell: A Little Tango)

 

Breve a canção de despedida
entre nuvens penumbras de nós dois
breve a canção entristecida
entre dúvidas de antes e depois.

 

Breve a canção morte querida
divididos os versos sem amor
breve a canção desvanecida
do sangue do sonho e da dor.

 

Breve o momento em que somos
o antes da canção que nos queimou
no amor dos versos que compomos
o depois do amor que nos cegou.
 

Vicky Cristina Barcelona

 

 

 

História de estereótipos de mulheres, de homens e mulheres latinos, do amor em Barcelona e Oviedo, do flamenco e das guitarras, do artista enquanto desequilíbrio e criação, autodestrutivo, das fantasias e da liberdade sexual de quem não tem barreiras.

 

Estereótipos gentis e credíveis, amáveis caricaturas do que somos, filhos do ambiente, das pedras, do vinho, das flores, das cores das cidades meio indígenas aos olhos de um americano como Woody Allen.

 

Não no seu melhor, mas um filme leve e, ao mesmo tempo, um filme que se nos cola como uma máscara invisível, mas que nos assenta bastante bem.

Os Insones

 

 

Tony Bellotto é um escritor brasileiro que também é guitarrista de uma banda rock – Titãs.

 

Não conheço nada da banda rock mas li de novo um livro escrito por ele, Os Insones, que foi uma prenda de Natal gostosíssima.

 

É uma escrita veloz e meio alucinada, totalmente cinematográfica, em que conseguimos ver as personagens e as acções a desenrolarem-se por detrás dos nossos olhos.

 

A violência nas favelas, nos lares da classe média, os idealismos e a sobrevivência sem ideias, as referências adolescentes, as drogas, o cansaço da vida arrumada, a procura do que há do outro lado, a solidariedade, os gangs e a morte, omnipresente, crua e como um hino à insónia de nos imaginarmos num mundo que é assim, mesmo ao lado das nossas vidas, mesmo a entrar-nos pela porta dentro.

 

É muitíssimo bom e, por ironia suprema, li-o em noites de insónia.

Ministério da Saúde - Ana Jorge

A Ministra da Saúde iniciou o seu mandato sob o signo do apaziguamento e de colocar em banho-maria as reformas impopulares que Correia de Campos tinha iniciado.

 

Mais uma vez, a pressão mediática pouco inocente todos os dias ecoava a indignação das populações, os partos nas ambulâncias, as mortes por atraso no socorro, etc.

 

Miraculosamente tudo se apagou desde que Ana Jorge tomou posse. Inclusivamente a situação em Anadia caiu no esquecimento, tendo ficado exactamente na mesma. Os jornalistas nunca mais se lembraram de alertar para essa grande injustiça e ataque à saúde da população.

 

Ana Jorge é uma Ministra que se tem mantido fora das luzes da ribalta, o mais possível. Mas agora recomeçam a virar os holofotes para o que diz.

 

A sua afirmação de que os prematuros deveriam ser tratados apenas em hospitais públicos tem pouco de ideológico e tem muito de profissionalismo e acautelamento da saúde dos mesmos prematuros. O treino de uma equipa de Neonatalogia, médicos e enfermeiros, as condições técnicas e o investimento nessas unidades e, principalmente, o número de prematuros que devem ser assistidos para garantir a melhor competência das equipas não se compadece com a multiplicação de serviços de Neonatalogia em unidades privadas. Aliás, de imediato, o próprio Bastonário da Ordem veio afirmar que esse investimento não interessa às unidades privadas.

 

A defesa do SNS, que Ana Jorge tem inscrita no seu percurso profissional, é uma esperança para que as negociações entre as estruturas sindicais e o ministério corram da melhor forma.

 

A falta de médicos de que muitos governos são responsáveis, pela manutenção de um numerus clausus totalmente irrealista, alimentado pela Ordem dos Médicos, é agora um assunto de emergência nacional. Não há médicos suficientes, os que existem estão numa faixa etária elevada, o que não permite a renovação dos serviços nem a manutenção da qualidade do atendimento por exaustão de meios humanos.

 

Não concordo com a ideia de trazer estudantes portugueses de medicina nas Universidades de Espanha e da República Checa para acabarem o curso em Portugal, porque considero que isso é uma afronta a quem, por motivos económicos, não conseguiu seguir a sua vocação. Mas acho que devem ser dadas todas as condições a quem acaba essa licenciatura, de concorrer em pé de igualdade com os médicos que se formaram em Portugal. Ou até dar-lhes alguns incentivos, pois eles estarão a concorrer já num mercado internacional. Também, haverá injustiça nestas situações, mas será menor e, a verdade é que não há muitas soluções.

 

A tentativa de formação e acreditação dos cursos de medicina e de especialidades médicas de profissionais vindos de países fora da União Europeia, que tem estado a ser efectuado em conjunto com a Fundação Gulbenkian, é também uma proposta de solução. Assim como a possibilidade de abrir vagas para licenciados em áreas de ciências da saúde para quem sempre quis tentar medicina. Não conheço a realidade da Universidade do Algarve, os seus curricula ou os seus métodos de ensino, por isso não me posso pronunciar, mas obviamente é preciso que não tenhamos médicos de primeira e de segunda, sem credibilidade para exercer medicina e tratar os doentes com todos os requisitos de competência e rigor que se exigem aos formados nas outras Faculdades de Medicina.

 

As opções não são muitas. E ainda bem que há ideias, mesmo que algumas não sejam fantásticas. O problema é emergente.
 

Quanto ao facto de os problemas do SNS estarem na sua organização e de serem responsabilidade das Administrações Hospitalares e Direcções dos Serviços, é absolutamente verdade. Mas não é menos verdade que as Administrações são nomeadas pelo Ministério da Saúde. Onde está a avaliação e a demissão dos que não cumprem?

 

 

 

Luta política em baixa versão

Não é possível tentar ignorar a pouca vergonha do que se tem passado com o caso Freeport.

 

Não se trata da investigação do MP, do DCIAP, da PGR, sei lá mais de quem. Trata-se apenas de, a reboque de uma investigação que, como de costume, se arrasta penosamente e sem brio em todos os casos e mais gravosamente, em todos os que envolvem responsáveis políticos, fazer assassinato de caracter com fins políticos.

 

Não é possível tentar ignorar a verdade. A justiça está a ser usada e instrumentalizada por quem está interessado em descredibilizar o Primeiro-Ministro. Tudo é usado, até a compra de uma casa pela mãe de José Sócrates, anos antes do caso que, alegadamente, como agora se diz, está a ser investigado.

 

No início o processo Casa Pia acreditei piamente que haveria gente com cargos de responsabilidade pública que estariam envolvidos, e sempre esperei que a justiça prevaleceria. O resultado foi coisa nenhuma, as prometidas revelações e os terramotos que se iriam sentir apenas se concretizaram na decapitação política do aparelho do PS.

 

Esta é a realidade.

 

José Sócrates não está acima da lei, tal como não está Mário Crespo, Daniel Oliveira, Marcelo Rebelo de Sousa, a D. Anabela do café da esquina ou seja quem for. Se há indícios que levam a investigar processos pouco claros que se investiguem, o que não é possível é manter por semanas esta pressão em cima de um cidadão, com a sensação de que o que interessa não é chegar à verdade.

 

Neste caso, como noutros, a verdade é o que menos interessa. Isto é luta política, na sua mais baixa versão.

 

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